CASCUDO E A POLÍTICA

Por O Santo Ofício | 5 agosto, 2010

Transcrito do

NOVO JORNAL

Por Franklin Jorge

Escrevendo em 10 de março de 1950 em sua famosa Acta Diurna, então publicada no Diário de Natal, anotava Luis da Câmara Cascudo que faltava doutrina aos nossos partidos políticos.

Decorridos sessenta anos desde essa data o quadro continua inalterado e talvez agravado pela intromissão de novas culturas políticas, como o Partido dos Trabalhadores (PT), que entre outras coisas questionáveis nos legou o Mensalão, o hábito de esconder dólares em cuecas, a arapongagem fora da lei, os dossiês invasivos e a indigesta pizza parlamentar, recheada dos piores elementos e por isso mesmo indigerível, para a maioria dos brasileiros que repudiam a corrupção, mas costumeiramente, por força do hábito e em consequencia do conformismo e da falta de noção, continuam votando em candidatos notoriamente corruptos.

Cascudo, que por muitos anos cultivou o sonho de tornar-se senador da República, escrevia , confirmando a regra: “os estudiosos da política brasileira, e não seus devotos e pregoeiros, lamentam a ausência de doutrina nos partidos nacionais”.

Reconhecia assim que o mal é velho e para reforçar suas palavras, citava o Visconde de Albuquerque, protagonista e observador da cena política no Império, que no Brasil “a cousa mais parecida com um Saquarema (conservador) no poder é um Luzia (liberal) em condições idênticas”… Mais didático, impossível. Aí está o PT, que desfruta muito à vontade de todos os vícios que condenava nos governistas quando era oposição.

Atendo-se ao momento presente (os anos 50 do século passado), ponderava Cascudo que “agora mesmo ninguém sabe ao certo os elementos essenciais distintivos entre o Partido Social Democrático (PSD) e a União Democrática Nacional (UDN) e apontava para o fato, ainda vigente em nossos dias -, universalmente aceito e reconhecido, distingue apenas os nomes dos chefes “fixados diariamente nos jornais nas escaramuças desinteressantes e frias da sucessão”.

Desse personalismo alienante e alienador resultaria atualmente, como encarnação do PT, esse tipo falastrão, borracho e papudinho que preside e a República, o excelentíssimo senhor Luis Inácio Lula da Silva que, de passagem por Natal, no espaço de uma curta meia hora em que foi matar a fome na churrascaria Sal e Brasa, entornou treze lépidas caipirinhas; sem contar os seus asseclas José Dirceu, Genoíno, Renan Calheiros, Romero Jucá, Antonio Palocci, Aluizio Mercadante, Tarso Genro, José Sarney, Fernando Collor de Melo etc, alguns, no entanto, oriundos de outros partidos, como o PMDB, mas petistas na índole e na maneira de operar no campo da política…

E, nivelando-os por baixo – acrescentarei -, a incansável luta pelo poder e a mais absoluta e desbragada ausência de credo e programática a dirigir-lhes os passos; credo que, numa democracia forjada no respeito às idéias, devia sobrepor-se às simpatias e ao personalismo tão caro e evidente nas tiranias. Nos embates eleitorais, por exemplo, até os planos de governo são ignorados ou sua discussão se faz de maneira fortuita e superficial, pois há no Brasil como que um consenso tácito em torno da sua desimportância – da desimportância, diga-se, da programática e do credo políticos que num país sério deviam reger todo aquele que disputa um mandato popular.

Assim, resumia Cascudo essa deplorável realidade dominante: “Na impossibilidade da adesão pela doutrina programática, (…) decidiam-se pela simpatia dos orientadores nacionais ou estaduais. A frase comum é apenas indicar: – acompanho fulano… Esse fulano é a doutrina… Nada mais”. Comentando então noticiário do The Evening Standard sobre os principais partidos ingleses, observava o mestre norte-rio-grandense que tanto o partido Conservador como o Trabalhista seguiam à risca suas respectivas doutrinas, produzidas não para ludibriar o eleitorado, mas para facilitar-lhe a escolha de seus representantes.

Informava Cascudo que o processo de esclarecimento do corpo eleitoral ainda não havia chegado ao Brasil, embora reconhecesse que naqueles anos 50 – em relação aos anos 30, por exemplo – já estávamos irretorquivelmente cem por cento mais esclarecidos, mas essa posição seria quase sempre impulso natural, orgânico, “irresistível no espírito popular, desajudado pela demagogia prometedora do período das propagandas, mas sempre ansioso de elevação e eficiência de sua representação parlamentar”.

DE COMO RECONHECER UM (FALSO) LITERATO
Disse Borges que, para desmoralizar um falso escritor faz-se suficiente dar-lhe o titulo de “doutor” e “excelência”. “O poeta dr. Fulano de Tal desencarnou e foi morar noutra dimensão”, eis aqui um bom exemplo dessa arte da injúria com que se divertem os mestres atentos ao uso da linguagem forjada a partir do mau uso das palavras, ou seja, das palavras escolhidas sem rigor ou recolhidas de um vocabulário indigente acomodado ao lugar-comum. Outra forma terrível de achaque seria dizer que um escritor faz sucesso e vende bem…

É evidente que um escritor cônscio do que cria pode utilizar-se de um ou outro termo especioso, não para ornar-se como faz o carnavalesco que abusa das lantejoulas e das pedras falsas para embonitar-se e chamar a atenção para os seus meneios e requebros verbais. Geralmente o subliterato usa cinco palavras em vez de uma ou duas para dizer a mesma coisa.

Não. Ele o faz porque conhece a língua e certamente deseja obter um certo efeito de estilo ou até por uma idiossincrasia qualquer que se faz desculpável num talento de verdade. Assim, até o lugar-comum reveste-se de significado quando tratado por quem é do ramo, como João Guimarães Rosa ao transformar o verbo morrer em encantar-se.

Mas, por ser quem é, podia Rosa dar-se a semelhante desfrute sem incorrer no ridículo que enfarpela os diluídores acríticos. Outra forma tremenda seria adotar a fórmula que despacho o falecido para “um outro plano” ou, ainda mais grotesco e risível, “plano astral”. Um escritor de verdade diria simplesmente que o fulano morreu, sem esforçar-se para parecer original, pois morrer é um hábito que sabe ter todo mundo.

O fragmento acima, colhi-o em um dos meus cadernos de notas. Publico-o na suposição de que pode ser útil, pois a experiência me assegura que os maus escritores são os melhores mestres daqueles que se empenham em escrever bem, ou seja, sem inúteis floreios, sem retórica, sóbria e eficazmente como convém à prolixidade do real.


1 Comentário

Vanuza Caldas on 5 de agosto de 2010 at 11:03.

Parabéns antecipados pelos 200 MIL acessos!!!

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