A EMBAIXATRIZ DE GOIÁS

Por O Santo Ofício | 29 agosto, 2010

Transcrito do NOVO JORNAL, Natal [RN], 29-08-2010

Por Franklin Jorge

Nos anos setenta, a escritora goiana Alcyone Abrahão se radicou em Natal e transformou sua casa à Rua Apodi 558 numa espécie de “Embaixada de Goiás”, onde recebeu Siron Franco, Jorge Amado e outras personalidades, em meio a uma galeria de obras de conceituados artistas, como o próprio Siron, Cléber Gouveia, Frei Confaloni, Antonio Poteiro, Octo Marques, D. J. Oliveira, Ana Maria Pacheco, Veiga Vale, Goiandira do Couto, Omar Souto etc. Artistas cuja obra podemos apreciar ao vivo pela primeira vez.

Passamos todos a admirar a cultura goiana e, para estabelecer um intercambio entre as duas capitais, organizamos juntos a mostra “Arte Potiguar em Goiás”, apresentada na Galeria Casa Grande, de Goiânia, criada por Jayme Câmara, o magnata da imprensa no Centro Oeste, com jornais e emissoras de tevê espalhados por Brasília, Goiânia e Palmas.

Juntos, organizamos uma exposição no Centro de Turismo de Natal onde a obra de alguns artistas da sua coleção puderam ser vistas e apreciadas pelos natalenses.

Aqui, sua casa se transformou num pólo de cultura informal, onde a inteligentsia jovem da época se reunia para conversar e discutir sobre política e cultura em meio a uma seleta e preciosa pinacoteca que se enriqueceu com obras de Fernando Gurgel, Dorian Gray, Vitoriano, Arruda Salles e Diniz Grilo, entre outros que não me ocorrem agora.

Nessa temporada que resultaria numa experiência mútua para muitos de nós, Alcyone começou a sistematizar as informações que constituiriam o seu livro mais famoso e representativo da sua inquietação intelectual, “Não coloque o macaco diretamente sobre o pavimento”, cujo titulo faz alusão a uma placa que ela viu e fotografou numa BR no estado da Paraíba.

Aqui, escrevendo nos jornais locais, empenhou-se em divulgar sua terra e sua cultura, até então, para nós, desconhecidas. Foi através dela que conheci e saboreei a gastronomia goiana e me deleitei, pela primeira vez, com os doces de Cora Coralina, de quem era amiga e admiradora. Eu me lembro que ela me presenteou com uma terrina de Furrundum, um doce tradicional de Goiás.

Devorei sua biblioteca, travando contato com os grandes escritores goianos como Cora Coralina, Carmo Bernardo, Bernardo Élis, Hugo de Carvalho Ramos, José Décio Filho, José Antonio de Moura, José Godoy Garcia, José J. Veiga, Bariani Ortêncio, Miguel Jorge, Maria Helena Chein, Yêda Schmaltz, Amália Hermano Teixeira, Maximiniano da Matta Teixeira, Regina Lacerda, Brasigóis Felício, José Mendonça Telles, entre outros notáveis construtores da goianidade. De alguns desses escritores e artistas tive a honra de me tornar amigo e divulgador.

Organizamos, Alcyone e eu, a mostra coletiva “Arte Potiguar em Goiás”, reunindo a nova geração de artistas norte-rio-grandenses integrantes o Grupo Cobra, entre os quais, Fernando Gurgel, Vicente Vitoriano, Gilson Nascimento, Flávio Américo Novaes, Nival Mendes, Fernando Oliveira e Arruda Salles, uma plêiade enfim do que tínhamos de mais representativo.

Personalidade carismática, Alcyone havia algum tempo perdera a cátedra universitária, confiscada pela ditadura militar que dominava então o país. Certa vez ela me confidenciou que o seu sonho era ser atriz e, por isso, teria optado por ser professora, atividade que considerava a atividade mais próxima daquilo com que sonhara.

Escritora, crítica de arte, animadora cultural, a contribuição de Alcyone Abrahão à divulgação da cultura potiguar e goiana está merecendo um estudo acurado. Muito lhe devemos, Natal e Goiânia.

O CENTENÁRIO DE UM CLÁSSICO
O escritor Américo de Oliveira Costa teve o seu centenário de nascimento comemorado há pouco.

Nascido em Macau, escreveu “A Biblioteca e seus habitantes”, um dos raros livros escritos por autor local para ser lido e relido, como um clássico da mesma estirpe humanista de “Prelúdio e Fuga do Real” (Cascudo), “Imagens do Tempo” (Edgar Barbosa). “Imagens do Ceará-Mirim” (Nilo Pereira), “A Várzea do Açu” (Manoel Rodrigues de Melo “A Província Submersa” (Octacílio Alecrim)), “Oiteiro” (Madalena Antunes), entre uns poucos outros que já se integraram ao nosso classicismo literário, ou seja, àquela espécie de livros escritos para serem relidos, como um alimento espiritual.

É pena que, a exceção de um livro produzido por um neto do grande escritor, o Rio Grande do Norte e a Academia Norte-rio-grandense, da qual ele foi um dos fundadores, o tenha esquecido nessa data reverenciada por todos os que, no Rio Grande do Norte, levam a cultura a serio.

*Leia também, no NOVO JORNAL a coluna de Franklin Jorge “A novela eleitoral”, através da qual ele comenta todos os dias o Guia Eleitoral do TRE-RN


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