GUSTAVE FLAUBERT
Por O Santo Ofício | 12 julho, 2010
Transcrito do NOVO JORNAL
Por Franklin Jorge
Desde a adolescência, Flaubert sentia desejos insaciáveis e um tédio atroz.
Ele confessa em uma de suas cartas, hoje consideradas documentos importantes não somente pelo que revelam de sua alma, mas como exercício de estilo que proclama a consagração a um oficio regular e fatigante, ou seja, ao ato mesmo de escrever que foi a razão da sua existência e que fez dele – o autor de “Bouvard e Pécuchet” -, segundo alguns críticos e estudiosos, um dos mártires da literatura.
Entre 1821 e 1852, durante os anos de sua infância e aprendizado, ele escreve precocemente em carta endereçada a Ernest Chevalier, datada de 24 de fevereiro de 1839, que não pretende ter nenhuma profissão e que, se vier a tomar parte ativa no mundo, há de ser como pensador e ‘desmoralizador’, estabelecendo desta forma um projeto de vida que dele fará um dos maiores escritores da língua francesa:
Não creia no entanto que eu esteja muito hesitante sobre a escolha de minha carreira. Estou decidido a não ter nenhuma, pois desprezo demais os homens para lhes fazer bem ou mal…
Gustave Flaubert (1821-1880), um dos mestres de Frans Kafka e de Borges, proclama o seu horror à vida e uma obsessão minuciosa pelo trabalho de escrever e idear uma obra que o representasse no futuro. Seu ideal de vida se resume em duas premissas significativas de um projeto aristocrático, viver como burguês e pensar como semideus.
Frequentemente, por essa época, surge-lhe o desejo de isolar-se do mundo, recolhendo-se a um porão escuro, munido apenas de uma lâmpada e dos utensílios necessários à sua atividade de escritor obcecado pela escolha do vocábulo certo e da elaboração de uma frase que resultaria de uma complicada e dispendiosa alquimia formal.
Ali, nesse porão que seria o seu arquétipo de caverna platônica, viveria trancado a chave, sem jamais abrir a porta para visitas, nem mesmo, aliás, para receber a comida que seria deixada no chão, longe do lugar onde ele se encontrasse; seu único esforço seria o de caminhar até a bandeja que levaria para a sua mesa e em seguida comeria, lenta e minuciosamente, como se escrevesse, retomando logo depois a tarefa interrompida de lançar suas idéias sobre o papel.
Muitos o consideram, por isso, um dos mártires da literatura. Alguém que sacrificou a própria vida à escritura de uma obra cuja elaboração minuciosa e fatigante lhe proporcionaria, em alto grau, delícias e tormentos inenarráveis e que Mario Vargas Lhosa descreveu como uma “orgia perpétua”- com todas as conseqüências que a orgia acarreta, em dispêndio de prazer e dor, para quem a desfruta de maneira tão visceral e avassaladora.
Seria Flaubert um escritor para escritores, apesar do êxito pontual de livros como Madame Bovary, que se impôs ao leitor mediano, sem duvida, pelo escândalo que provocou ao surgir, dando margem à polêmica numa época em que o adultério ainda era motivo de vergonha e desgosto.
Hoje, riríamos de seus motivos. Porém, como ocorre em qualquer um outro grande escritor, não é aqui o tema que conta, mas a maneira como se conta e o impecável estilo que resulta de um temperamento obcecado pela precisão de uma forma que não admite veleidades nem quaisquer cochilos do autor.
Frequentemente Flaubert levava mais de cinco dias para compor uma única página manuscrita, trabalhando tanto quanto trabalharia um operário em uma manufatura que exigisse, além do esforço físico uma jornada que desconsiderasse qualquer noção de conforto e lazer, algo assim muito próximo da escravidão.
Contudo, seria esse “mal-estar perpétuo”, além de uma prova de Fé, a garantia de escrúpulos de um escritor que escrevia em plena consciência e sem fazer concessões à vaidade e a essa coisa tola e imperdoável, num verdadeiro artista da palavra, a que chamamos de auto-satisfação.
Por isso, pode escrever à sua amante Louise Colet em carta datada de 9 de dezembro de 1852:
[...] O autor, em sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda parte, e visível em parte nenhuma. A Arte sendo uma segunda natureza, o criador dessa natureza deve agir com o procedimento análogo. Que se sinta em todos os átomos, em todos os aspectos, uma impassibilidade escondida e infinita. O efeito, para o espectador, deve ser uma espécie de assombro. Como tudo isto foi feito? É o que se deve dizer, e sentir-se esmagado sem saber por quê. A arte grega residia nesse principio e para chegar a ele mais rápido, escolhia seus personagens em condições sociais excepcionais, reis, deuses, semideuses. Não fazia com que você viesse a se interessar por você mesmo; o divino era o fim.
Flaubert reconhecia, porém, que o medíocre, por ser mediano, é que seria comum e legítimo, pois está ao alcance de todos, como provam à exaustão, entre nós, subliteratos do feitio de um Nelson Patriota, de um Valério Mesquita, de um Humberto Hermenegildo, de um Cláudio Galvão, de um Flávio Rezende… Escrevinhadores empedernidos e sem distinção intelectual, resumem vulgarmente o que é banal e comum na província.




9 Comentários
João da Mata on 12 de julho de 2010 at 11:33.
Grande Flaubert
Madame Bovary c´est moi. Um dos maiores livros de sempre
Amante da grande Coulet.
Sua cartas são maravilhosas e reveladoras
Um artifice da palavra. Sofria para escrever uma lauda. Um exemplo para todos nós
José Silveira, Alecrim on 12 de julho de 2010 at 12:28.
Vc foi muito generoso, esquecendo nomes como Livio, Moacy Cirne, Leide Câmara, Arinete, Iapery…
e ainda dizem q vc é cruel com os mediocres!
ignacio rocha on 12 de julho de 2010 at 15:09.
silveira, meu filho, v. é adivinhão?
tirou-me as palavras – os nomes, quero dizer – da boca…
que exemplos bem escolhidos!!!
eu acrescentaria à lista outros nomes: as duas sonias, a faustino e a ohton, mabely tinoco, dácio galvão, clauder arcanjo…
Rosane D. Sales on 12 de julho de 2010 at 17:12.
Sr. Franklin: tenho lido o que escreve com tanta distinção e cultura, e aprecio tudo o que sai da sua lavra. Hoje compro o Novo Jornal só para ler o que escreve e acesso o seu blogue todos os dias, às vezes, por duas ou tres vezes, pois seus colaboradores tambem são de alto nivel: Edilson França, Marcelo Alves Dias de Souza, Márcio Dantas, os articulistas politicos – todos eles -, cada um melhor do que o outro!
Receba meus parabens.
Sua admiradora – Rosane Dantas Sales.
Bené Medeiros-Medeiros on 12 de julho de 2010 at 17:45.
Se Franklin fosse enumerar todos os literatos mediocres que infestam Natal ia faltar espaço na blogosfera.
Ô cidadezinha para ter subliteratos!
Laélio Ferreira on 12 de julho de 2010 at 18:12.
Franklin.
Aproveitando a embalagem, comunico que estou iniciando uma pesquisa para lançar, muito em breve (com lançamento festivo e o escambau!), uma antologia dos piores poetas do Rio Grande do Norte. O matéria, aqui no povoado, é vastíssima. Vai ser difícil escolher, entre tantos. A ideia me veio de um volume similar do romancista pernambucano Berto Filho sobre a poesia que se escreve em Brasília. Tenho , até, um título provisório: “A POESIA PORRAÇA DO RIO GRANDE DO NORTE”! Que tal? Aceito sugestões e material para a edição.
Pablo Arruda da Rocha on 12 de julho de 2010 at 21:06.
Uma belza essa ideia de Laélio Ferreira.Se ele fizer essa antologia, não vai ser um livrinho qualquer não: vai ser um calhamaço (até desconfio que o leitor vai precisar de um carrinho de mão para transportá-la), maus poetas é que não faltam aqui.
Tô sabendo que a Sociedade dos Poetas Vivos e & Afins tem mais de 500 sócios, uma calamidade para a literatura de qualquer país!
Adalva Bezerril on 12 de julho de 2010 at 22:14.
Agora entendi porque no último domingo Valério Mesquita estava tão dowm…
Tive peninha do “intelectual”.
Ricardo Leiros on 14 de julho de 2010 at 18:31.
V. enquadrou bem esses medícores. Mas faltou o Dácio Galvão, o “boca de ouro”.