MICARLA DÁ ‘COLHER DE CHÁ’ À IMPRENSA

Por O Santo Ofício | 3 setembro, 2010

Por Roberto Guedes

Recebí ontem mensagem convocando jornalistas para uma entrevista coletiva que a prefeita Micarla de Souza agendou para esta sexta-feira na sede da secretaria municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Semurb), e fiquei conjeturando como a burgomestra natalense resolveu ensejar aos jornalistas natalenses rara oportunidade de demonstrar auto-estima, amor próprio e respeito pelas suas profissão e carreiras.

Por sorte, a arenga não está programada exatamente para o gabinete da autoridade que na última quarta-feira, 1°, anteontem, expulsou da sala de despachos da Prefeita, com toda certeza a pedido desta, dois jornalistas que profissional e eticamente ali se encontravam para cobrir um evento de real interesse público, um encontro entre a chefe do executivo municipal e empresários do setor mais forte da economia natalense e norte-rio-grandense, o turismo.

Estranho aos quadros das profissões abrangidas pelas comunicações sociais, o titular da Semsur, petroleiro e ex-vereador Olegário Passos, tem demonstrado mais respeito pelos repórteres do que os comunicadores que patrocinaram a agressão da terça-feira.

Escuso-me a pesquisar sobre o que haveria de tão solerte ao ponto de não dever ser alcançado pela cobertura jornalística e mostrar transparência, em mais um episódio de uma gestão pródiga em contratações milionárias sem respeito à salutar licitação pública.

Nem me impressiona a notável cultura epitelial de disc-jókey de velha rádio AM que, pau mandado, sem cerimônia alguma expulsa e convoca em morde-assopra sem consideração alguma.

Chegaram-me sete mensagens com o mesmo convite, mas, por uma questão principiológica, não comparecerei. Micarla e seus expulsadores de jornalistas deveriam visitar os dois colegas agredidos, a sede do Sindicato dos Jornalistas e todas as redações jornalísticas de Natal, para pedir desculpas olhando nos olhos e mostrando sinceridade, para poder receber o acatamento de convocação para entrevista coletiva de interesse dela, da edilidade e de seu grupo.

Jornalista vocacionado, o que sinto na encenação à vista é uma nada sutil montagem de sorte a sugerir que também na gestão atual a edilidade, chefiada por um dos jornalistas de fisionomia mais bem situada na memória e no inconsciente coletivos da população natalense, tem algum respeito pelos profissionais da área. Demonstrou o contrário na vilania de anteontem e fará pior hoje ao dobrar jornalistas fáceis tão bem catalogados anos atrás pelo legendário Luiz Maria Alves.

Não sei quantos se curvarão agora; afinal de contas, são muitos os profissionais vinculados direta ou indiretamente aos mandantes de ocasião.

Quanto aos verdadeiros jornalistas, não sugiro que alguém vá jogar sapato, a exemplo do que fez aquele iraquiano em desfavor do menor carente George W. Bush. Afinal, Jesus Cristo, Ghandi e Madre Teresa de Calcutá, assim como Irmã Dulce, nos ensinaram sobejamente que violência não se paga na mesma moeda.

Numa hora destas, só me recordo de jornalistas do primeiro mundo que há alguns anos foram convidados para função deste jaez (e aí o termo está sendo empregado na acepção que lhe conferem o “show biss” e principalmente o mundo circense) por um respeitável homem público que, em momento de infelicidade diretamente proporcional às suas desmedidas ambição e falta de verdadeiro espírito público.

Compareceram em massa ao local da entrevista coletiva e, quando o artista chegou, sem nada terem combinado, os repórteres de jornal depositaram cadernetas e canetas no chão à sua frente, junto aos respectivos calçados.

Prontamente foram seguidos, um a um, pelos repórteres de rádio e televisão. Em menos de meio segundo, o chão à frente dos jornalistas e à vista emudecida do entrevistado estava inteiramente tomado por cadernetas, canetas, microfones, gravadores e câmeras fotográficas e de televisão.

Sei que, como ensinou Cascudo, Natal não consagra nem desconsagra ninguém.

A questão é de dignidade humana e senso profissional.

Faltando isto, nunca a profissão mostrará que seu compromisso não é com os poderosos, e sim com o cidadão anônimo e comum que ainda confia nos jornalistas.


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