SEBOS PARA NABUCO
Por O Santo Ofício | 26 julho, 2010
Por Marcelo Alves Dias de Souza*
Estando em Recife, fui conhecer a “Praça dos Sebos”. Descobri sua existência pelo Google, o pai dos burros de nossa era, com localização e tudo, no Bairro de Santo Antônio, um dos mais antigos da cidade. Confesso que, em princípio, fiquei decepcionado.
O Bairro de Santo Antônio – não obstante as construções antigas, de grande valor histórico e cultural (e lindas, se devidamente conservadas) – está uma decadência só. E parece ser essa a situação de quase todo derredor dessa parte mais antiga do Recife. Debandada do comércio, violência, etc., são as razões que sociólogos e urbanistas conhecem melhor do que eu.
Assustei-me logo ao descer do táxi e dobrar a esquina em direção à Praça. Ali somos recebidos por um boteco (se é que aquilo pode assim ser chamado), onde vivem – ou, melhor, esperam a morte – as mais estranhas figuras.
Farrapos de gente, já àquela hora da manhã bebendo cachaça em garrafas de Coca-Cola. Seriam eles antigos frequentadores daquele comércio, cujo principal produto é o conhecimento? Seria esse o destino dos amantes de sebos?
Mesmo assustado, fui em frente. Não podemos fugir ao nosso destino. E o meu destino, pelo menos naquele momento, eram aqueles sebos, por mais ruins que fossem. Ademais, sempre fui defensor da tese de que o sebo “bom” é o sebo “ruim”.
Explico melhor: é no sebo “ruim”, desorganizado, que podemos encontrar uma boa obra (às vezes, uma preciosidade) a um preço ínfimo. Os sebos “bons”, no que toca aos preços, são quase livrarias.
Não foi dessa vez que minha tese foi desmoralizada.
É verdade que já estava quase para desistir quando dei de cara com Joaquim Nabuco (1849-1910), em uma barraquinha que guardava obras, de uma forma ou outra, ligadas à vida cultural e jurídica de Pernambuco. Não era Nabuco em pessoa, claro.
Nem seu espírito, pelo menos não na forma como acreditam os mais esotéricos. Eram os seus “Diários” (de 1873 a 1910), que permaneceram inéditos por quase um século. Uma primeira edição, de 2005, novíssima, em capa dura e toda ilustrada, organizada e publicada em dois volumes pelas Editoras Bem-te-vi e Massangana, com o apoio da Fundação Joaquim Nabuco.
O encontro com o pernambucano ilustre fez-me recordar que 2010 é, por lei federal, o Ano Nacional Joaquim Nabuco, em celebração ao centenário de sua morte. Ano em celebração àquele que foi – e os seus “Diários” comprovam isso – um dos filhos mais ilustres de Pernambuco e do Brasil.
Em celebração ao político e grande orador, ao jurista (que iniciou seus estudos em São Paulo, mas veio terminar em Pernambuco), diplomata, historiador e jornalista, ao poeta e memorialista. Ao homem que, embora nascido em família escravocrata (era filho e neto de vultos políticos do Império), foi um grande abolicionista, advogado de escravos, em luta que abraçou por quase toda a vida.
Como político e jurista, ao lado de outro ilustre filho do Brasil, Rui Barbosa, lutou a favor da liberdade religiosa e pela separação entre Estado e Religião. De forma pioneira à época, também defendeu a interpretação mutável e progressiva da Constituição.
Além de haver sido o advogado do Brasil na querela com a Inglaterra acerca dos limites da Guiana. Como autor de finíssimas obras – basta ver “O Abolicionismo” (1883), “Um Estadista do Império” (1897-1899), “Minha Formação” e “Pensées detachées et souvenirs” (1906) – foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e grande amigo de Machado de Assis.
Já conhecia o Joaquim Nabuco de “Minha Formação”, memórias publicadas no ano de 1900, que li, me lembro bem, por sugestão do meu pai. Ali Nabuco evoca sua formação em Paris, Londres, Nova York, Washington e no Vaticano. Mas também evoca, com igual ou maior beleza, sua terra, suas origens e a “Massangana” de sua infância.
Em “Minha Formação” está o Nabuco multifacetado, mas que, como disse a filha Carolina Nabuco, no prefácio da edição que possuo (de 1970, W. M. Jackson Inc. editores), foi “um exemplo de equilíbrio feliz. (…) em cada uma das brilhantes facetas da sua personalidade e da sua inteligência, harmonioso consigo mesmo e com o meio”.
Mas voltando a questão dos sebos bons e dos sebos ruins, lembro-me que, certa vez, no Sebo Cultural, de João Pessoa, tentei adquirir os vários volumes de “Um Estadista do Império” (um verdadeiro retrato da vida política à época de D. Pedro II).
Não consegui. Não me recordo bem o porquê. Vai ver faltava um dos tomos. Vai ver estava muito caro. A verdade é que o Sebo Cultural é um sebo muito organizado e bom.
Será que voltando lá, no Ano de Joaquim Nabuco, eu consigo adquirir e, assim, desmoralizo minha tese? Não sei, mas vou tentar.
Por enquanto, eu vou me divertindo com os “Diários”. Com certeza, ajudará na minha formação.
*Procurador da República
Mestre em Direito pela PUC/SP
Doutorando em Direito pelo King’s College London – KCL




2 Comentários
Samuel on 26 de julho de 2010 at 7:57.
Dr. Marcelo, concordo com o sr. Muitos sebos são verdadeiros antros frequentados por gente desocupada e viciosa. Alguns funcionam até como point de drogas (maconha, crack…)
Aqui em Natal, são geralmente lugares sórdidos (com as exceções de praxe).
Tuca on 26 de julho de 2010 at 18:29.
Em S. Paulo o Calil é um sebo decente. Conheço alguns chiquerrimos que atendem com hora marcada, não é essa barafunda daqui não.