O ‘EFEITO MANDRAKE’
Por O Santo Ofício | 29 julho, 2010
Por Roberto Guedes*
Iberê usa expediente para desacelerar campanha de Rosalba Ciarline, que lidera a campanha para o Governo do Estado
Um dos assuntos mais presentes em conversas que líderes políticos potiguares compartilharam nesta quarta-feira, 28, ontem, dentro e fora da movimentação que a base local de apoio ao presidente Lula da Silva promoveu ao receber a visita da presidenciável Dilma Rousseff, foi o impacto causado na campanha eleitoral em curso pela ação que o governador Iberê Ferreira de Souza resolveu ajuizar contra seu principal concorrente na sucessão estadual, a senadora Rosalba Ciarlini (Dem), e a TV Tropical.
Se der o melhor resultado almejado pelo Governador, os dois terão que pagar à justiça uma multa de 1,3 milhão de reais, valor muito acima de todas as punições pecuniárias que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) já aplicou a políticos em campanha eleitoral.
O que mais chamou atenção dos políticos não é o desfecho do processo, e sim o seu início, pelo que significa em termos de desviar atenções e energias do grupo que patrocina a candidatura de Rosalba, e o montante sugerido para a multa.
Campeão histórico de sanções pecuniárias adotadas pela justiça eleitoral num ano de votação, o presidente Lula da Silva, que tem no momento que recolher aos cofres do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) 175 mil reais, foi condenado sete vezes, cada uma dela em cerca de 25 mil reais, por fazer propaganda antecipada da candidatura de Dilma.
PIONEIRISMO DE BRIZOLA
A grande preocupação que alguns políticos demonstram a respeito é com o fato de se estar adotando com força no Rio Grande do Norte o “Efeito Mandrake”, que eles pensavam ser coisa muito distante. Introduzido na vida pública brasileira, em 1.982, pelo legendário Leonel Brizola, criador do PDT e então candidato a governador Leonel Brizola, o “Efeito Mandrake” recebeu este nome em alusão a personagem de história em quadrinhos, um mágico, e também a brincadeira de crianças em que a imobilização é considerada punição.
O efeito decorre de diferentes métodos e recursos que um político adota para imobilizar o máximo possível seus adversários enquanto impulsiona sua própria campanha.
No caso, Iberê estaria adotando um dos estágios mais avançados desta tática, que é a imobilização no campo da justiça com a possibilidade de forçar os adversários a um grande desembolso. Antes de chegar a tanto, um candidato pode obter a imobilização dos concorrentes de pelo menos duas maneiras. Uma é colocando o adversário na defensiva, obrigando-o a se explicar, sobre o passado ou o futuro. Outra é levando-o a campos de enfrentamento que tiram o adversário do principal campo onde os votos são disputados.
Segundo o economista César Maia, candidato a senador pelo Dem do Rio de Janeiro, a imobilização ocorre, em geral, através de propostas de combate ou duelo que interessam a quem as estimula. “Pode ser do tipo ‘ir ao ambiente desfavorável ao adversário, tendo que enfrentar hostilidades’ ou, o que é muito mais sofisticado, levá-lo a um ambiente neutro, que o tira do ambiente onde o voto está sendo definido”.
MÁGICO DE CASACA
Em geral, no processo de reeleição com um governo razoavelmente ou bem avaliado, interessa ao candidato tirar o adversário das ruas e imobilizá-los “em debates anódinos, insípidos e inodoros”, como define o economista. Um dos primeiros cenários para esta imobilização, em termos de sucessão presidencial, são debates sobre temas macro-econômicos, que encantam os jornais e os economistas, e que ficam em um nível de generalidade, que passam tão acima do eleitor médio, que esse nem se apercebe da relação entre o que se diz e sua vida.
Na visão de César Maia, Lula e Dilma têm utilizado a tática com o objetivo de fragilizar a candidatura do economista José Serra à presidência pelo PSDB.
“Nunca antes neste país se usou tanto o ‘Efeito Mandrake’ como nos últimos meses”, diz. “As pesquisas mostram o sucesso do gesto de mão aberta do mágico de casaca e cartola, do poder”, acrescenta, dissecando as estratégias e enfatizando que o resultado é mais facilmente obtido quando usado por quem está no poder.
“Os governos razoavelmente ou bem avaliados têm uma enorme tropa de militantes atuando na base”, diagnostica. “São milhares e milhares que, por ocupação de cargos ou por subsídios ou recursos para suas empresas, associações, sindicatos ou organizações não governamentais, temem a descontinuidade e se comportam, orientados ou espontaneamente, como tropas ou milícias na defesa de seu candidato, seja ele o próprio governante, ou quem o governo apóia”, descreve.
“Vivemos e viveremos um quadro assim na campanha presidencial de 2010”, prevê, desenhando o cenário: “Um governo bem avaliado, com candidato competitivo e com uma enorme máquina movida a cargos e a subsídios/recursos, com militantes partidários ou não, que atuam coordenados ou espontaneamente. Tudo o que quer o governo ou seu candidato é tirar seu adversário da praça pública e retardar seu contato direto de mobilização nas bases dos multiplicadores e assim, dos eleitores. Para isso, os ambientes perfumados, engravatados, bem comportados são ideais para o candidato do governo se enfrentar com seu adversário”.
NO TRIBUNAL
O recurso ao “Efeito Mandrake” pela campanha de Iberê havia sido antecipado pelo “Jornal de Roberto Guedes Via e-mail” há duas semanas, quando registrou o fato de, ao contratar o escritório de advocacia que assistiria sua campanha, o chefe do executivo haver enfatizado a necessidade de contar com uma equipe “agressiva”.
Liderada pelo professor Erick Pereira, uma das maiores autoridades em direito eleitoral no Rio Grande do Norte, a equipe de Iberê demonstrou estar pronta a capturar no ar as menores possibilidades de levar os adversários às barras da justiça quando ajuizou ação contra Rosalba pelo fato de um advogado a serviço da senadora haver emitido um comentário infeliz sobre a possibilidade de uso da máquina governamental na campanha.
MÃO PESADA
Na época, em contato com integrantes do estafe de Rosalba, este jornal constatou que ela e seu marido, o empresário e ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado, presidente do diretório do Dem em Mossoró, estavam conscientes da estratégia que a área jurídica da campanha do Governador adotaria. Tanto é que desde o comentário de seu advogado procuraram evitar a criação de chances para novas investidas de Erick e sua equipe.
Sem fatos novos, o escritório encontrou em fatos pretéritos o motivo para a ofensiva capaz de definir o espaço em que gostaria de imobilizar Rosalba e seu colega José Agripino Maia, presidente regional do Dem, candidato à reeleição e, principalmente, controlador da TV Tropical.
Um dos maiores e mais demorados constrangimentos que José Agripino enfrentou nos últimos anos foi ter que lutar na justiça para evitar que a mesma emissora pagasse quase meio milhão de reais como soma de várias multas que a justiça eleitoral lhe aplicou em 2.006. Além disso, jornalistas vinculados à Tropical perderam sua primariedade através de condenações decorrentes da ação política imputada à emissora. Um deles foi o professor Wellington Medeiros, ex-presidente da Companhia Editora do Rio Grande do Norte (Cern), atual Departamento Estadual de Imprensa. Desta feita, a denúncia poupou os profissionais da casa, mas desceu com mão pesada sobre a estação.
SEM ISONOMIA
Em nome da coligação que patrocina Iberê, Erick questionou o tratamento privilegiado que a emissora concedeu a Rosalba ao longo do período deste ano anterior ao início da realização das convenções partidárias e da propaganda eleitoral. Juntou provas de 104 aparições da senadora em horário nobre da emissora, no período de janeiro a junho, contra vinte participações de Iberê.
Usando a tabela de publicidade da emissora, calculou a multa sobre quatro horas e trinta e nove minutos de exposição da imagem de Rosalba ao longo do período. A estratégia parece estar dando certo: o ministério público eleitoral emitiu parecer favorável à representação. Segundo o procurador Ronaldo Pinheiro de Queiroz, a Tropical “dispensou tratamento privilegiado” a Rosalba, “deixando de conferir tratamento isonômico aos demais postulantes ao cargo de governador do estado”.
* O jornalista Roberto Guedes escreve às quartas-feiras no NOVO JORNAL




1 Comentário
Janice Costa - Capim Macio on 30 de julho de 2010 at 0:34.
Excelente colaboração a do jornalista Roberto Guedes, um grande conhecedor e analista da politica local. Um jornalista completo, escrevendo sem partidarismo nem paixão, enriquece esta publicação que acompanho desde o primeiro momento.