WALMIR AYALA

Por O Santo Ofício | 11 fevereiro, 2012

Pertence Walmir Ayala àquela rara e singular linhagem de escritores que são também artífices e estilistas.

Por Franklin Jorge

Agraciado por múltiplos talentos, dominando com mestria todas as formas da escritura, pertence Walmir Ayala àquela rara e singular linhagem de escritores que são também artífices e estilistas.

Cultuou todos os gêneros com inesgotável energia e discernimento, sendo, neste aspecto, da mesma família espiritual e literária de um Oscar Wilde, porém mais complexo e beneficiado pelo que Marcel Proust chamou de “o conhecimento posterior”.

Seu memorável surgimento, em fins dos anos 50, ainda muito jovem e dominado pelo entusiasmo que caracteriza o talento, constitui um grande acontecimento ou um fato estético que se consolidou em seguida, com trabalho e persistência, numa obra personalíssima interrompida apenas pela morte, que nos sonegou ao convívio e às letras nacionais, num só golpe, o poeta lírico, o romancista, o diarista, o dramaturgo – no seu caso, seria mais adequado recorrer ao antigo termo de “poeta dramático” –, o critico, o ensaísta, o cronista, o agitador cultural e, sobretudo, o criador lúcido e generoso que se irradiou sem cessar, no curso dos anos, como uma sombra benfazeja e magnânima sobre a cultura da sua época e do nosso tempo.

Exorbitando-se de si mesmo, como uma força da natureza, Walmir expandiu-se com o século. Não surpreende que tenha se feito admirar por todas as gerações -anteriores e posteriores ao seu surgimento -, sagrando-se, no apogeu da sua estrela cambiante e bela, uma espécie de “Príncipe das Letras” e “Rei do Rio”, cidade que encarnou em seu cosmopolitismo.

Sua vida, intensa e fecunda, terá sido feita mais de trabalhos que de dias. Assim viveu, sabendo que um dos deveres do intelectual cônscio do que cria consiste em ir sempre mais além.

Neste aspecto, sua obra é um exemplo acabado e perfeito, da inquietação que o avassalava e, do ponto de vista fenomenológico e estético, um modelo para os mestres.

Como critico, ou seja, como leitor da criação artística, deu autonomia a um gênero antes associado ao registro jornalístico, fazendo-se, entre nós, uma referencia e a um tempo corroborando o que antes dele dissera o Prêmio Nobel inglês T. S. Eliot, “o melhor critico é o poeta”.

Walmir Ayala ocupa um lugar distinto na poesia contemporânea, o que num certo sentido faz dele um poeta obscuro, não acessível a leitores desprevenidos daquela espécie de refinamento que prodiga a alta cultura.

Não se trata, porém, de um poeta esotérico, incompreensível ao leitor que quer apenas distrair-se ou conhecer etc, pois apesar de sua requintada arte poética, manteve-se – como ser humano – sintonizado com a realidade circundante, interagindo, fazendo-se assim um dos mais carismáticos intérpretes da vida e, como tal, sensível em alto grau aos fenômenos sociais que traduziu em voltagem lírica, num tom viril, ao transfigurar em um mundo novo de sugestões poéticas os acontecimentos do dia a dia.

Em sua abundante colheita, capaz de desnortear a critica pela variedade de seus dons, inscreveu o seu nome de maneira indelével como um dos escritores mais representativos da nossa língua, que ele enriqueceu substancialmente, através da elaboração de uma obra carismática que desperta nos leitores uma amizade duradoura e fecunda.

Não sei se caberia registrar aqui, a titulo de curiosidade, a maneira pela qual o descobri, ainda muito moço, através de um conto seu publicado numa revista que deu um novo direcionamento ao jornalismo brasileiro.

Circulando uma vez por mês, a “Realidade” trazia em cada número um conto ou fragmento da obra de um grande escritor, entre os quais Borges, Faulkner, George Orwell, Curzio Malaparte, e, naturalmente, o nosso Walmir Ayala, que a minha avó leu em voz alta para mim e que me despertou, ao ouvir as aventuras do Coelhinho Miraflores, um desejo insubornável de conhecer o seu autor que me encantara com a magia ilusionista da sua arte literária. Escritores, entre nós, pouco lidos.

Alguns anos depois, creio que entre os meus 19 e 20 anos, fui encontrá-lo no Rio, morando em Ipanema, à Rua Barão da Torre, onde o visitei uma tarde. Permitam-me transcrever um fragmento de “Os Diários do Rio”, em cujas páginas consignei esse encontro memorável:

A primeira vez em que estive em sua casa, em Ipanema, um elegante apartamento à Rua Barão da Torre, Walmir Ayala estava sentado numa cadeira de espaldar alto, como um mandarim, vestindo um suntuoso roupão de seda verde com dragões matizados de uma paleta de verdes e azuis debruados de riscas douradas. Uma mulata jovem e silenciosa massageava-lhe os pés, enquanto sobre seus joelhos, Gustavo, então um menino de quatro ou cinco anos, puxava-lhe a barba negra e bem cuidada.

Era a quadra tumultuosa de sua relação com Adolfo, quando Walmir, no auge de seu prestígio e requestado por todos, reinava sobre as letras e as artes tendo como cetro o seu prodigioso talento. Ele teria pouco mais de quarenta anos, enquanto eu ainda mal completara vinte.

Walmir recebeu-me como se fôssemos velhos amigos, pedindo-me notícias do Ceará-Mirim e de Natal, cidade que o encantara por seu relevo geográfico e por sua estonteante luminosidade.

Seus sonetos, consagrados a uva e ao vinho, ampliam uma temática que faz parte da história do próprio homem. Reportam-nos a uma tradição registrada no imaginário universal e nas culturas antigas e modernas, como elemento indispensável às celebrações da vida, do convívio humano, do prazer e da alegria e, por que não?, como recurso capaz de anestesiar a dor da existência.

Já disse o poeta que nada iguala a alegria do homem que bebe, a não ser a alegria do vinho por ser bebido. Em todos os momentos da história está presente o vinho que traz alegria ao coração do homem e resplandece no bronze de Homero e de Borges; desde tempos imemoriais passando de mão em mão e de gole em gole, como o rubro sangue de Cristo.

.Natal, 25 de outubro de 2009


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