PAQUIDERME EM LOJA DE CRISTAIS
Por O Santo Ofício | 30 julho, 2010
Por Roberto Guedes
Aliados de Iberê temem resultados negativos da atuação de Dilma no RN
Sem prejuízo das comemorações pela vinda da presidenciável Dilma da Silva anteontem a Natal, marqueteiros ligados à candidatura do governador Iberê Ferreira à reeleição encontraram dois pontos negativos na atuação da visitante, e já se preocupam em colocá-los na pauta de pesquisas qualitativas para checar se prejudicam sua coligação e como é possível neutralizar seus efeitos.
Para eles, Dilma “encheu a bola” do advogado, ex-deputado e ex-prefeito Carlos Eduardo Alves, candidato a governador pelo PDT, ao insistir, antes do evento, por intermédio do escalão precursor que veio preparar sua agenda, e presencialmente, no aeroporto Augusto Severo, em mobilizações de rua e na 62ª reunião da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC), quando ao Governador interessava como nunca mostrar que via o concorrente lá longe, pelo retrovisor.
GANHO DE CARLOS
Impor silêncio a Iberê e a Carlos Eduardo foi uma das formas de nivelá-los, como dizem, por baixo, contrariando todo o investimento que o PSB, partido do Governador, havia feito para capitalizar excepcionalmente o apoio que Dilma lhe emprestaria nesta viagem, e reclamam porque o iberezismo não e impôs na hora de preparar a agenda da visita.
Como quem procura eximir-se de responsabilidade, lembram que o roteiro foi imposto por dois entes – a assessoria direta da candidata e um comitê local de apoio à campanha de Dilma, presidido pela deputada federal Fátima Bezerra, que está se reelegendo, como avaliam, pelo PT.
Eles não confirmam, mas outras fontes asseguram que o comportamento de Dilma não apenas desapontou, como principalmente desorientou completamente Iberê, ao ponto de desviá-lo da missão de conduzi-la do centro do Alecrim, onde só discursaram ela e o deputado federal Michel Temer (SP), presidente da câmara federal e do diretório nacional do PMDB e candidato a vice-presidente da república.
Até o final da tarde de ontem, de fato, assessores de Iberê não sabiam informar aonde ele teria ido logo depois da mobilização de rua no Alecrim, onde Dilma tomou uma van com destino ao aeroporto Augusto Severo, para viajar rumo a Brasília. Do Alecrim até o terminal de passageiros, ela praticamente só conversou com uma pessoa – Carlos Eduardo Alves, e na maior intimidade do mundo, como quem monta parceria de longo, longuíssimo prazo.
NÃO CONFIA
Na visão dos acólitos de Iberê, aqui mantidos no anonimato em função da responsabilidade que assumem na campanha, no governo do Estado e nos planos do chefe, Dilma agiu como quem não confia nos relatórios segundo os quais o Governador já teria ultrapassado Carlos Eduardo e procuraria hoje mostrar que tem condições de também superar o primeiro colocado nas pesquisas eleitorais, a senadora Rosalba Ciarlini (Dem).
Falando antes de a TV Potengí divulgar o resultado da mais recente pesquisa Vox Populi sobre a sucessão potiguar, na qual efetivamente Iberê ultrapassaria Carlos Eduardo, chegando a somar 18% contra 13% atribuídos a este, embora Rosalba subisse para 53% e a impressão de que levará a parada logo a 3 de outubro, eles dizem que o pior é que também no cenário nacional o “lobby” do ex-prefeito soube tirar mais proveito da visita em detrimento da tendência eleitoral.
O fato de o diário “Folha de São Paulo” publicar uma foto de quase um quarto de página mostrando apenas Dilma e Caros Eduardo na passeata do Alecrim, quando Iberê estava a pouquíssimos centímetros à esquerda dela, indica que o periódico utilizou imagem distribuída pela assessoria de imprensa do ex-prefeito.
SWEDENBERG
Assim como se impressionam com o alcance dos tentáculos da propaganda de Carlos Eduardo, eles receiam que aliados locais de Lula e Dilma não vinculados a Iberê tenham feito chegar à presidenciável informações que ofuscam o quadro pintado pelo Governador. Pois, se os dois tivessem conhecido e principalmente acreditado na informação de que Iberê agora tenta levar a sucessão estadual para o segundo turno e ali superar Rosalba, Dilma teria procurado insinuar em Natal algum esforço no sentido de contribuir para isto.
Quanto a quem estaria transmitindo ao Palácio do Planalto informações divergentes das fornecidas pelo Governador, os acólitos deste evitam mencionar nomes de possíveis suspeitos. Consta em Natal porém, que a ponte entre Dilma e Carlos Eduardo é o odontólogo Swedenberg Barbosa, responsável pela agenda administrativa de Lula. Um filho de Swedenberg, que trabalharia como assessor do vereador Raniere Barbosa, presidente regional do PRB, na câmara municipal de Natal, estaria coadjuvando a ação do edil como coordenador da campanha de Carlos Eduardo na capital potiguar.
NEM LEU
Para eles, é como se Dilma nem ao menos tivesse lido o relatório da primeira pesquisa feita na presente campanha eleitoral pelo instituto Smart, segundo a qual Rosalba e Carlos Eduardo estariam caindo em relação a situações fotografadas meses atrás por outras instituições, ela mais do que ele, enquanto Iberê pilotaria um bólido eleitoral capaz de trazê-lo de 14% de intenções de votos registrados em maio último pelo Vox Populi para 24% na semana passada.
O outro problema que os preocupa é um tiro no pé, que Dilma poderia ter dado ao abrir a boca antes e depois de desembarcar em Natal, ao priorizar como mensagem acicates contra adversários locais do presidente Lula da Silva que até então nem ao menos procuravam inibir a votação que se prepara para ela no Rio Grande do Norte.
Eles acham que Dilma pode ter prejudicado as candidaturas da ex-governadora Wilma de Faria, presidente regional do PDT, ao senado, e do próprio Iberê ao atacar Rosalba e o senador José Agripino Maia, presidente regional do Dem e líder da agremiação em sua casa congressual, em discursos e entrevistas a emissoras locais de rádio. O mínimo que Dilma disse foi que se trata de pessoas falsas, lobos sob a pele de cordeiro, capazes de fingir no Rio Grande do Norte que não colidem com ela e com Lula enquanto em Brasília exercitam uma oposição que qualificou como destrutiva.
IGUAL A FIGUEIREDO
“Foi um verdadeiro macaco numa loja de cristais”, descreveu um dos informantes do “Jornal de Roberto Guedes Via e-mail”, para quem Dilma pronunciou verdadeiros impropérios, de retorno político negativo, apesar do esforço que demonstrou em procurar ajudar os responsáveis por levar o eleitor a traduzir no dia 3 de outubro os números com que as pesquisas eleitorais a colocam muito bem na sucessão de Lula.
Outro comparou a falta de tato de Dilma à que o falecido general João Batista de Figueiredo demonstrou durante a campanha eleitoral de 1.982, quando, já eleito presidente da república, pelo congresso nacional, passou a fazer campanha pelos candidatos de seu partido aos governos estaduais. A comparação, aliás, o preocupa muito porque parte do princípio de que Dilma está eleita, e pode concluir seu governo sozinha como Figueiredo.
O efeito do que disse pode ser paradoxal, a exemplo do que se viu na campanha eleitoral de 2.008, quando Lula veio a Natal para fortalecer o cacife da candidata situacionista à prefeitura, deputada federal Fátima Bezerra (PT). Entusiasmado, segundo constou na época, por goles a mais de uma cachaça que sorveu entre amigos, Lula agiu grosseiramente em relação a José Agripino e a Rosalba pelo menos durante discurso que proferiu em comício na zona norte da capital potiguar.
Pesquisas realizadas logo depois mostraram que o senso de solidariedade fez muitos natalenses descer do muro após o pronunciamento de Lula, passando a votar na então deputada estadual Micarla de Souza, presidente regional do PV, de sorte a aumentar consideravelmente a vantagem que já exibia em relação aos demais concorrentes.
Eles sonham com nova pesquisa qualitativa, cujos resultados tendem a ser trabalhados somente no intramuros do estafe da campanha, para avaliar o estrago remanescente do “pit stop” que Dilma fez em Natal. Antigos colaboradores de José Agripino, salientam que o parlamentar tem muitos defeitos, mas não é exatamente um falso.
Acreditam que até adversários do parlamentar têm esta percepção, e o pronunciamento de Dilma pode levar eleitores indecisos a se aliar ao parlamentar. Ainda mais se este souber promover sua vitimização, induzindo outros norte-rio-grandenses a querer protestar silenciosamente pelo fato de Dilma vir lá de Brasília agredir um conterrâneo.
DIAGNÓSTICO DE TODOS
Os iberezistas sentiram na noite passada, através de jornais de “blogs” editados no Rio Grande do Norte, que sua tese encontra eco entre acólitos de José Agripino. De fato, alguns salientaram que José Agripino ainda não procurou se posicionar como vítima, mas agiu prudentemente ao mostrar que Dilma veio agredir potiguares.
Rosalba, por sua vez, balizou sua resposta a Dilma na necessidade de os presidenciáveis trazerem propostas, e não arengas, para o Rio Grande do Norte. Na mesma linha, o suplente de senador em exercício João Faustino Ferreira Neto, presidente de honra do diretório regional do PSDB, pediu que o discurso de pessoas na posição de Dilma fale sobre a necessidade de projetos estruturantes para o Rio Grande do Norte.
O pior, no tocante ao efeito paradoxal, é que até quem poderia estar comemorando, em detrimento do desempenho de Iberê no primeiro turno da sucessão estadual, sentiu o estrago. É o caso do jornalista, ex-senador e ex-prefeito Agnelo Alves, pai de Carlos Eduardo e candidato a deputado estadual pelo PDT.
Poucas horas depois de Dilma voltar para Brasília, em entrevista ao vespertino “O Jornal de Hoje”, Agnelo deplorou o tratamento que ela concedeu a José Agripino e Rosalba, dizendo que ela deveria abster-se de focalizar temas locais e trazer para o Rio Grande do Norte o conteúdo da campanha nacional. “Dilma tem que falar mais sobre a situação nacional, o que ela pretende fazer”, recomendou.




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