MACBETH NO TEMPO

Por O Santo Ofício | 7 agosto, 2010

Por Franklin Jorge

Fragmento de um caderno de notas sem datas:

.Avulta do espólio shakespeariano a tragédia da ambição desmedida, do desejo insopitável de riquezas e poder. Uma tragédia da maturidade que se erige às sombras e sob a influencia de potências infernais. É o Macbeth, possivelmente composta em 1606, logo depois de O Rei Lear e antes de César e Cleópatra.

Há nessa peça que tem como fonte a Crônica da Inglaterra e da Escócia, de Holinshed, a prevalência inexorável do destino que prescreve a ação entre as trevas sulfúricas e as névoas do inverno, numa Escócia moribunda, entre trovões e relâmpagos.

Nesse incessante pesadelo provocado pela insonia e pelo crime há uma noite porém em que os pássaros cantam, sob o luar, quando o rei visita o castelo que será o seu tumulo. Uma noite em que o ar está leve e não supõe malignidades.

Macbeth, thane de Glamis e Cawdor e, depois, rei, comporta o sobrenatural, a traição e o remorso, a falsidade, a hipocrisia e o crime; enfim, uma atmosfera de presságios que nos alerta para o pesadelo urdido por Shakespeare e pela insônia, entre o pio da coruja e o grito do grilo.

.Aos poucos acrescento às minhas notas de leitura. Muito Shakespeare disperso em notas que se achavam perdidas e reaparecem inesperada e utilmente.

Notas sobre Falstaff, Ricardo 3º., Henrique 4º., que não supunha ter escrito. Shakespeare e a política; Shaks. e os políticos; Shaks. e o povo etc. Rei Lear, Hamlet – que não é a minha predileta mas tem coisas de que gosto, como a fala dos coveiros, o ajuste com os mambembes, a encenação que desmascara o crime; Sonho de uma noite de verão; A tempestade; Otelo. Macbeth,o horror encarnado no teatro, o porteiro bebado, o banquete de Lady Macbeth que antecipa a ruina total de reis sem filhos e sem descendencia.

Comédias, tragédias e dramas históricos, reunidas dariam um curto volume de ensaios breves, minimalistas.

.Macbeth, encenado em Natal por atores baianos, segundo a estética grotowskiana inspirada no ritual dionisíaco. Uma cerimônia que exalta o entusiasmo através do desregramento de todos os sentidos.

Assisto com Jacques, no Alberto Maranhão e depois no Forte, à luz de tocheiros e entre libações aos deuses do teatro. Sim, libamos com vinho tinto temperado de suor.

Estou feliz – escrevo – de participar deste momento auspicioso de uma dimensão estética que coloca Shakespeare nos palcos de Natal. E aqui celebra o teatro em sua tremenda energia primitiva, oriunda e vocativa dos rituais sagrados.

Os mortos e os que dormem são pinturas, nada mais,
Shakespeare.


2 Comentários

Maria Alice Miranda on 7 de agosto de 2010 at 20:16.

Franklin, v. atingiu uma marca excepcional: mais de 200 mil acessos não é para qualquer um!

V. tem a simpatia e a fidelidade dos leitores.

Agora – podemos dizer – v. deslanchou.

Maria Alice Miranda

Reply

Dinara Monteiro on 8 de agosto de 2010 at 10:50.

Li outros artigos de Franklin sobre o mesmo tema e aprendi muito sobre o teatro de Shakespeare,a politica, a psicologia das massas, o conhecimento do que é permanente e válido.

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