PERIGOSO DIVINO MARAVILHOSO
Por O Santo Ofício | 25 julho, 2010
Transcrito do NOVO JORNAL
Por Franklin Jorge
Apesar dos anos decorridos desde então, lembro-me ainda do estranhamento que resultou de ouvir a musica de Caetano Veloso pela primeira vez. Creio que foi em 1966 ou 69, quando passando férias no Ceará-Mirim o ouvi tocado no rádio ao passar diante de uma casa desconhecida à Rua Meira e Sá.
Parei para ouvi-lo, sem saber ao certo o que ouvia, tão novo e inesperado me pareceram aquela melodia, aqueles versos e aquela voz que fugiam inteiramente ao convencional.
Um fenômeno, pensei, certo de que participava de um grande acontecimento estético que teria reflexos em minha própria concepção de arte em processo.
Em todo caso, seria o elemento surpreendente, novo e inovador que incrementaria o humanismo que me tocava, por tradição e índole. Como todo jovem, eu era também pretensioso e audaz em minha busca do belo e do bom, como diriam os tomistas…
Respaldado por vastas e criteriosas leituras e norteado pela filosofia, ao contrário da maioria dos nossos artistas que atuam de maneira intuitiva, Caetano abria novas perspectivas musicais, porém naquele momento o que me tocou foi o inusitado da sua criação que inovava sem destruir a herança das gerações que o antecederam, ao apropriar-se e expandir a seu modo, ou seja com a marca da sua carismática personalidade artística, a herança de seus antecessores, como eu perceberia depois, alguns anos depois, ao refletir sobre o seu legado que vai além da criação musical.
Enquanto em Natal pseudo-literatos inoculados pelo vírus da “vanguarda” tentavam destruir em praça pública a obra cascudiana, por considerá-la o símbolo do passadismo e do oficialismo, Caetano incorporava ao seu repertório o que aprendera com os mestres, dando-nos o valioso exemplo de que só tem futuro quem compreende e respeita a tradição, que já foi descrita como uma espécie de cadeia da qual todos nós somos os elos – através dos quais a sabedoria e o conhecimento são incorporados a um todo universal e acessível a que podemos chamar de experiência feito.
Passei desde então a seguir os passos desse baiano perigoso, divino e maravilhoso que, apesar de sua modéstia, dava inicio a uma verdadeira revolução estética que a tudo deglutiu sem pudor e sem acanhamento, resultando numa expressão cosmopolita a que chamamos, por causa da sua vocação para a explosão e a síntese, de Tropicalismo. Uma obra, enfim, que o justificaria no futuro, como desejaria todo artista cônscio do que cria.
Eis o que escrevi, alguns anos depois, revivendo esse momento inefável de descoberta e que pode ser lido na reedição do meu “Fantasmas Cotidianos”:
“Ao ouvir Caetano pela primeira vez, senti uma viva reação não específica, talvez próxima do entusiasmo dionisíaco.
“Esse acontecimento estético representou uma espécie de rito de passagem para o adolescente maravilhado e incrédulo que parava no Ceará-Mirim. Ao fruí-lo, com a intensidade de meus sentidos alertas, persuadi-me de que essa seria uma das experiências mais reveladoras de minha vida pretérita e futura.
“Desde então, de modo imperativo e difuso, senti que a vibração dessa música exasperada pela inteligência, carismática e algo protéica, ajudaria o futuro a tomar forma.
“Caetano logo difere do criador cego. E, decidido a transformar a volúpia em canções que são a mais viva prova da sua imortalidade, reivindica a importância, para o artista, do descontentamento.
“Domina-o uma sede insaciável de tudo o que se encontra mais além, e que, na brevidade fecunda da sua arte alegre e comunicativa, irradiadora de um encanto hipnótico, revela a vida”.
E, noutra página do mesmo livro, acrescentei:
“Quando o ouvi pela primeira vez, tocando no rádio, fui arrebatado por aquela estranha e poderosa vibração, inspirada aos jovens somente pela descoberta do primeiro amor. Amigos meus – mais bem informados das novidades musicais – sentiam-se, como eu próprio, algo desnorteados e ao mesmo tempo exaltados pelos carismas dessa música que nos abria de maneira imprevista e absorvente novas perspectivas estéticas, aparentemente sem nenhuma ligação com as obviedades da “Jovem Guarda” e do “iê iê iê”.
“Desde o primeiro momento em que ascendeu e brilhou no céu musical, Caetano Veloso impôs um estilo personalíssimo que passou a valer como uma assinatura e que aparentemente não devia nada a ninguém, a não ser, talvez, ao intimismo bossa-novista. Assim, com sua generosidade inigualável, ele nos fala através de sua arte do que é substancialmente seu, por amor e assimilação.
“Como Proteu, divindade egípcia que se transforma a cada instante, era Caetano, naquele momento e para sempre, tudo o que não prevíramos e que, à sua maneira performática de compor e cantar, resumia e ampliava nossos mais secretos anseios estéticos de jovens marcados por um profundo existencialismo.
“Gentil e sedutor como um pecado venial, seu talento prevalece sobre os tormentos da inquietude, ao compor com sua arte um hino gratulatório que desmoraliza o feroz contentamento de si a que vulgarmente chamamos de egoísmo, infundindo-nos, assim, não motivos de consolo, mas a força necessária à expressão da virtude.
“Intrépido ator da história, sua arte põe em questão a dimensão política ao revelar-nos, segundo uma concepção musical que é também uma complexa operação lingüística, um grande poeta da inteligência, do prazer e da liberdade.
“Vivendo então sob o jugo de uma nascente ditadura militar que prendia, batia e arrebentava, os mais perspicazes de nós sabíamos ou intuíamos com um certo temor que não teríamos futuro se a arte não pudesse promover a única revolução aceitável – a revolução pela aquisição da cultura. Uma revolução que, redimensionando a política, restituísse ao homem a liberdade e o direito à livre expressão e à auto-estima.
“Caetano vai além dos Beatles e nos dá com a sua arte poética e musical um sentido e um norte, num momento em que nos sentíamos quase todos frustrados em contato com as incertezas da vida prática.
“Tendo surgido de repente sob o signo do inconformismo, da lucidez e da lúdica, revelava-se um criador cosmopolita com a vocação da explosão e da síntese que identificam o Tropicalismo.
“Autor de formulações novas, capaz de perceber e proclamar que nem só de pão vive o homem, mas também de tolerância, diversão e arte, Caetano cria o primeiro e o único grande estranhamento da música popular brasileira. Desde então, em cada uma das suas novas invenções subseqüentes, tem afirmado uma vitalidade inesgotável que o coloca entre os criadores da nossa modernidade”.
O ANJO DE NATAL
O “Anjo Azul”, monumental escultura que pode ser vista por todos os que trafegam pela avenida Hermes da Fonseca, no Tirol, está com os dias contados.
Ícone e cartão de visitas da galeria homônima – que deve fechar em breve, segundo noticiário veiculado na Internet -, a obra de Jordão passou a fazer parte da paisagem urbana de Natal, cidade em tudo marítima e celeste.
Quem a idealizou o fez de maneira generosa, ao colocá-la ali, à vista de todos, para usufruto geral dos que se surpreendem ou se encantam com a arte desse singular criador, por muito tempo vivendo submergido no pior dos anonimatos – aquele que resulta de ser anônimo na terra onde vimos a luz pela primeira vez…
A informação que circula diz que a obra será demolida e, como tal, transformada em escombros. Que não seja assim, espero: pois quem teve a sensibilidade de idear um anjo para guardar o seu negócio, há de ter a grandeza de, em vez de transformar o anjo em poeira inútil, doá-lo, talvez, ao Parque da Cidade ou a qualquer outro espaço público de Natal onde possa continuar a ser admirado e querido por todos.
Daqui, faço um apelo ao seu proprietário: preserve o anjo! O Anjo tutelar de Natal.




2 Comentários
Nivaldete on 25 de julho de 2010 at 20:37.
Junto a minha voz ao seu apelo, Franklin! Acho que se poderia fazer um pedido coletivo e público ao proprietário. Vou transcrever seu texto no Jornal de Artes. Um abraço.
Nivaldete on 25 de julho de 2010 at 21:02.
Franklin, já copiei/colei seu texto sobre o Anjo Azul no blog jornal de Artes e até postei uma imagem dele, que eu não por acaso tenho.
O end. do blog está neste segundo comentário que deixo.
Um abraço.