O FILÓSOFO DO MAL
Por O Santo Ofício | 9 agosto, 2010
Transcrito do NOVO JORNAL
Por Franklin Jorge
Em sua instigante e provocativa exegese de Nietzsche, lembra-nos Georges Bataille que alguém o definiu como o “filósofo do mal”, ao grande solitário da aldeia de Sils Maria; ao pensador que se põe na alma do poderoso, dominado por um “modo de pensar antiigualitário”.
Sua prosa aforismática conduz à glorificação da força, à idealização dos heróis e dos seres supremos, o que terá calçado o marketing nazista do genocídio de raças que ainda sob diversos graus e justificativas persiste no mundo de forma recorrente, surda e sanguinária.
Filósofo, leitor e critico da filosofia, escreve Nietzsche para espíritos livres coisas primeiras e últimas que respiram uma verdade tão grande que antes ele preferira viver como um inválido ou morrer do que tornar-se escravo e servir à vontade alheia.
Nietzsche descreve o movimento violento que compõe a essência do homem. Algo que o reduz a um estado de imperfeição, em desacordo com a natureza aristocrática que o distingue como pensador; um pensador que, se beneficiando do conhecimento posterior, debruça-se sobre uma pletora de questões que desembocam em seu projeto de homem do futuro.
Horrorizava-o subordinar seu pensamento a alguma causa, recusando-se a participar de qualquer partido, por ser um homem livre que compreendia que o mal é o contrário da coerção e que toda ação especializa, diminui e reduz.
Em sua filosofia do mal, reitera que o exercício da liberdade está do lado do mal, enquanto a luta pela liberdade seria a conquista de um bem. Nietzsche crê que a vida só permanece inteira não sendo subordinada a nenhum objetivo, pois a causa corta as asas; e encurta o vôo.
Ou, assim falou Nietzsche, o homem completo em sua imperfeição guarda uma possibilidade de atuar, com a condição de resumir a ação a princípios e fins que preservem sua totalidade. Este será talvez seu único dogma, a espinha dorsal do seu pensamento filosófico.
Viu o leitor emergir de seus livros não sem uma certa reticência, não sem um ar desconfiado ao defrontar-se com a moral, dele dirão seus detratores ou leitores que não o compreenderam ou acharam muito árduas suas lições.
A filosofia de Nietzsche contraria, pois, a tradição. Não nos propõe consolo nem consolações. Não constitui instrumento propiciatório de uma arte de morrer, um ofício de morte pacata, mas a polifonia de um vidente pensador que se coloca, entre os seus pares, como o interlocutor do futuro. Um pensador que se veste com a pele da alma e se constitui em um poderoso mecanismo intelectual em ação.
Nietzsche produz uma doutrina lúcida, sem doutrina, ao dispensar a regra que faz todo filósofo. Uma não doutrina que fará perigosa a filosofia, segundo nos adverte em sua inexorável vontade de poder.
Não é o filósofo da paz, mas o mestre que inquieta e procura os seus discípulos entre aqueles aos quais deseja o sofrimento, o abandono, a solidão, a enfermidade, os maus tratos, a desonra. Nietzsche não tem piedade deles – e o diz -, confiante de que sejam capazes de experimentar o novo e sobretudo o diverso.
Reage Nietzsche à estreiteza de opiniões que se transformam em instinto pelo hábito e impedem as novas aquisições do espírito que, por não serem habituais e conforme o convencionalismo, não possuem coesão nem coerência.
Nós vacilamos, mas não podemos mais voltar ao antigo, pois, vivendo num tempo que dá a impressão de um estado uterino em meio aos destroços de culturas antigas que ainda existem parcialmente e nos faz pensar no futuro com melancolia; nossa descendência, já sabemos, sofrerá do passado assim como nós sofremos.
Como uma grande potencia espiritual, Nietzsche tem exercido mesmo antes de sua morte, em 1900, uma influencia opressora sobre o pensamento ocidental. Afinal, não foi ele mesmo quem disse que todo grande pensador, na crença de possuir a verdade absoluta, torna-se um tirano? Sua obra reserva, portanto, a possibilidade de milhões de comunicações.
É por isso que Nietzsche quer que outros continuem a experiência que antes dele outros começaram, entregando-se como ele, como outros antes dele, ao mesmo esforço heróico de ir até o limite do possível, nós que vivemos numa época cuja civilização corre o perigo de ser destruída pelos meios da civilização.
DE MORNIDÃO CIVICA
Disse o motorista, após declarar sua repulsa à política – que como uma parte significativa confunde com os políticos -, que já esperava esse clima de mornidão que caracteriza a campanha eleitoral já em curso.
Não faltou aviso, pondera. A prova estaria numa abstenção de um milhão de eleitores que em eleição majoritária anterior deixaram de votar para senador. Não me lembro dessa pesquisa, mas ele disse que eu procurasse no Google… Ele se lembrava de seus votos e confessou-se descrente da classe política.
Criaram o projeto Ficha Limpa, que não teria passado se não fosse a força da internet, mas uns magistrados desmancharam, dando crédito a político que ficou enganchado na Justiça Eleitoral. É sempre assim: dão meio quilo e cobram uma arroba…
Ninguém de bom senso confia em político, arremata, levando-me ao endereço. Hoje o povo não vai mais atrás dos candidatos. Em vez de comício, carreatas. Os automóveis substituíram o povo.




5 Comentários
Carlucio Monteiro on 9 de agosto de 2010 at 13:52.
É o primeiro artigo que leio na imprensa local sobre o grande Nietzsche.
Gostei. Dá ao leitor que não o leu ainda focos de leitura.
Está se vendo que v. é um dos simpatizantes da filosofia nietzschiana.
Alnice Skell on 9 de agosto de 2010 at 14:08.
V. sabia, Franklin, que um descendente de Nietzsche é casado com uma moça aqui de Natal? Pesquise, dá uma boa reportagem que só vc sabe fazer.
boy espada on 9 de agosto de 2010 at 21:48.
porrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrra!!!
Lira Gomes on 10 de agosto de 2010 at 6:36.
Acho ainda que vai ficar pior.
joão lyra on 10 de agosto de 2010 at 14:11.
Qual sua opinião sobre a poesia quilométrica de Fernando Monteiro? Ele se acha o novo Homero.