JORNALISMO CULTURAL: UMA ABORDAGEM

Por O Santo Ofício | 28 julho, 2010

Por Ricardo Soares
Editor do blog Todaprosa [SP]

“Não é triste mudar de idéias, triste é não ter idéias para mudar”. A frase do esquecido e sarcástico Aparício Torelly, o Barão de Itararé, ele próprio, de certa forma, um precursor do jornalismo cultural, ilustra bem o que tenho a dizer sobre a prática jornalística que gravita ao redor dos assuntos culturais.

O que penso hoje do jornalismo cultural de mídia impressa, sobretudo o que é feito nas revistas, é muito diferente do que eu pensava no início de minha carreira.

Hoje acho triste especialmente que não tenhamos idéias a mudar como temia o Barão de Itararé. O jornalismo cultural parte de falsas premissas, pratos feitos e já servidíssimos pelo mercado, preconceitos. Está muito mais ligado a marketing cultural do que a jornalismo cultural. Ou seja: divulgue-se bem e fique bem na fita. Por isso os assessores de imprensa, consultores e personal bullshits se tornaram tão primordiais.

Não quero aqui dar uma visão rancorosa e nem truculenta do que está acontecendo até porque existem exceções às regras. Mas , no caso, são poucas. Até porque boa parte dos jovens profissionais que ingressam no mercado nesse segmento não seguem a brilhante premissa do professor, escritor e antropólogo Darcy Ribeiro que dizia: “Jovens duvidem!”.

Isso posto quero dizer a vocês que aqui estou para de certa forma desafinar o coro dos contentes. Dizer que pouco, muito pouco do que se produz em cultura no Brasil está nas páginas culturais das revistas. Pouco ou muito pouco é pautado pela qualidade.

Pouco ou quase nada reflete o que de fato está acontecendo culturalmente nos quatro cantos do país. Isso sem contar a catastrófica e triste colonização cultural que nos fazem crer que somos uma sucursal do Soho novaiorquino quando não passamos de uma colônia chicana pra os gringos que mal e mal conhecem nosso carnaval e futebol.

Nos atribuímos uma importância que não temos de dentro pra fora e de fora pra dentro macaqueamos qualquer novidade que vem de fora abrindo muito mais espaço para uma banda de garagem londrina ou um escritor dinamarquês do que os produtos locais.

Defender a cultura brasileira nas páginas das revistas brasileiras que falam de cultura não se trata de xenofobia e sim de levantar nossa auto- estima. Não seremos mais pródigos ou mais civilizados se soubermos de cor os programas de ópera de fora ou as novidades da Broadway e não soubermos quem foi Artur Azevedo, Mário de Andrade, Campos de Carvalho, Rosário Fusco, Nise da Silveira, José Agripino de Paula, Valêncio Xavier e Luis da Câmara Cascudo. Isso para citar poucos nomes mas que de alguma forma representam transgressão e brasilidade.

Produtos culturais em estado bruto que só poderiam vicejar no Brasil.Dou apenas uma rápida passada no escritor e folclorista Luis da Câmara Cascudo que tendo nascido e vivido em Natal, Rio Grande do Norte, construiu uma das mais importantes obras de identidade nacional, uma obra universal.

Muitos defendem que Cascudo, quando se debruça em questões culturais, foi um pioneiro do jornalismo cultural não só pelo tema que escolheu como pela maneira como a qual escrevia sobre o assunto.

No blog do escritor e jornalista potiguar Franklin Jorge ele conta o que Cascudo fez em 1934… Experiente no ofício que abraçou aos dezoito anos, Cascudo está incluído entre os precursores do jornalismo cultural, ao evidenciar em seu livro (“Viajando o Sertão”) aspectos característicos do gênero, segundo a posterior classificação de Tom Wolfe, um dos criadores do chamado Novo

Jornalismo que surgiu em Nova York e contaminou a imprensa moderna a partir de 1960. Um jornalismo dominado “por uma esmagadora necessidade de fazer parte do mundo real”, que o levou a realizar uma espécie de autópsia social, histórica e etnográfica, ao exigir-lhe o exercício do pensamento e uma intervenção direta no processo da entrevista.

Em “Viajando o Sertão”, o livro mais revelador do processo de trabalho de Cascudo, mostra-nos o repórter em ação e não o intelectual de gabinete, atrás de um birô, sem contato direto com o objeto de sua escrita. Medularmente jornalista, formado na escola do jornalismo desde os dezoito anos, quando o pai o presenteou com um jornal – A Imprensa –, Cascudo ia em pessoa à procura dos fatos, antecipando-se aos manuais do jornalismo moderno(…).

Em seus textos jornalísticos exercita Cascudo — avant la lettre — alguns característicos do New Journalism, o jornalismo cultural por excelência. Um jornalismo, digamos subjetivo, em oposição ao jornalismo objetivo que terá inspirado a Nelson Rodrigues a paradigmática figura do “idiota da objetividade” – um vulgar portador da informação desprovida de conhecimento.


1 Comentário

Bruno Barros on 29 de julho de 2010 at 8:11.

Continue publicando textos assim que serão úteis às nossas pesquisas.

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