RETRATO DE UM AMIGO[1-2]
Por O Santo Ofício | 4 julho, 2010
INVENTOR DE CRIATURAS, COLECIONADOR DE AMIGOS
Por PEDRO SIMÕES,
professor de Direito aposentado, escritor e advogado
Trouxe a lume o dia mais claro e mais azul que pudesse ser. Alumiou mais ainda a claridade para observar a criatura. Descobriu-se um Diógenes diferente do grego, amante da criação e da criatura. Não mais buscava, anunciava. Tornou-se poeta, de frase curta, rima incidental, palavra grávida de beleza e de intenções, precisa. Suficiente.
E por amar o mundo e os seus habitantes, fez-se, naturalmente, generoso. Largo de gestos, talvez, parafraseando a poeta, gesticule seu pensamento, de sorte que mesmo estando parado é já ter compreendido ou não ter dúvidas.
Com um abraço, transfere-se, com um sorriso se explica. Com a palavra constrói amigos e abrigos, inventa alvores e ainda reúne os escombros do dia para fundear a noite.
Em suas lidas, “… reparte a côdea, o boi (…) e sobretudo e mais que tudo, a palavra sem fel”. Uma pomba seria a imagem mais adequada para o seu verbo – branca, plumosa, digna, no bico um ramo de algaroba anunciando o fim da estiagem e os rigores do inverno.
O sorriso sempre pronto, freqüente e estimulante, mal comparando, como as portas automáticas que se abrem quando o sensor indica a presença humana, e, bem comparando, qual o girassol que se volta na direção da luz. Um sorriso a meio caminho do vicariato, no rumo do hospitaleiro interiorano. Com gosto, sempre. Um meio aguado quando de simpatia, apenas. Mas cheio de sol nos portantos e portentos.
Todavia, cautela é recomendável, sem pressa conclusiva quando o virem assim, na tarde, sorridente, imaginando-o sem propósito. Jorge Fernandes adverte:
Habitualmente vivo assim, sorrindo.
O riso para mim exprime tudo…
E no ato mais sério, estando rindo
Sou mais sério rindo que sisudo.
Porejado por uma santidade profana, porque aceitou, melhor dizendo, acoitou os pecadilhos como contraponto de sua natureza e fatalidade inelutáveis. Legítima defesa. Afinal, tornara-se mortal e nordestinado desde que viera á luz num vale de lágrimas, cuja tanta profusão formou o Curimataú, recorrente rio da infância. Nessas águas, dessalinizadas e adoçadas no sobejo da boca do Diógenes-pai, e Eunice-mãe, navegou até o Potengi.
Primeiro, desembarcou no refoles de Riffault. Quando, que nem Crusoé espiando as sextas-feiras, descobriu as margens ramosas. Um dia, teve vontade de continente e, conduzido pela maré, fincou raízes provisórias à beira do cais da Tavares de Lira.
Depois, transplantou-se pelas ribeiras e alecrins e pelas alturas e baixios da cidade. Virando homem-árvore (imponderável baobá) danou-se cabeça arriba para as dunas, mergulhou a folhagem mística no mar de arrebentação pouquinha, recolhendo a sutil renda branca tecida pelas ondas para formar as nuvens, e, fiado no farol de Mãe Luiza, aventurou-se por mares nunca dantes navegados.
Conheceu os sábios do Sião, os Reis Magos, o santo Cascudo de muitos saberes e muitos charutos, os mitos e as lendas de um Natal memorável, seiva de suas raízes – Navarro, Dorian, Rabelo, Veríssimo, Djalma Marinho, Jorge Fernandes, Zila Mamede, Onofre Lopes, Nei Leandro, Lula Capeta (também louvado como Guimarães), Sanderson, o almocreve de sextante apontado para as estrelas…fábula, fábula.
(De Itajubá, o Ferreira, só conheceu a poética, mas foi suficiente. Rendido pelas tantas belezas dos versejados, num culto à sua imortalidade, mandou restaurar a casa onde nasceu. Como mandou esculpir e pintar quadros dos seus cultuados, num ritual pagão pré-franquado por Deus. É assim o magnífico Diógenes.)
Com aprendizado bem posto e afamado, foi ensinar o que aprendeu, para não sovinar a ciência. Capitulou-se à universidade e ficou sendo seu Reitor. Refém do seu ofício, entregou-se escravo de ventre livre à sua terra e à sua gente. Foi mais além, foi deão de todas as universidades brasileiras, e é presidente do Panteão de Letras Potiguares, sem perder o sotaque, nem perder de vista o verde oceânico potiguar, a fascinação das dunas caprichosas e o aleitamento do Curimataú.
Porque foi sempre e a vida toda uma criatura compromissada com a sua aldeia, que nem o santo besouro cascudo Luís da Câmara e o Fernandes que Jorgeou com os pássaros.
Andou por Seca e Meca, Oropa, França e Bahia. Foi condecorado, enaltecido, honrado e comendadorado, mas, no terceiro dia sempre ressurge dos céus mais luminosos e promissores e planta-se nos quintais da sua terra adotiva. Toca o sino, como os nativos dos mares do sul sopravam os búzios, para as celebrações dos amigos, em Pirangi – o mar embaixo, caminho de navegação, carta de alforria da alma viajora.
Homem que bota fé nos compromissos assumidos, leal, pastoreador de amigos e de sonhos delirantemente perseguidos e realizados, surpreende os alheados e se assombra, ele próprio, com a o tamanho e a extensão dos seus devaneios.
Decidiu criar o projeto Rio Grande do Norte, em que faria a Universidade debruçar-se sobre os problemas de sua terra e oferecer-lhes alento e cura. Assim o fez. Enfrentou o desafio de executar o maior programa de editoração da produção intelectual dos docentes e discentes da sua academia. Foi feito.
Continua.




Viva voz