O FUTURO DOS JORNAIS IMPRESOS E A INTERNET

Por O Santo Ofício | 7 agosto, 2010

12 coisas que os jornais deveriam fazer para sobreviver

Li recentemente, e recomendei aos amigos do twitter, um artigo de Vadim Lavrusik, um estudante de Mídia da Graduate School of Journalism, da Columbia University, no qual ele citava ‘12 coisas que os jornais deveriam fazer para sobreviver’ neste novo ambiente midiático que vem se formando com os avanços na tecnologia da comunicação.

Achei tão bacana que resolvi listá-las por aqui para nossos leitores que se arrastam um pouco para ler em inglês. É uma, digamos, tradução adaptada.

1. Colocar a web em prioridade e informar por múltiplas plataformas
Jornais ainda tratam seus sites como um segundo plano, porque sua receita publicitária ainda vem em grosso do impresso. Ao mesmo tempo, a mudança para conseguir mais receita com os websites não acontecerá até que o website for a prioridade.

Jay Rosen, um professor de jornalismo na New York University, disse que uma das questões é que repórteres receberam uma descrição do trabalho que gira em torno de uma única plataforma (ou seja, jornalistas de impresso), quando na verdade os jornalistas precisam conceber o ato editorial separadamente dos problemas de plataformas.

Ultimamente, a palavra ‘impresso’ precisa ser retirada do papel desempenhado pelos jornalistas de impresso (print jornalists, no original), disse Kevin Sablan, chefe da força-tarefa da web do Orange County Register. Repórteres precisam focar fundamentalmente em obter informação e em como apresentar essa informação em múltiplos formatos: websites, plataformas móveis, redes sociais e finalmente impresso.

O motivo? A tecnologia está mudando o modo como as pessoas consomem notícias, e apesar de muitas ainda estarem obtendo suas notícias por canais tradicionais impressos, muitas outras estão migrando para obter notícias por vários meios, como televisão, celular e a web.

Ryan Sholin, diretor de inovação em notícias da Publish2, uma companhia especializada em link journalism, disse que os jornalistas agora têm que estar preparados para produzir jornalismo em múltiplas plataformas, seja twittando um headline, fazendo o upload de um vídeo por seu iPhone ou o que for – o jornalismo vem em todas as formas e tamanhos.

2. Segmentar
O modelo de transmissão em massa parece não funcionar muito bem na web. Cada vez mais, as pessoas estão valorizando os assuntos específicos ou áreas nas quais são mais interessadas ou que as impactam diretamente. A cadeia de fornecimento vertical dos jornais, o modelo industrializado de uma coleção de notícias divididas em seções recheando papel, está simplesmente se tornando menos valoroso para mais gente, disse Stowe Boyd, diretor da Microsyntax.org, uma organização sem fins lucrativos que investiga a fixação da informação estruturada em aplicativos de microstreaming, como Twitter.

“Estamos vendo mais fragmentação e especialização”, disse Boyd. “Quantos blogueiros de sucesso você conhece que escrevem sobre tudo?” Jornais precisam descobrir o que eles fazem bem e concentrar nisso, ele disse, citando Politico.com como um exemplo.

Paul Bradshaw, conferencista sênior em jornalismo on-line da Birmingham City University e consultor em mídia, também disse que jornais precisam ter mais nichos, e talvez começar a publicar com menor frequência e cobrando mais. Ele supõe que os jornais se moverão na direção das revistas, com notícias de qualidade mais alta, enquanto usam seus sites para notícias de ‘alta rotatividade’.

3. Oferecer conteúdo exclusivo no impresso
A consideração de Bradshaw dialoga com a ideia de que jornais precisam para de tratar seus websites como um depósito de histórias impressas e tratar cada um de forma independente, cuidadosamente selecionando histórias que combinam melhor com cada mídia.

Isso seria ter cada vez menos o foco do jornal impresso em notícias ‘sensíveis ao tempo’, e, em vez disso, focar mais em histórias analíticas, disse Matthew Ingram, editor de comunidades do The Globe and Mail. Isso também significa adicionar contexto a notícias que foram postadas, compartilhadas e retwittadas on-line.

O mesmo conceito se aplica à web, aponta Gina Chen, colaboradora do Nieman Journalism Lab, que precisa oferecer mais que apenas notícias, mas serviços e recursos para leitores daquela comunidade (ver ponto 11 sobre o potencial de receita disso). Isto também altera bastante os papéis dos jornalistas.

4. Jornalistas como curadores e contextualizadores

A link economy é bastante real e a época de investir é agora. A realidade brutal é que atualmente os jonrais possuem menos de 1% da audiência de page views e tempo gasto on-line nos EUA. ‘Linkar’ para outros artigos e ‘curar’ notícias irá não apenas ser útil para os leitores como fará os jornais mais visíveis na web.

Sholin, da Publish2, disse que jornalistas precisam ‘curar’ as mídias sociais para descobrir o que é notícia e verificar o que é real e o que não em toda a informação disponível por aí, que nem sempre é confiável. Isso também significa simplesmente compartilhar o que está lá fora na web, disse Sholin. O blog NYTimes Bits incorporou um widget ‘O que estamos lendo’, desenvolvido pela Publish2. Claro que há várias outras opções disponíveis para integrar uma característica semelhante a um website.

A edição impressa de um jornal pode servir para contextutalizar as notícias que foram postadas, compartilhadas e retwittadas, disse Sablan. “Pode incluir uma apresentação narrativa coesa de bits desconjuntados que flutuaram por diferentes streams e blogs no dia anterior”, diz.

Jornalistas precisam se distanciar de serem ‘processadores de informação’ para contextualizadores, diz Bradshaw. No velho modelo industrializado, ele explica, jornalistas simplesmente processavam material bruto num artigo ou transmissão, num mercado do qual eles também possuíam o monopólio, mas no modelo em rede que temos hoje, o material bruto está disponível para antiga audiência, que está tomando o papel de repórter, ao mesmo tempo em que eles próprios são também as fontes.

5. Integrar coberturas em tempo real

As mídias sociais estão permitindo à audiência e às “pessoas antigamente conhecidas como fontes” reportarem a si mesmas. Por exemplo, o Departamento de Incêndios de Nova York usou um stream de vídeo ao vivo no website deles para transmitir, direto de um helicóptero, os esforços de resgate após a recente colisão aérea no Rio Hudson – permitindo os visitante do site de comentar via chat próximo à transmissão. Eles tiveram mais de 300 espectadores assistindo e conversando no chat enquanto as notícias se desenrolavam e frequentemente esses espectadores às tinham em primeira mão. Eles foram, afinal, a fonte que vários outros veículos de mídia estiveram buscando suas informações.

“Os meios de produção estão disponíveis a todos. A distribuição em rede está disponível a todos”, disse Bradshaw. “Reescrever um press release já não resolve mais.” Se as fontes são capazes de reportar notícias elas próprias, os padrões foram elevados o suficiente para que as organizações jornalísticas adotem e integrem as coberturas em tempo real aos seus websites.

Twitter é provavelmente um bom alvo para os websites de jornais focarem e se aproveitarem. Notícias quentes (breaking news) são geralmente grandes geradoras de tráfego para qualquer site. Mas agora quando as notícias quentes acontecem é primeiro no Twitter, disse Boyd. Ele aponta que organizações jornalísticas de tevê incorporaram Twitter em seus shows ao vivo, e a solução será os jornais descobrirem como integrá-la aos seus websites e operações de noticiário.

Determinar qual opção é a mais efetiva é difícil, porque cada uma tem suas falhas. Se uma organização jornalística apresenta a ‘alimentação’ de seu Twitter no site, há o potencial de se repetir conteúdo que já está numa história. Além disso, se o site do jornal estiver usando um hashtag feed sem filtro então haverá o desafio de lidar com spam e tweets de qualidade pobre. Parece que atualmente, os feeds de Twittter são apresentados em blogs, mas não em páginas específicas de notícias ou histórias.

6. Cultura interna: Iniciativa vs. corporação

Muitos jornais de hoje estão construídos sobre estruturas muito corporativas e burocráticas. Há um repórter e um editor e um editor do editor e um editor de todos os editores e, bem, você entendeu. Scott Porald, CEO da Pet Holdings, aponta que o problema com ambientes corporativos é que 80% do tempo é gasto planejando e apenas 20% é gasto fazendo. Enquanto no seu ambiente de iniciativa, só 5% é gasto planejando e 95%, fazendo. Mark Briggs escreveu um artigo sobre como criar uma cultura de iniciativa numa redação.

Sholin, da Publish2, também pensa que os jornais deveriam se estruturar em torno de um modelo de iniciativa, em preferência às atuais burocracias corporativas. Sholin comparou a indústria jornalística ao Titanic, porque se dirige direto pra cima de um iceberg, mas não parece poder desviar rápido o suficiente devido às camadas de burocracia e de opiniões que se recusam a mudar. E apesar de que reestruturar completamente uma organização jornalística enorme possa não ser possível, criar um ambiente de iniciativa que encoraje a inovação pode.

7. Encorajar a inovação
Parte de ter uma cultura de iniciativa inclui um ambiente que encoraja a inovação, como a regra dos ‘20%’ do Gooogle, que permite aos engenheiros trabalharem projetos paralelos pelos quais são apaixonados, o que resultou em produtos da Google como AdSense, Orkut e outros.

Sholin, da Publish2, aponta que alguns jornais estão fazendo isso, criando equipes que experimentar e assumem riscos. O Guardian na Inglaterra hospedou seu segundo ‘Hack Day’ em julho, que trouxe jornalistas e desenvolvedores da empresa e de fora dela para ver o que eles poderiam criar em 24 horas. Os resultados foram do útil ao divertido. Se os jornais tivessem começado a inovar nos primeiros dias da web e experimentado novas ferramentas, quem saberia o quanto a indústria teria evoluído. Talvez um jornal tivesse sido responsável por recriar o sistema de classificados on-line em vez da Craiglist.

8. Cobrar por citação não é a resposta
A Associated Press assinou um acordo com a iCopyright que irá ajudá-los a rastrear e cobrar pelo uso não-autorizado de seu conteúdo. Isso não caiu bem entre os leitores, e tem sido criticado pela indústria jornalística, incluindo o presidente de Mídia da Thomson Reuters, Chris Ahearn. Ele escreveu uma resposta na qual delineia seu apoio a chamada ‘link economy’, a qual o acordo da AP com iCopyright vai contra.

Numa entrevista, Ahearn explicou mais e disse crer na mídia como um diálogo e linkar e se apropriar de trechos é parte deste diálogo. A cada vez que alguém link, há a chance de se ganhar mais leitor leal, disse Ahearn. Ele disse ainda que adiciona valor à historia da notícia e fortalece a relação que os leitores têm com o publisher.

Bradshaw concorda: “Algum tecnologia meta-tag mágica que permita a você cobrar das pessoas por citações é loucura”.

9. Investir em mobilidade: E-readers ou smartphones?

Aparte o fato de que mais pessoas estão adquirindo smartphones e usando-os para se conectarem às notícias, há ainda algum potencial para se fazer dinheiro. Aparentemente, organizações jornalísticas estão caindo na real, se tornando a categoria de aplicativos para iPhone com crescimento mais rápido.

E ainda há o rumor sobre o Kindle da Amazon ser um potencial salvador dos jornais. Sholin, da Publish2, disse achar que ambas as plataformas são promissoras, mas pensa que ainda é muito cedo para se afirmar isso. Entretanto, ele disse que há muita gente disposta a pagar pelos aplicativos para celular, e algumas organizações jornalísticas estão se martirizando por não terem pensado em cobrar pelo download desde o começo. Outra opção, disse, é as organizações jornalísticas estudarem parcerias com empresas que poderiam automaticamente incluir os aplicativos de notícias nos celulares, fazendo-o facilmente acessível. Sholin também é fascinado por e-readers como o Kindle e acha que o tablet da Apple que vem por aí pode ser um vencedor em curto prazo.

Ingram, do The Globe e Mail, disse que, seja um smartphone ou um e-reader, cada tecnologia tem potencial de agregar valor ao jornal.

Bradshaw disse não acreditar que o Kindle seja a opção certa.

As opiniões são divergentes, mas devido tanta gente já estar usando sues smartphones para outros propósitos, seguir essa plataforma pode ser a melhor opção.

10. Comunicar com os leitores

Não faz sentido para os leitores não ter a possibilidade de comentar notícias on-line, mas ainda muitos jornais continuam sem ter esse recurso nos sites, sem usá-lo, ou possuir várias regras para quais histórias se pode ou não permitir comentários. Isso faz sentido quando em muitos casos porque os comentários são vulgares ou de baixa qualidade, mas uma linha evidente e definida sobre quais histórias tem comentários ainda não foi desenhada.

Stowe Boyd disse que os websites de jornais têm muito o que recuperar nessa área. “As pessoas têm comentado on-line há um bom tempo e há um bom tempo [os jornais] têm evitado fazer isso”, disse. Afinal, ele disse que comentários levam a mais page views.

E não são apenas os comentários. Várias contas (perfis) de jornais em mídias sociais são usadas como feed RSS, sem qualquer interação com o público. Mas as mídias sociais podem ser uma grande ferramenta para conquistar a confiança com seu público. Bradshaw disse que indivíduos, não instituições, usam mais efetivamente mídias sociais e então o papel do jornalista na distribuição se torna mais importante. Ele disse que consequentemente será esperado dos jornalistas que atraiam leitores por comentários, blogs, Twitter, ou isso será feito por administradores de comunidades dedicadas.

“Aqulo que fará o público valorizar o jornal é que o jornal valorize o público”, disse Bradshaw.

Ingram, do The Globe and Mail, concorda que em geral jornalistas deveriam estar interagindo mais com o público, para construir confiança. “Então eles podem nos ajudar a fazermos nosso serviço”, disse.

11. Construir comunidades

Não é mais esperado de websites de jornais que eles só provejam notícias, mas também criem comunidade. Alguns jornais estão aproveitando as plataformas de mídias sociais para alcançar esse objetivo. Seja criando um página de Facebook Fan, um grupo de LinkedIn ou uma conta no Twitter, jornais estão usando mídias sociais na tentativa de criar uma comunidade de leitores. Desenvolvedores como Jeff Reifman, fundador do NewsCloud, que criou comunidades baseadas em aplicativos do Facebook que agregam notícias, estão cientes da mudança de modelo na indústria jornalística ao mesmo tempo em que buscam tirar vantagem disso.

The Needle, o mais recente aplicativo de Reifman, voltado para Seattle, inclui dispositivos como um Twitter feed de tweets de Seattle, um lugar para se postar histórias que usuários acharem interessantes e um lugar para postar itens que usuários querem compartilhar, tudo almejando a construção de uma comunidade entre usuários de Seattle.

“Organizações jornalísticas deveriam parar de pensar em si mesmas como somente um publisher de notícias. Sites de notícias têm de oferecer um centro comunitário on-line de uma cidade”, disse Reifman. “Criando-se comunidades, cria-se uma relação de lealdade com seus leitores”.

Pensando nisso, o Charlotte Observer lançou seu próprio aplicativo de Facebook, chamado Zip, que não inclui tantos dispositivos como os apps da NewsCloud.

12. Pagar ou não pagar – eis a questão
Não há um resposta simples e certa se os sites de jornais devem cobrar pelo conteúdo on-line e, se devem, qual o melhor modelo a ser adotado. Seja um modelo de assinatura, ou um modelo de pagar-por-artigo, cada um tem sérias implicações. Entretanto, alguns pensam que já houve bastante discussão, e que os jornais devem seguir em frente e cobrar por conteúdo on-line. Rupert Murdoch, CEO e fundador da News Corp., está planejando começar a cobrar dos leitores por conteúdo on-line em todos os websites jornalísticos da companhia, começando com o Sunday Times, em novembro.

Chris Ahearn, da Thomson Reuters, disse que a melhor discussão para os jornais é considerar como criar valor para os leitores e oferecer serviços pelos quais as pessoas estejam dispostas a pagar. Ele disse que a Thomson Reuters focou em oferecer serviços que são valiosos para as pessoas e que a receita majoritária da companhia vem de produtos baseados em assinaturas.

Bradshaw, da Birmingham City University, disse que companhias jornalísticas mais adaptáveis irão entender que o valor não está nas notícias, mas na informação sobre notícias, isto é, nos dados. “Então, os similares da Open Plataform do Guardian, o API do New York Times e Open Calais da Reuters se tornarão vastos projetos para usuários do que destinos para a audiência”, disse.

Stowe Boyd, da Microsyntax.org, disse que jornais têm que descobrir pelo que usuários estão dispostos a pagar e que modelos amplos demais podem não funcionar. Sites jornalísticos devem oferecer aos leitores que assinem ou paguem por certas áreas de interesse, como esportes, política, etc, que eles valorizam no site.

Outra área inexplorada para os jornais é a possibilidade de gerar receita das mídias sociais. Elas têm ajudado os jornais de muitas formas, mas Sablan, do Orange County Register, disse que não tem visto jornais usando as mídias sociais com o propósito expresso de fazer dinheiro diretamente, mas no estado atual da indústria, todas as possibilidades de fontes de receita precisam ser exploradas. “Será fantástico se os jornais puderem descobrir um negócio de sucesso envolvendo as mídias sociais”, disse.


Deixe seu comentário

Seu email não será publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>