FRAGMENTOS DE UM DIÁRIO

Por O Santo Ofício | 1 agosto, 2010

Por Franklin Jorge

.Um escritor deve escrever para poucos, professava Borges, que escrevendo só para si mesmo alcançou uma popularidade universal. Foi assim o mais influente escritor da sua geração e da segunda metade do século 20.

Escritor de uma linhagem aristocrática, paulatinamente substituída por uma caterva de escrevinhadores sem distinção intelectual, o autor de O Aleph tornou-se o desfrutador generoso de uma cultura enciclopédica e mantendo-se indiferente ao sucesso que considerava algo subalterno, mesmo quando não deliberadamente procurado ou vaidosamente cultivado. Era o seu caso, já por demais conhecido e explicitado em sua crescente fortuna biobibliográfica.

Tinha lá Borges suas razões para pensar e agir assim, sem concessões, produzindo sem perseguir ou cortejar o reconhecimento, embora faça parte da natureza do poeta o desejo de distinguir-se através da criação que algumas vezes o coloca, quando se trata de artífice provido de cultura e talento, na condição de cúmplice de Deus.

Ademais, que importância pode ter afinal a notoriedade para o estilo ou para a grandeza intrínseca de um escritor, como Borges, especialmente culto e talentoso, ou seja, talentoso e culto a ponto de abarcar o conhecimento que constitui o capital indepreciável de gerações? Que saibamos, nenhuma que seja válida e necessária à qualidade da obra, que se afirma através de valores subjetivos e sem nenhuma relação com o êxito.

.O desejo de distinguir-se faz o artista, disse-o Harold Bloom, que cito de memória e certamente de maneira infiel, isto é, não literalmente, pois como escritor sempre tenho o impulso de dizer de outra forma ou segundo o estilo que me caracteriza e é peculiar, como a personalidade individualizadora. O que ele quer, sem confessá-lo, é reconhecimento, aplauso, distinção.

.A forma é o produto final desse conúbio misterioso entre personalidade, talento e cultura, não tendo portanto nenhuma relação com o conteúdo – que não determina coisa alguma -, ao contrário do que tem proclamado a critica marxista em voga até os anos sessenta.

.Minha notória incapacidade de manter a regularidade de um diário, tantas vezes iniciado e interrompido quando não desprovido das datas, necessárias a contextualização dos fatos. Tudo me distrai ou me inibe tudo o que me parece excessivamente pessoal e intimo, subjetivo ou irrelevante, como o que me acontece a mim, o individuo, ainda mergulhado na circunstancia.

Nem mesmo me atenho as datas (repito), o que me tem levado a cometer pequenas imprecisões ao reportar-me, anos depois, aos acontecimentos; falhas gravíssimas, sobretudo estivesse eu empolgado pelo exercício cronológico tão caro à historiografia.

Minhas ambições, porém, são de outra natureza e feitio. Absolve-me (quero crer que absolve-me) nesses casos a ambição de tornar-me um “escritor literário” o que me faz infenso a certas exigências de cunho cientifico.

.Apraz-me em principio os prazeres que decorrem do pensamento e de uma prática intelectual que por temperamento e índole impõe-me a duvida e a insatisfação como regra, a reflexão e a análise como método etc. Está numa carta que escrevi a Ascendino Leite. O que por acaso suscita-me a atenção e o interesse, como observar quão defeituoso resulta o julgamento e a contemplação do que está próximo.

.Redobrada atenção para o perigo corrosivo do elogio, que só pode ser tolerado quando proferido de maneira parcimoniosa por quem tem valor e mérito. Que afague o ego sem inchá-lo…

.Nenhuma simpatia de minha parte pelo que é subjetivo e hermético no exercício das letras, como a apreciação da poesia, que só posso atribuir a uma deformação profissional decorrente da pratica jornalística que recomenda e impõe como primeiro dever a objetividade, a clareza e a transparência dos juízos que devem ser construídos e transmitidos sem retórica nem percalços.

Daí a minha natural ojeriza aos literatos que se cobrem de ouropéis e bijouterias. Tudo isto resumido numa prosa que oscila entre raquítica e empanturrada de frases feitas, adiposa, cheia de ênfase e protelações.

.Bataille pensa e medita sobre e contra Nietzsche, que admira, contesta e [x]. Beneficiário do conhecimento posterior, amplia a leitura do mestre da aniquilação e através de uma prosa aforismática nos propicia o céu ilimitado que os gregos clássicos chamavam de empíreo.

Meu é um exemplar editado por Taurus Ediciones, que dele publicou também alguns outros títulos publicados no Brasil: La experiência interior, El culpable, Teoría de la religión, a Literatura e o mal e Sobre Nietzsche, de subtítulo Voluntad de suerte [1972, 1986 Madrid. Depósito Legal: M. 9.787-1986.] Por que anoto tanto?

Há uma nota do tradutor:
“O estilo de Georges Bataille está muito longe de ser ultra clássico e impecável: prefere a força expressiva à correção (…)”.

Um escritor que lê e relê Nietzsche em sua dimensão humana e filosófica, no solitário que pensa e se obriga a escrever para não ficar louco. Percebe que há na essência do homem um movimento violento, sucessivo, que quer a autonomia, a liberdade do ser. Em seu livro pondera sobre a trágica vaidade da agitação, do entendimento do mal como o contrário da coerção; e, em síntese, Nietzsche um filósofo do mal?

Minhas eterna recorrência de Nietzsche com quem aprendo – pois o conhecimento é contemporâneo – que a causa corta as asas, porém a ausência de causa nos arroja à solidão e provoca a enfermidade do deserto, a solidão, grito que se perde no deserto do amor. Que fácil era a moral antiga. A busca mitológica do amigo.

Tudo se encontra em Nietzsche, como em Shakespeare e, naturalmente, em Borges.

Nietzsche antecipa essa época que produz melodias alegres que são de uma tristeza absoluta. Nosso inferno e nossas trevas estão demasiado próximas de nós, quer dizer-nos a seu modo. Ele previu que seus contemporâneos estariam vivendo no futuro.

Nietzsche é a comunidade, apesar de não fundar seu ideal moral nem compor seu poema trágico. A existência não pode ser autônoma e viável, escreve Bataille em sua aproximação de Nietzsche, pai amado e assassinado em aforismos que releio, sentado a uma mesa da cafeteria, diante de uma fumegante xícara de capucino. Ele previu que virá uma época cultural em que será de mau tom ler muito.

Primeira Parte, O Sr. Nietzsche; Segunda Parte, La cumbre y El ocaso; Terceira Parte, Diários (“Fevereiro-agosto 1944”); Apendice…

Sobre Nietzsche (Voluntad de suerte). Uma das mais singulares leituras e do que se pode definir como livre, o método que surge de uma desordem intolerável, a mais intima destruição, estranha confusão, juízo sem limite de si mesmo, de si e de todas as coisas.


3 Comentários

L.M.W-G on 1 de agosto de 2010 at 9:57.

Amo Nietzsche e apraz te-lo entre os nietzscheanos.

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joão lyra on 1 de agosto de 2010 at 11:21.

Que Borges foi um escritor singular não se discute. Mas essa história de querer ser lido por poucos não é verdadeira. Ele mesmo conta, num depoimento próximo da morte, que nas festas diplomáticas de Buenos Aires, saía colocando seus livros nos bolsos das casacas dos diplomatas. Era sua “astúcia” para divulgar seus livros. Nada demais nisso. O equívoco é vender um mito de escritor que dispensa leitores. Ou estabelecer qualidade de leituras. Todo escritor quer ser lido. O resto é papo de ermitão forçado. Parabéns pelo blog.

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Valerie on 1 de agosto de 2010 at 13:18.

Tem razão!
O “professor-doutor” João da Mata Costa é intelectual, um notorio literato e nunca leu nada!!

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