UM FILME MUITO AQUÉM… DO ALÉM
Por O Santo Ofício | 3 setembro, 2010
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Por Bernardo Queiroz
e Kássia Alcântara,
do Acerto de Contas
Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que qualquer comentário sobre ‘Nosso Lar’ é feito como uma peça de cinema, não é uma opinião sobre a religião espírita em si. Não sei quase nada dela, então qualquer opinião neste artigo reflete tanto essa ignorância pessoal, como meu desejo de uma avaliação do produto de mídia. Com isso estando dito…
‘Nosso Lar’ é a mais nova megaprodução do cinema nacional, praticamente um Spin Off do bem mais competente ‘Chico Xavier’, um recente sucesso de bilheteria nacional. Dirigido por Wagner de Assis, um roteirista que só fez bombas anteriormente (Xuxa e os duendes, Xuxa Requebra, Xuxa Popstar… é, vocês pegaram a ideia). A única produção em seu currículo como diretor foi A Cartomante (1994). E sinceramente, acredito que isso aparece, em ‘Nosso Lar’.
A história retrata o personagem André, um médico do início do século 20 (aparentemente), que ao morrer, se descobre em algum tipo de inferno grupal. Depois de algum tempo de sofrimento, ele é resgatado e levado para a comunidade/cidade chamada Nosso Lar, onde é apresentado a esta nova “vida depois da vida”. Esse tipo de temática já foi abordada antes em produções bem mais competentes, como Amor Além da Vida (What Dreams May Come, EUA, 1998), com Robin Williams, que é a que vem à mente com mais facilidade.
A total inexperiência do diretor com cinema de verdade aparece de maneira gritante. ‘Nosso Lar’ tem um uso razoavelmente competente de cenários de fundo feitos em computação gráfica, com uso de telas verdes, algo não muito comum no cinema nacional. Até acredito que poderia ser feito mais vezes, abrindo mais o leque de temáticas no cinema realizado por aqui. Mas aí este senhor Wagner de Assis nos prende com enquadramentos e montagem de novela dos anos 90, com imagens próximas dos rostos dos atores, e assim corta qualquer possibilidade maior de utilização destes cenários na composição.
Os cenários em si são limpos, às vezes por demais brilhantes, com um tipo de efeito de brilho glow, colocado na pós-produção, que impede que observemos mais detalhes da cidadela. Aliás, os prédios de ‘Nosso Lar’ parecem ter uma clara inspiração nos de design à la Oscar Niemeyer, numa versão futurista high-tech sci-fi, cromaticamente brilhante, da cidade de Brasília. Sei não…
Como se não fosse suficiente, temos o trabalho dos atores. Os atores, a grande maioria com pouca ou nenhuma experiência em cinema, entregam performances relativamente sem brilho. André Luiz é interpretado por Renato Prieto, se esforçando para representar um personagem com pouco conflito. Na verdade, o que acontece é que a plateia se sente um pouco como André: confuso, incrédulo e com dificuldade de seguir o que está acontecendo com ele. A diferença é que ele eventualmente se ajusta, enquanto nós continuamos num estado de tédio e descrença por mais tempo.
Acredito que um bom pedaço disso seja culpa do texto adaptado: é um texto duro, com pouco espírito (com o perdão do trocadilho) e com uma narrativa lenta, devagar quase parando. Dá perfeitamente para sair para ir ao banheiro em quase qualquer parte do filme, sem que sinta-se que se perdeu grande coisa. Apenas um pouco de conflito do André com a opinião post-mortem de sua família sobre ele é capaz de tocar a plateia no fim do filme.
A trilha sonora também marca pesadamente pela escolha do uso constante de instrumentos solenes como piano e violinos. Acaba sendo uma trilha que distrai, já que ele é jogada sobre as cenas dramáticas de André Luiz. Acho que Wagner Assis andou tomando aulas com Christopher Nolan, diretor de Batman: Cavaleiro das Trevas. O maestro responsável é Philip Glass, que já fez as trilhas de filmes de Woody Allen como Sonho de Cassandra, e filmes caros como O Show de Truman.
No fim, fica a sensação de um filme de uma hora e quarenta que pesa mais do que as quase três horas de um ‘A Origem’. ‘Nosso Lar’ tem grande investimento, tanto na parte de computação gráfica quanto na música, mas acaba morrendo na praia (novamente, com o perdão do trocadilho). Afinal, quando uma segunda guerra mundial estoura, nada realmente parece mudar de prático na vida de André, nem em ‘Nosso Lar’, e nem nas pessoas ao redor dele. E se uma guerra não é capaz de fazer uma cidade como Nosso Lar mudar, nada mais é capaz…




2 Comentários
vampiro vegetariano on 3 de setembro de 2010 at 10:52.
Se a (há?) vida depois da morte for tão medíocre quanto essa adaptação canhestra do mais vendido livro psicografado por Chico Xavier, sinceramente, prefiro mesmo nem ter espírito. O invólucro me é bastante.
rafael on 3 de setembro de 2010 at 23:04.
crítica de merda