DILEMA DA EMPRESA GOL

Por O Santo Ofício | 11 agosto, 2010

Por Jorge Cavalcanti Boucinhas Filho*

A empresa companhia aérea Gol cancelou, nos dias 30 e 31 de julho, um expressivo número de voos provocando, com isso, a insatisfação de muitos consumidores.

A situação ganhou requintes ainda maiores de dramaticidade por se tratar justamente do último final de semana das férias e porque a justificativa apresentada pela empresa expõe um dilema relativamente comum nas grandes corporações, o de ter que escolher entre proteger seus trabalhadores e satisfazer os seus clientes.

A assessoria de imprensa da companhia afirmou que o cancelamento dos vôos deveu-se ao fato de não haver funcionários disponíveis porque o número de horas trabalhadas nos últimos tempos superou o limite do máximo previsto pela regulamentação da profissão. Ao optar por respeitar as leis trabalhistas a empresa assumiu uma postura corajosa e pouco usual.

Ela seguramente sofrerá sanções, até porque o problema poderia ter sido evitado, mas merece o mérito de ter pensado primeiro nos trabalhadores num contexto socioeconômico em que eles normalmente são os últimos fatores de preocupação.

Para uma grande empresa, escolher entre proteger os direitos de seus trabalhadores e resguardar sua relação com os consumidores é sempre difícil. São duas categorias que, em razão de uma presunção de hipossuficiência em relação às empresas, gozam de leis bastante protecionistas, a Consolidação das Leis do Trabalho e o Código de Defesa do Consumidor, respectivamente. Por conseguinte, qualquer das escolhas sempre apresenta graves implicações econômicas.

A relação de trabalho dos aeronautas, contudo, apresenta peculiaridades que certamente pesaram na decisão da Gol. Os tripulantes apresentam um número máximo de horas a serem trabalhadas por mês porque o seu trabalho apresenta um fator de desgaste a mais, a mudança da pressão atmosférica em razão das constantes subidas e descidas do avião.

Demais disso, falhas decorrentes de erros humanos provocados pelo cansaço são, no caso dos pilotos, simplesmente catastróficas. Elas colocam em risco a vida de todos os passageiros e das pessoas que vivem nas imediações dos locais por onde o avião trafega.

Pode-se, com isso, afirmar que a decisão visou preservar a segurança dos empregados e também a dos consumidores, embora estes a recebem contrariados em razão de o seu interesse imediato não ter sido atendido.

Com um planejamento melhor a Gol certamente poderia ter evitado os cancelamentos. Entre julho de 2009 e o mês passado, o número de tripulantes não aumentou na mesma proporção que o número de voos. Segundo dados divulgados pela imprensa a partir de informações da própria empresa, os aviões passaram a voar de 12 para 13 horas por dia (aumento de capacidade de 6.36%).

O número de pilotos e copilotos, no entanto, aumentou 3,7% (de 1486 para 1541). Com isso, a escala de pilotos ficou bem mais apertada do que há doze meses. Fosse outra a atividade econômica desenvolvida pela Gol, poder-se-ia pensa em contratação de mão-de-obra temporária para atender as necessidades verificadas no final do mês de julho e início do mês de agosto. Contudo, como se trata de uma mão-de-obra extremamente qualificada, essa solução acaba não estando disponível.

A empresa será punida pela sua falta de planejamento. A ANAC lhe aplicou multas que superam os R$ 2 milhões, a maior punição da história recente da aviação brasileira. A empresa certamente será ainda condenada a indenizar os consumidores que se sentirem prejudicados e que ingressarem com ação.

Mas, é preciso reconhecer que, diante do dilema criado pela falta de planejamento prévio, a Gol acertou ao tomar a pouco usual decisão de colocar seus trabalhadores antes de seus clientes, assumindo diversos ônus econômicos e enfrentando significativo desgaste à sua imagem para assegurar a segurança dos integrantes das duas categorias.

A maioria das empresas das mais diversas atividades econômicas, diante de um dilema semelhante, teria simplesmente optado por colocar seus empregados para trabalhar em condições adversas, torcendo e rezando para que não ocorresse nenhum acidente, postura irresponsável que, em caso de fatalidade, teria implicações econômicas ainda maiores. Sob esta perspectiva a Gol merece ser aplaudida e não execrada.


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