ERA UMA VEZ UM DICIONÁRIO…
Por O Santo Ofício | 6 julho, 2010
Por João da Mata Costa
“Já consultou o Cascudo? Cascudo é quem sabe. Me traga aqui o Cascudo”
Carlos Drummond de Andrade
A Nona edição do “Dicionário do Folclore Brasileiro”, obra de uma vida inteira escrita por Luís da Câmara Cascudo, foi editada pela editora Global em 2000. Edição Revista, atualizada e ilustrada (sic).
E pode?
Quem autorizou?
Tenho todas as edições desse dicionário e qual não foi a minha surpresa ao constatar que a nova edição do Dicionário foi completamente modificada.
A 1ª edição saiu em 1954. A 2ª ed. 1959. A 3ª ed., 1972. No prefácio da 4ª ed., escreve Cascudo, em 1979. “Para essa 4ª ed, aliás 5ª por ter havido da 2ª uma reimpressão nas Edições de Ouro, trago correções, melhoria bibliográfica, alguns verbetes lembrados e reclamados pelos leitores e originais de Carlos Krebs e Moarci Sempé, gaúchos, e a homenagem aos companheiros falecidos depois de 1972” . No prefácio da 5ª ed. em 1983, Cascudo anuncia não haver alteração no texto do Dicionário devido ao seu estado de saúde.
Qual não foi nossa surpresa ao comparar a nona edição do famoso Dicionário do Folclore Brasileiro, uma das obras mais importantes e referenciadas do polígrafo Cascudo, e constatar que o livro foi completamente adulterado e modificado para pior, em nossa opinião. Muitos verbetes foram suprimidos. Outros alterados. Verbetes foram acrescidos. As ricas referências bibliográficas ao final do verbete foram retiradas. Grafias modificadas.
O dicionário de Cascudo é uma obra irregular, mas o livro é como um filho que não pode ser modificado em sua essência e conteúdo. Alguns verbetes são muito ricos em suas informações e conteúdos outros nem tanto. Ainda assim uma obra gigantesca.
A edição da Global altera completamente a obra e isso é inadmissível. Os belos verbetes “Aboio” e Acauã foram reduzidos de forma criminosa. No verbete Aboio, a edição da Global incluiu uma pequena partitura colhida em Araraquara/SP e uma outra linha melódica retirada do livro “As melodias do boi e outras peças”, do Mário de Andrade. Nada que justifique a redução do texto.
Os verbetes Abadá, Abuxó e tantos outros foram retirados. E foram incluídos abacaxi e abobrinha. Algumas ilustrações foram acrescidas na nona edição. Como se diz aqui no nordeste, o que foi feito com o Dicionário do Cascudo é um tremendo abacaxi. E foram muitas as abobrinhas colocadas, o que provocou um empobrecimento do livro. Um crime que espero não seja repetido em edições futuras.




4 Comentários
Daliana Cascudo on 6 de julho de 2010 at 16:08.
Prezados Franklin Jorge e João da Mata:
A Global Editora, que desde o ano 2000, está relançando toda a obra do meu avô tem feito um excelente trabalho, no sentido de divulgação e difusão da obra cascudiana, que se encontrava, na sua grande maioria esgotada. Especificamente a reedição do DICIONÁRIO DO FOLCLORE BRASILEIRO, “revista e atualizada”, tem suscitado muitas críticas, aliás, bastante pertinentes.
Nós, Família Cascudo, já tínhamos atentado para isto há certo tempo e tivemos, inclusive, uma reunião com a Global Editora sobre o assunto. Nesta reunião ficou acertado o retorno ao texto original do DICIONÁRIO, cuja última modificação foi feita pelo seu autor em 1979. A Global nos prometeu que a próxima edição do DICIONÁRIO não será mais “revista e atualizada”, mas totalmente fidedigna ao texto original.
Não há sentido algum em revisar, atualizar ou modificar o texto do DICIONÁRIO, obra prima de Cascudo. O essencial é que se conheça o pensamento cascudiano na sua íntegra, o que é impossível com um texto alterado.
Nosso maior desejo é que o DICIONÁRIO volte a retratar tão somente os dez anos de pesquisa cascudiana sobre o folclore e a cultura popular brasileira, o que acreditamos seja o sentimento comum a todos os admiradores da obra do maior gênio potiguar.
Um grande abraço a todos
Daliana Cascudo
FRANKLIN JORGE, EDITOR DE 'O SANTO OFICIO' on 6 de julho de 2010 at 18:01.
Cara Daliana – Agradecemos, João da Mata e eu, suas considerações acerca deste assunto. Como sempre, honrando uma tradição familiar, a elegancia em pessoa.
Aqui, ao seu dispor.
Dione Fonseca on 6 de julho de 2010 at 18:31.
Cuidado com os invejosos. Nesse meio de voces, escritores e artistas, é o que tem mais…
João da Mata on 6 de julho de 2010 at 21:15.
Querida Daliana,
Faço minhas as palavras do Franklin. Sei do seu trabalho e elegancia no trato pessoal e no carinho com que trata a memória do seu avô e da famíliaV
Voce sabe que tudo que faço é no sentido de uma crítica construtiva.
Sou um cascudiano de carteirinha . Tenho todos os livros de Cascudo
e estudo esse grande escritor ha muito tempo.
Um forte Abraço