NO RASTO DE MASSILON

Por O Santo Ofício | 16 agosto, 2010

Transcrito do NOVO JORNAL

 

Por Franklin Jorge

 

Livro que é uma aventura no tempo e pelos sertões de cinco estados brasileiros, Massilon revisita o cangaço e dá-nos o que o seu autor chama de “nova onda”, um modo de dispor a informação sob a forma de um relato de viagem através do qual os fatos vão aflorando de maneira macia, como numa conversa.

 

De fato, a fase da coleta de dados já passou, mas não no presente caso que contempla Massilon, personagem secundária do cangaço e, a exceção de Jesuino Brilhante, o cangaceiro romântico do bairrismo idealista, não temos senão Massilon para ilustrar a contribuição efetiva do Rio Grande do Norte ao cangaço nordestino.

 

Honório de Medeiros conta que esse nome se fez presente em sua infância em cidades do Oeste. Eu também o ouvi, na várzea do Açu, nas conversas de alpendre, no Estevão. Porém sem detalhes, a não ser que vivera lá para as bandas de Luis Gomes e desaparecera, nem morto nem vivo para os sertanejos.

 

Massilon tem um subtítulo, “nas veredas do cangaço e outros temas afins” e recria duas peripécias distintas que dão ao texto uma nova maneira de seguir por trilhas tão batidas: a viagem no tempo em busca de Massilon e a do processo em que se escreve o livro que agora acabei de ter debaixo das vistas. Esse processo enseja a circunstancia, o inevitável, enfim uma rede interminável de comunicações vivas que resultam do trabalho de campo.

 

Difícil escrever sobre um livro no qual tenho estado tão presente em todas as etapas de um processo a que o seu autor me associou, convidando-me para pesquisar em sua companhia as pegadas de Massilon, e me propôs – e eu não acatei senão nos raros momentos em que tive a compulsão de anotar impressões, insights, em vez do diário de bordo que comporia uma “segunda opinião”, ou melhor dizendo com mais pertinência os “dois lados” de um registro que se faz no curso de muitos quilômetros e vigílias e o que há nessas infinitas horas de elaboração de factual e circunstancial no livro, como dizem os especialistas.

 

Sei que perdi essa oportunidade sem reprise. Mesmo assim, ainda escrevi sobre alguns lugares e pessoas que fomos encontrando nesse périplo por sertões do Alto oeste potiguar, da Paraíba e do Ceará, estados vizinhos que percorremos nesse roteiro previsto por Honório e que nos fez parar em Patos, onde há uma atmosfera universitária, uma latente vida intelectual e artística das quais tivemos indícios pelo volume de publicação e qualidade de alguns artistas plásticas.

 

Mesmo assim, o que escrevi cria um curioso contraponto a essa leitura de “Massilon” que foge ao lugar comum e às coisas feitas, avançando numa nova direção da qual o cangaço é mero pretexto para outras realizações que ampliam o nosso conhecimento do Nordeste e da nossa cultura rude e viçosa.

 

Honório promove muitos encontros afins em Massilon, livro que representa essa “nova onda” inspirada pelo autor que o faz indo beber às fontes, embora recorra a autores que o ajudaram a contar essa história que tem alguns capítulos transcorridos em terras potiguares.

 

O livro abre com uma citação de Massilon, Jean Baptiste Massilon, o celebre orador sacro que viveu na França (1663-1742) sobre a verdade, “essa luz celeste”, a única coisa no mundo que se faz objeto dos cuidados e das investigações do homem:

“Só ela é a Vida da nossa virtude, a regra do nosso coração, a fonte dos verdadeiros prazeres, o fundamento das nossas esperanças, o consolo dos nossos temores, o alivio de nossos males e de nossas penas. Todos os nossos cuidados deveriam limitar-se a conhecê-la, toda a nossa loquacidade a publicá-la e todo o nosso zelo a defendê-la”.

 

Não se trata de um produto acadêmico, mas de uma obra que embora se leia fluentemente está regida pela disciplina e por um rigor de pesquisa e composição. Obra de quem domina o assunto e o faz sem ranço acadêmico.

 

O sumário é elucidativo dessa virtude que faz do livro uma viagem repleta de acontecimentos – como o solene funeral do radialista em Cajazeiras -; um viagem povoada de incidentes históricos, pitorescos, imprevisíveis e vivazes como as pessoas que se integram ao universo de uma pesquisa que compõe também um retrato de época e não apenas o retrato cheio de dobras de uma figura secundária do cangaço, o homem persuasivo que conquistou Lampião para o seu maior fracasso – o ataque a Mossoró.

 

Há no livro de Honório uma vertiginosidade de aportes, de ritmos, de fluência que faz a sua leitura um prazer. Honório escreve sobre novidades que estavam esquecidas, sobre o prazer de conhecermos através do autor viventes tão carismáticos, como a senhora da Fazenda Trigueiro, Dona Deocides, o velho numismata memorioso de Missão Velha, gente de ouro, o cronista de Patos, a estranha cidade de Pereiro, no Ceará, onde soube de antigos matadores de onças…

 

Uma rapsódia, esse livro que tem o cangaço como garantidor, na pessoa de Massilon Leite, mas que é visto sob outros ângulos ao integrar-se à realidade plástica e multiforme, no pico da onda ambulatória.

 

PERSONAGENS DA POLÍTICA

Dias atrás, ao voltar para casa, tive a surpresa de descobrir um fã da prefeita Micarla de Souza, o motorista do taxi que atribuiu o desconcerto da sua administração a sua extrema bondade, virtude negativa que a faz dar guarida em seu secretariado a tanta gente medíocre. A pobrezinha não tem a capacidade de dizer “não” a pessoas como o deputado João Maia, por exemplo.

 

Segundo o motorista, João Maia estaria se aproveitando do bom coração de Micarla para emplacar seus protegidos e cabos eleitorais, o que estaria custando a própria credibilidade de Micarla, que já ganhou até uma comunidade no Orkut, “A pior prefeita da terra”. Enquanto isso, João Maia…

 

Outro aloprado, o filho dos ex-governadores Lavoisier Maia e Wilma de Faria, o candidato a deputado estadual Lauro Maia aposta suas fichas num projeto supimpa: segundo os filhos da Candinha dizem por aqui que ele quer “castrar’ os machos potiguares.

 

É que ele, se eleito, vai lutar para tornar a vasectomia um procedimento cirúrgico rotineiro. Porém, por enquanto, está apenas dando o que falar como um dos mais curiosos integrantes da famosa “arca de Noé”…

  


3 Comentários

Marise on 16 de agosto de 2010 at 12:57.

Deve ter muita gente morrendo de inveja!

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Rilma Astério - Maceió on 16 de agosto de 2010 at 22:37.

Não conhecia esta página. Foi uma das melhores que vi na blogosfera, onde há tanta variedade e pouca, pouquissima qualidade!
Seu estilo é inconfundível: estou a devorá-lo gulosamente.
Já sou sua fã.

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Junior Lima on 16 de agosto de 2010 at 22:39.

Parabéns!

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