GOVERNO ABANDONA MUSEU NILO PEREIRA

Por O Santo Ofício | 17 agosto, 2010

Por Ormuz Barbalho Simonetti*

Ceará Mirim – Foi com muita tristeza que, pela segunda vez, nesses últimos três meses, visitei as ruínas do que foi, há bem pouco tempo, o Museu Nilo Pereira em Ceará-Mirim RN.

No último mês de maio, lá estive no finalzinho de tarde quando voltava de minha chácara, que fica no vizinho município de Maxaranguape.
Naquela ocasião fui atraído pela beleza da lua cheia que surgia por trás do casarão do antigo Engenho Guaporé.

Construído em meados do Século XIX, mais precisamente em 1850, em estilo neoclássico, o casarão foi residência do segundo vice-presidente da província do Rio Grande do Norte, Vicente Nelson Pereira, genro do Barão de Ceará-Mirim.

Fazia algum tempo que não percorria aquela estradinha que lava ao casarão. Costumava visitá-lo nos anos 80 e 90, quando trabalhava no Banco do Brasil e fazia fiscalização nas propriedades rurais da região.

Aproveitei o ensejo para ver de perto, a situação em que o mesmo se encontrava, pois naquela semana havia me chegado, por e-mail, uma filmagem de vândalos atirando pedras nos vidros que adornavam portas e janelas. Era uma cena deplorável.

Uns rapazes filmavam os outros, que naquela euforia bestial, se revezavam em atirar pedras, ao tempo que deliciavam-se com a destruição do patrimônio público e a memória da cidade.
Fiquei horrorizado pela cena e lamentei que aquilo estivesse sendo praticado por jovens, que pareciam ser estudantes que para ali tinham se dirigido com esse propósito, já que o museu está localizado em uma área que não é passagem para lugar nenhum.

Infelizmente a situação em que se encontrava o Museu, era pior do que eu havia imaginado. A guarita que fica na entrada, estava em ruínas. Suas portas e janelas foram arrancadas, e parte o telhado já havia caído. A estrada, calçada com blocos de cimento, que dá acesso ao Solar, estava totalmente coberta pelo mato, assim como o estacionamento.

Aproximei-me da porta, mas não tive coragem de entrar, pois como disse, já estava escuro e as casas de marimbondos caboclos, pendiam das portas e janelas em posição ameaçadora. Eram eles, junto com morcegos os guardiões daquele patrimônio.

Na entrada principal, impávido, lá estava um grande sapo cururu, bem postado na soleira, como se fosse o mordomo a espera do visitante. Esperava, talvez, alguma mariposa descuidada que por ali passasse em busca dos canaviais, que lhe complementaria sua refeição diária. Fiz algumas fotografias e prossegui viajem.

Hoje, como retornei da chácara mais cedo e estava acompanhado por alguns amigos, resolvi percorrer novamente aquele caminho coberto de mato, que leva ao Museu, com a intenção de mostrar aos amigos que me acompanhavam a situação de abandono que se encontrava aquele patrimônio de inestimável valor histórico.

Novamente me senti desconfortável diante daquelas ruínas, principalmente por ele ser parte da história da cidade de Ceará-Mirim, cidade que aprendi a amar e respeitar desde que aqui cheguei no início dos anos 80, para inaugurar a Agência do Banco do Brasil. Fiz e faço parte dessa cidade onde trabalhei durante 23 longos anos e conquistei grandes amigos.

Diante daquele quadro desolador, não pudemos deixar de nos perguntar: onde estão os Órgãos Públicos encarregados de manter e conservar aquele patrimônio?

Porque deixaram a situação chegar até esse ponto?

Que foi feito do mobiliário antigo que aqui existia?

Onde estão as várias peças, confeccionadas em jacarandá, e o belo piano de calda que adornava a sala principal?

É bem provável que hoje faça parte da mobília da casa de algum esperto, do tipo que considera o patrimônio público, como privado.

Adentramos ao casarão e pudemos constatar o que já imaginávamos quando chagamos próximos a entrada principal. Um verdadeiro espetáculo de destruição. Para todos os lados que olhávamos e por todos os cômodos que passávamos a visão era a mesma.

Cheguei ao pé da bela escada de madeira que lava ao sótão e resolvi subir. Temeroso pela minha segurança, pois não sabia o estado que ela se encontrava, prossegui degrau por degrau até chegar lá em cima. A todo tempo me desviando de morcegos e marimbondos, consegui chegar são e salvo até a parte mais alta do velho casarão.

O sótão, composto por vários cubículos, é beneficiado por uma boa ventilação. Uns compartimentos com mais altura e outros, acompanhando o telhado, terminam em locais tão baixos que não permitem uma pessoa ficar em pé.

No centro, onde fica a parte mais alta, uma janela para o nascente e outra para o poente, compõem sua arquitetura. Daquele local a visão é deslumbrante. Para o nascente se descortina o verde vale com seus canaviais ondulados ao sabor do vento.

Para o poente vemos alguns coqueiros centenários e por trás deles o verde escuro da mata, que esconde aos pouco o crepúsculo que chega com o final da tarde, também constitui uma visão maravilhosa.

Ainda foi possível observar que a última seção do corrimão da escada, que também servia de parapeito, havia desaparecido. O piso ainda apresenta bom estado, em virtude de ter sido feito com madeira de lei.

Entretanto, não pude deixar de notar que algumas tábuas estavam soltas, como se alguém as tivesse “preparado” para levá-las em outra oportunidade. Talvez a mesma pessoa que se apropriou indevidamente do corrimão da escada.

Quando já me preparava para descer, fui surpreendido com uma visão inusitada. Num canto do corredor, que separa as duas extremidades da casa, quase despercebido, lá estava imóvel e bem acomodado, o velho cururu. Não sei como o batráquio conseguiu chegar até aquele local, pois para isso, teve que vencer três lances de uma escada íngreme e de degraus muito estreitos.

Mas, o importante é que ele conseguiu, pelo simples fato de ter tentado. E nós porque não tomamos o exemplo daquele velho morador do museu e também tentamos fazer algo para salvar aquele monumento enquanto as paredes ainda resistem ao abandono, ao descaso das autoridades e ao ataque dos vândalos?

Por que não tentamos conseguir um pouquinho do nosso suado dinheiro, que principalmente nessa época, é usado na compra de votos e consciências desse nosso povo sofrido e culturalmente ignorante, para recuperar uma parte da nossa memória? É justamente MEMÓRIA o que mais nos falta.

Está literalmente em nossas mãos a oportunidade de mudar, escolhendo administradores comprometidos com a melhoria da Nação, principalmente no que se refere à educação. Um povo sem educação é presa fácil e sempre será refém de políticos espertalhões.

Natal, 13 de agosto de 2010.

*Presidente do Instituto Norte-Rio-Grandense de Genealogia e membro do IHGRN e da UBE-RN


12 Comentários

Lucia Helena Pereira on 17 de agosto de 2010 at 8:15.

FRANKLIN JORGE:

NILO PEREIRA LUTOU TANTO PELA RESTAURAÇÃO DO VELHO SOLAR! EU, FORÇA PEQUENINA, LUTEI MANDANDO CARTAS, LOGO APÓS A ADMINISTRAÇÃO DE TEREZINHA MELO (EXCELENTE PARA A CULTURA DO VALE).
GRATA PELO APOIO COMO BOM CEARAMIRINENSE.

AMO-TE!

LUCIA HELENA PEREIRA
TRI NETA DO SOLAR GUAPORE

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Maria Emilia de Lavor on 17 de agosto de 2010 at 8:19.

O presente artigo espelha a realidade dos fatos e a má qualidade dos nossos administradores.
O que surpreende é que nos ultimos anos os governantes sempre falaram muito em cultura, mas ninguem vê ação deles nessa área que juntamente com a saúde, a educação e a segurança continuam menosprezadas.
Não sei como ainda tem gente que vota em politicos tão corruptos e despreparados para o exercicio de funções que deviam ser ocupadas por gente qualificada.
Parabéns, sr. Ormuz pela coragem de se opor a esse estado de abandono criminoso contra o patrimônio cultural da nossa terra.
Maria Emilia de Lavor

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Magnólia Ribeiro on 17 de agosto de 2010 at 11:45.

Nossos governantes só têm papo eleitoral. Não sáo capazes de fazer nada, aí está a educação do RN na UTI, a segurança na UTI, a saúde na UTI enquanto todos eles folgam e se divertem às nossas custas. Essa ex-governadora e seu substituto são o que tivemos de pior até este momento (sem contar Garibaldi Alves, que não fica atrás desses dois que esatão aí).
Graças a Deus ainda temos jornalistas que publicam os fatos e tem coragem de enfrentar esses estafermos.

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Marliete Moura Lemos on 17 de agosto de 2010 at 11:56.

Uma vergonha, um museu histórico chegar a esse estado de abandono por parte do governo do Rio G. do Norte! Estou indignada. Deus nos livre desses politicos falastrões e enganadores que de 4 em 4 anos batem às nossas portas mendigando votos.
São pessoas que merecem o nosso repúdio!
Quando vejo o que está acontecendo no Ceará Mirim, que fica nas “barbas” do governador, imagino o que não acontece em lugares mais distantes de Natal, onde o governo sõ vai quando está em jogo algum interesse eleitoreiro…
Meu Deus! Esses últimos anos foram de calamidade para o Brasil: aqui, gente como a ex-governadora e seu substituto e no plano nacional, Lula e o PT.
Ainda bem que temos um espaço como este para protestar e tomarmos conhecimento do que a imprensa comprometida com o poder escodne.

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Evandro Salles on 17 de agosto de 2010 at 12:07.

O sr. Ormuz Simonetti foi muito feliz escrevendo esse artigo e mostrando para todo o nosso povo a qualidade dos politicos que nos governam. Considero um verdadeiro escandalo esse descaso com um museu, num estado que carece de equipamentos dessa natureza. Ainda mais um museu instalado num solar histórico, na senhorial cidade do Ceará Mirim, a cidade dos barões, de tanta importancia economica na época do Império e até recentemente, antes da aparição na politica do RN de Geraldo Melo, de quem o povo acabou se livrando e expulsando da politica.
Fica aqui o meu voto de indignação.
Evandro Salles

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Alice Pereira on 17 de agosto de 2010 at 12:33.

Estou envergonhada.
Alice Pereira

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Amaro Sena on 17 de agosto de 2010 at 16:32.

NossoRN tá acabado!

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Sarina Vieira Mota on 17 de agosto de 2010 at 17:05.

O sr. Ormuz merece nossos parabens pela clareza de firmar posição contra esse desmantelo generalizado.
FJ, seu site é excelente. A prova está na boa qualidade das matérias e da recepção junto aos internautas.

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Almira Costa on 17 de agosto de 2010 at 19:23.

Dr. Berê-berê, tome tento homem! Pense nos seus netos: deixe-lhes boas lembranças.

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Carlos de Miranda Gomes on 18 de agosto de 2010 at 6:21.

Franklin,
A publicação do artigo de Ormuz é um serviço relevante à brava terra dos canaviais. É imperioso a cobrança de providências ao Poder Público. Onde estão os Vereadores de Ceará-Mirim? Precisam mostrar as suas responsabilidades. Eo Prefeito, um homem formado em Direito, ficoiu cego?
Não deixem o assunto morrer, vamos PROTESTAR E COBRAR UMA SOLUÇÃO.
Parabéns Franklin pelo engajamento nessa luta sagrada.

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Lia Matois on 18 de agosto de 2010 at 7:18.

SUCESSO!

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SONIA MARIA PAIVA on 25 de outubro de 2010 at 11:26.

estou feliz com a chamada de atenção sobre meu municipio. obrigada pela atenção

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