A POLITICA MORREU?
Por O Santo Ofício | 19 agosto, 2010
Por Walter Hupsel, de Yahoo Noticias
Na semana passada falei sobre a falta de debate que, por enquanto, parece ser a regra desta eleição. Os temas, as conversas, foram mais enfadonhas que eleição de síndico de prédio. As discussões eram sobre perfumarias, sobre acessórios, e nenhum assunto estrutural foi debatido.
Era um tal de egolatria pra lá, egolatria pra cá: “eu vou fazer”, “eu vou resolver”, “eu vou incentivar”… Era, de fato, a escolha de um administrador, de um gerente, e não de um estadista.
Agora tratarei do mesmo tema, visto de uma outra perspectiva: os candidatos aos cargos proporcionais, os deputados estaduais e federais. Assisti estupefato a estes dois dias de programa eleitoral “gratuito”. Foi um festival de “eu vou cuidar disso”, “eu vou cuidar daquilo”.
O leitor pode, ao seu bel prazer, substituir o isso e o aquilo por qualquer tema. É um desfile de figuras dantescas prometendo salvar o mundo, usando de chavões e assuntos genéricos na tentativa de seduzir o eleitor.
“Vou cuidar das crianças, contra a pedofilia”, diz um cantor de uma bandinha que é também candidato. A primeira pergunta que cabe em relação a estes discursos é: E quem é a favor da pedofilia? Ou quem é contra a melhoria na segurança pública? Quem quer piorar a saúde?
Enfim, poderia seguir com estas perguntas eternamente que, do jeito que o assunto é colocado, não haveria nem debate público e nem antagonismos. Não haveria esfera pública e, sem a existência dela, não há nenhuma possibilidade de política. É o que parece acontecer, pelo menos por enquanto.
Parece que chegamos mesmo a era do fim das ideologias, do fim das macro-ações, do fim da história. Agora resta aos atores políticos prometer afeto, carinho e cuidados à população (e este é o segundo ponto).
Pois é isto mesmo que se apresenta, a levar a sério os discursos: o estado-enfermeira, gentil, com um espírito quase maternal, beneficente e benevolente. Como também fosse interesse de todos estes cuidados, imperativos, um maná que cai na terra, sem conflitos ou contradições.
Assim, o que se apresenta perante nós é a tal crise dos paradigmas. Não existiriam mais ideologias, pensamentos ou grandes narrativas, e o mundo tedioso (nas palavras de Francis Fukuyama) seria a realidade perene. Cuidar da segurança pública? Claro! Ninguém quer viver como no filme de Mad Max, num estado de natureza hobbesiano.
A grande questão é como, em que linha. Se no simples e brutal encarceramento daqueles que cometem qualquer delito ou se numa outra lógica, menos mecânica, ou tentando entender a real profundidade do fenômeno e encará-lo de forma a resolvê-lo? Com quais recursos? E como faremos? Em detrimento de que outro segmento? Sim, porque não precisa ser gênio matemático para saber que os recursos são escassos e uma escolha é sempre uma renúncia do outro lado.
Esta é decisão que não está contemplada nos debates, seja para cargos majoritários seja para os proporcionais, que é a escolha política, de valores que se chocam com outros e são, em certa medida, irreconciliáveis.
Sem querer ser simplista e reducionista demais, e já sendo, é isto o que é política. É conflito, é antagonismo. Se saiu de pauta por aqui, se somos todos enfermeiros, é muito mais um daqueles momentos de refluxo da onda do que o fim, a morte de algo.
Sobre tudo dito acima, não consigo me esquecer do maior anticlássico das Relações Internacionais, “A Grande Ilusão”, de Norman Angell, que, em 1910 apontava para a irracionalidade das guerras e vaticinava que elas estavam sepultadas para sempre no passado e que o mundo viveria, a partir de então, numa era eterna de paz, cooperação e desenvolvimento.
Desnecessário dizer o que ocorreu quatro anos depois!




Viva voz