O ARTISTA ‘IN FIERI’
Por O Santo Ofício | 14 julho, 2010
Por Franklin Jorge
Escrevendo sobre Portinari, disse Drummond que uma existência de sessenta, setenta anos, seria insuficiente para um artista cônscio do que cria realizar sua obra e submetê-la aos ajustes e revisões que se fazem necessários. Antes, Proust já dissera que os acréscimos enriquecem a obra com o conhecimento posterior e a habilidade que só adquirimos com a experiência.
Nenhum escritor terá sido mais fiel a esse princípio do que o próprio Marcel Proust, que desta forma tornou-se o terror dos editores, ao reescrever infinitamente o mesmo texto, a ponto de quase lhe dobrar o número de páginas.
Para ele, como para o pintor que através de sucessivas pinceladas obtém os efeitos de transparência ou opacidade desejados, era essa atividade posterior que dava carnadura e consistência à obra de criação.
Um artista consciente dos meios que usa sabe que a elaboração de uma obra requer, como condição prévia de êxito, esforço e paciência. Ele sabe por intuição que para colher um resultado faz-se necessário antes acumular. E, no intervalo entre plantar e colher – que demandam tempo e fé -, só lhe resta continuar trabalhando sem descanso e sem paga.
Flaubert descreveu o escritor como alguém que se lança ao trabalho furiosamente. Para ele, como para outros artistas marcados por esta “maldição que salva”, como a definiu Clarice Lispector, a arte só é possível como uma obsessão. Por isso ele aconselhava o escritor a entregar-se a um trabalho regular e fatigante.
Sabe-se que a arte consome o homem e subjuga o artista. E, quase sempre, o faz fracassar num âmbito em que os medíocres geralmente triunfam.
Não podemos, pois, escrever pensando no sucesso que muitas vezes resulta em equívocos a que só o Tempo, como o melhor juiz, pode corrigir e premiar.
É esta consciência, racionalizada ou não, que distingue o artista sério daquele que não o é. Afinal, sem risco não há literatura. Melhor dizendo, não há arte digna de merecimento.




4 Comentários
Ronaldo Amorim on 14 de julho de 2010 at 16:50.
nota dez!!!
Maria da Glória Gomes Pinto on 14 de julho de 2010 at 17:06.
Já conhecia esse artigo, mas foi reler – como faço sempre quando se trata do que escreve nosso ilustre conterraneo Franklin Jorge.
Ricardo Leiros on 14 de julho de 2010 at 18:34.
Ney Malandro não é capaz de escrever um artigo destes! Nem que a vaca tussa!
Narjara Barros on 14 de julho de 2010 at 19:40.
Foi das melhores coisas que você escreveu.