HISTÓRIA E PESCARIA

Por O Santo Ofício | 6 julho, 2010

Por Nonatto Coelho
E-mail: coelhononato@yahoo.com.br

Das profundezas do rio uma anta emergiu com uma onça agarrada em seu dorso e embrenhou-se na mata fechada da margem esquerda, desapareceu como um raio em um par antagônico na inexorável lei da natureza feroz do Juarí; assustei, mas me deliciei com a cena surrealista e rica de simbologia que aquele cenário em extinção me presenteou inesperadamente; o meu amigo mateiro, ( jabuti e macaco) olhou nos meus olhos com um brilho faiscante de euforia e perguntou: “Desta cena iconográfica pagã qual a imagem que levas no seu imaginário?”

Respondi como a criança cheia de onirismo e euforia de um curumim acostumado com sucuris e ariranhas que aquela cena era a encarnação de um quadro de Siron Franco. O mateiro não acompanhou minha visão pessoal, era obvio que ele não conhecia o bestiário do grande artista brasileiro, e continuamos a pescaria.

No silencio deliciosamente violado pelos rumores típicos das florestas tropicais, entre o fisgar de um peixe e a revoada dos pássaros o mateiro me perguntou descontraído: “você vê a arte diluída no cotidiano ou vice-versa”, naquele momento fisguei um dourado de médio porte, e cansado, extasiado de prazer e amor respondi que de um girassol eu vejo um Van Gogh, de um cilindro uma garrafa num quadro de Giorgio Morandi, de um urinol uma escultura conceitual assinada R. Mutt com humor e ironia de Marcel Duchamp, e num improvável silencio, mesmo ali dentro de uma floresta eu ouço uma musica de John Cage.

O mateiro morde o cigarro de palha, dá uma cusparada no chão, olha uma borboleta pousada numa flor e fisga um peixe reluzente e ligeiro; um Martim pescador dá um vôo rasante deixando o seu reflexo fugaz no espelho de água e em minha memória reativa um quadro futurista do italiano Giacomo Balla, é tudo ação e movimento, o elemento dinâmico introduzido nas artérias do cubismo, entrecortado na leve onda do calmo rio Juarí…

O tempo fluía mágico desde que a anta tinha desaparecido lépida e apressada com uma onça nas costas, os peixes pululavam na superfície do rio caudaloso.

O chapéu de palha do mateiro projetava uma sombra no corpo escultural e bem definido, e seu dorso nu refazia os traços de uma escultura de Mironi nos templos helênicos, também lembrava o quadro O Lavrador de Candido Portinari, e assim continuamos a subtrair os peixes na abundancia e exuberante natureza brasileira; o meu guia de pesca em um dado momento depois de ter pescado muitos peixes disse que estava com fome e me pergunta se eu sabia qual é a fome que nos devora as entranhas de forma sutil e que pode dilacerar a matéria?

Antes que eu tentasse adivinhar ele continuou: “é a carência de cultura. Essa é uma desnutrição espiritual que insensibiliza e embrutece o ser humano e o deixa ainda mais próximo de seu instinto animal. É um mal difícil de diagnosticar, pois a matéria onipresente e pragmática deixa os olhos cegos de tanto crer só no mundo tangível, muitos tem esta fome, mas não podem identificá-la, apenas sabem que lhes faltam algo, mas não sabem o que é.”

E continuou, “somente as vitaminas, proteínas, carboidratos e minerais não pode matar a fome de um ser”. Depois de mais alguns peixes fisgados sentamos à sombra de um jatobazeiro frondoso e fizemos uma frugal refeição.

O meu companheiro de pesca e sábio guia florestal acendeu um cigarro de palha sentou em uma pedra e se perdeu em um silencio misterioso, uma capivara assustou com nossa presença e sumiu no rio, e eu imaginando um belo quadro de um pôr do sol me embriaguei com aquele momento único.


1 Comentário

Raimundo NONATTO COELHO on 11 de julho de 2010 at 12:52.

Grato pela publicação!

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