RELENDO GILBERTO FREYRE
Por O Santo Ofício | 28 junho, 2010
Transcrito do NOVO JORNAL
Por Franklin Jorge
É sabido que o que se salva em Gilberto Freyre é o estilo, não as suas teorias sociológicas; o escritor, não o cientista social que acolheu e defendeu a ditadura, fazendo-se presente pela cumplicidade com os ditadores militares.
Certamente, se ainda vivesse, estaria defendendo o presidente Lula, a malandragem congênita deste governo e o braço ideológico do PT, como o feroz vocacionado governista que era desde a sua mocidade, sempre ávido e famélico de reconhecimento e de comendas, viessem de onde viessem tais ouropéis.
Dono de um estilo que delata em grande grau o que Baudelaire definiu como a arte do feiticeiro, impõe-se aos leitores mais refinados por sua elegância, por sua contenção e individualidade, por seu característico humor aristocrático e suas obsessões de escritor
Excetuando-se o estilo, o seu estilo fluido e envolvente, está ultrapassado. Até porque, em nenhum momento, chegou aos pés do nosso Cascudo, Luis da Câmara Cascudo, contra quem cultivou uma espécie de rivalidade a que nunca o potiguar jamais deu trelas e assim puderam, no curso dos anos, manter uma boa e civilizada vizinhança.
Um estilista, portanto, não importando ao leitor o que escrevesse, mas a forma como escrevia e deu vida às suas idéias, algumas inteiramente destemperadas, como aquela em que defendeu a reserva, em qualquer um país civilizado, de um contingente de analfabetos que a seu ver manteriam a pureza do idioma, como decorrência de uma ignorância saudável, algo rousseauniana ou primitivista, sei lá no que ele terá efetivamente pensado ao propor semelhante e indefensável sandice…
Hoje, seria Gilberto o grande apologista do presidente Lula. Até por serem ambos pernambucanos e, sobretudo porque, sem nunca jamais na historia deste país ter um lido um livro sequer e mesmo a despeito disto, chegou o metalúrgico à presidência e ao limiar de um regime que não esconde a sua simpatia pelo totalitarismo e pelas idéias de mão única.
Mas fiquemos com o Gilberto Freyre estilista; com o escritor que dominava a sua arte e fazia-se notável sobretudo como jornalista e por seus textos, diabolicamente bem escritos; sobretudo, escritos com o concurso da cultura criadora e critica, que se opõe à erudição incaracterística.
Ora, o escritor que saboreava elogios como quem saboreia bombons ou goles do mais fino e espirituoso licor, conforme confessaria em uma das numerosas páginas que escreveu, está vivíssimo, apesar de morto para as teorias tão valorizadas durante os anos turvos da ditadura que deu notoriedade, entre nós, à sociologia e à discriminação que faz arremedos de vida sob o atual governo; um governo que só não se impôs ainda, ditatorialmente e de maneira universalmente descarada porque temos um presidente que se acovarda e costuma dar para trás, quando encontra, numa pequena parcela da imprensa – ainda livre e democrática, – algum resquício de oposição.
Grande jornalista e editor, vivendo por toda a vida à sombra do jornal, Gilberto Freyre, tinha a compulsão de opinar sobre tudo, como faz aqui quase sem nenhuma cultura profunda ou com a cultura superficial e rasteira dos jornalistas profissionais, o nosso retórico-mor, Vicente Serejo, o mais vaniloqüente operador de um jornalismo que vai se tornando cada vez mais démodé, repetitivo e sonolento. O cronista, em síntese, de um leitor médio e sentimental.
Durante dois anos, foi o autor de “Casa Grande e Senzala” o feliz editor de A Província, um pequeno jornal do Recife a que deu status de grande e notável, ao reunir entre os seus colaboradores alguns dos maiores talentos do seu tempo, como Manuel Bandeira, Mário de Andrade, José Américo de Almeida, Jorge de Lima, Ribeiro Couto, José Lins do Rêgo, Aníbal Fernandes, Luís Jardim – outro grande escritor e artista plástico há muito submergido no limbo do esquecimento -; um jornal que, segundo as palavras de Bandeira foi uma reação contra o jornalismo estandartizado.
Um jornal, enfim, que deu guarida e pôs em circulação o que o próprio Gilberto Freyre chamou de “pernambucanidade”,ou seja, um leque de valores provincianos para os quais a imprensa provinciana, na ânsia de ser moderna, costumeiramente virava a cara , desdenhava e fazia beicinho…
Além disso, foi um escritor que se foi tornando com o tempo cada vez mais refinado e capaz de substituir o pedantismo ostensivo do jovem intelectual formado em Baylor por uma espécie de serenidade aplicada à forma, que faz dele, hoje, neste sentido, um clássico brasileiro; o detentor dum classicismo já latente na sobriedade do seu vocabulário, que alguns dizem ser parco e restrito, e na escassez da adjetivação que tem enrascado muitos talentos… Usando duma metáfora bíblica e apocalíptica, poder-se-ia dizer de Gilberto Freyre que escreveu em estilo de homem.
Para encerrar, pois não quero ser acusado de provocar bocejos no leitor desavisado que me prestigia, diria que não podemos prescindir do que o notável pernambucano escreveu, em todas as fases de sua vida – que não foi curta nem improfícua – , para os jornais; especialmente para os jornais de sua terra, através dos quais pôs em relevo esse elemento inesperado de pernambucanidade brasílica e luso-tropical, e que constitui uma teoria e uma invenção que faria dele, Gilberto, para os ditadores militares, uma espécie de magister dixit. Em termos de cultura brasileira, a última palavra.




5 Comentários
Boy Madeira Que Cupim Não Rói on 28 de junho de 2010 at 7:42.
Eita! Do caralhooo!!!
Telma Cury (Campinas-SP) on 28 de junho de 2010 at 7:45.
Surpreende em FJ essa conjugação de qualidades: leveza, fluência, elegância, concisão e profundidade.
Marcus Silva on 28 de junho de 2010 at 14:32.
Era o que eu pensava sobre $erejo e não sabia como dizer…
Pedro Baptista on 28 de junho de 2010 at 14:44.
É por isso que gente mediocre, como o Nei de Castro, tem tanta inveja do seu talento – e da sua cultura.
Quem aqui escreveria um artigo desses? Não seria ele nem o Nelson Patriota…
Duda Vasconcelos - Olinda on 28 de junho de 2010 at 19:44.
Maravilhoso simplesmente maravilhoso!