BARTOLOMEU CORREIA DE MELO [3-3]
Por O Santo Ofício | 27 junho, 2010
Por Pedro Simões Neto*
Os livros das decifrações
Botou tudo que ouviu em dois livros que dedicou à cidade: “Lugar de Estórias” e “Tempo de Estórias”.
Como um breviário completo, ou um almanaque, dá conta de tudim – dos ofícios, bem quereres, malquerenças, febres suspirosas, mal assombros, amores queridos e rejeitados…causos que se não forem acontecidos, bem que poderiam.
Uma espécie de Cabala, de livrinho de cordel em prosa, de Roteiro Místico da cidade, de desnudamento da alma dos seus habitantes, uma declaração de amor à sua própria obra profana, todavia, reconhecida por Nossa Senhora, que deu mostras de ter-se encantado com toda a recriação e com as invencionices do seu mestre de obras.
O que tem de humano nas criaturas de Deus está lá, devidamente registrado e tombado. Sacramentado. Só não está lá o que não interessa e não recomenda um criador de boa fé e honestas intenções. Se não há barões, nem baronetes, nem senhores de baraço e cutelo e os seus escravos, é porque o autor resolveu passar flanela com vinagre nesse azinhavrado e borracha nos mal amanhados.
O que está lá é o povo de Deus, na média possível, na medida do possível. Está lá, a infância perdida no passado, sobrevivente no presente e resgatável no futuro. O imutável sentimento de amor às raízes sentimentais e ancestrais.
Está lá, também, o socorro ao náufrago, coitado sem identidade, perdido no oceano da globalização, macaqueando os outros sem saber porquê, ou sabendo, mas envergonhado de ser o que é.
O farol que alumia o caminho para o porto seguro (Ninguém se perde no caminho da volta). A razão de sermos o que somos e porque somos. O orgulho de sermos únicos, individualidades distintas, a partir da nossa origem, hábitos, língua, caráter.
Um amigo observador da cena humana, disse certa vez que há uma ciência que ninguém nos supera em conhecimento e vivência: a nossa terra. A aldeia que nos pariu e nos projetou para o mundo.
Desde que tenhamos dividido com ela a nossa própria vida, que pelo menos um pedacinho de nós haja-se incorporado à história e ao cenário da nossa vivência: naquela rua, naquela árvore, naquela igreja, naquele colégio, sob aquele céu, no fundo da paisagem, num causo perdido, há uma marca indelével da nossa passagem que podemos testemunhar com as nossas estórias.
Nesse espaço somos protagonistas, não apenas testemunhas ou circunstanciados dos fados. Fizemos, nós mesmos, a nossa própria história, mesmo que tenha sido uma “ponta” do enredo, que tenhamos sido coadjuvantes, nossa marca está lá, num talho de canivete, numa velha foto encardida, no livro de batismo, no registro do cartório, na tradição oral.
Na sementeira dos filhos e netos. Na memória dos mais velhos e mais acreditados. Na retina sempre-verde dos companheiros da infância.
No inconsciente coletivo, que guardou o vagido da criança, o arrastado dos primeiros passos, os primeiros aprendizados, os primeiros gemidos do amor. E muito depois, o difícil, mas prazeroso retorno aos primeiros momentos, só reencontrados no lugar de origem. O caminho da volta.
Bartola, como ficou conhecido o anjo-trovador, poeta e cantador, na vulgarização sem cerimônia dos cearamirinenses, que apelidariam até o Papa, é uma instituição da cidade. Talvez o seu mais importante habitante, porque a recriou.
Não que tenha pedido por isso, porque o enfada a notoriedade, prefere a alforria das obrigações que o conserva irreverente e maroto. Um sonso, isso sim! Daquela sonsice de quem foi predestinado à liberdade, e é forçado à prisão na saia avoenga.
E também, porque guardou a sua ciência até os mais de cinqüenta anos de idade, para só então torná-la pública, sovinando aos seus amigos, aos conterrâneos e no geral aos que tem sede e fome de saber, a chave para decifrar conhecimento tão hermético e ao mesmo tempo tão singelo.
Mas resistir quem há de. O que esperava o criador de uma freguesia, mestre de obras de Nossa Senhora da Conceição, autor de uma obra comparável à Pedra de Roseta, decifradora da cultura singular de uma cidade, que, sendo igual a tantas outras, não é igual a nenhuma delas.
Rejeito as generalizações. Todas são simplificadoras e embusteiras, porque têm sempre um propósito de apoucamento ou de igualação, ou cortam o que lhes sobra em tamanho ou nivelam por baixo, no mesmo tope, mesmo que maiores.
Como querer estabelecer um parâmetro entre Bartola e o Rosa das Gerais. Não há como compará-los ou medir a importância segundo este ou aquele referencial. Em favor de Rosa, a criação. Em benefício de Bartola, a apropriação do dialeto popular e a sua conversão em linguagem corrente literária, às vezes decodificadora da emoção, do caráter, da cultura.
De fato, a partir do molde originalíssimo, criou-se a verdadeira escola literária do Ceará-Mirim.
Porque é isso o que o anjo-trovador faz: transporta-se, pela linguagem comum, ao seres humanos desfavorecidos de teres e haveres, mas ricos em aventura, alegria e esperança. Sonham. E por isso revivem, transfiguram-se, transmutam-se, renascem meninos. Beiradeiros.
Viva Bartola!
Que viva sempre em nós, a nossa aldeia, que é o nosso mundo, a nossa referência e a nossa fiança, a teta-mãe que nos aleitou, qual Rômulo e Remo, pelos úberes dos guaxinins do canavial.




2 Comentários
Bartolomeu Correia de Melo on 28 de junho de 2010 at 11:54.
Amigo Pedro:
Assim, com olhos de amigo não vale, não!
Muito que muito lhe agradeço a boníssima intenção, nunca tive mais enconfeitada louvação.
Se bem que, pelo meu feitio encabulado, juro que fui corando enquanto lia. Não desminto nosso amigo Manoel Onofre, pois que amor, saudade e boniteza são argamassas da melhor poesia. E ninguém falando de tais coisas escapa de ser poeta, inda mais quem já possui cacoetes e
competências de trovador enrustido. Até que ficou bonito!…
Sinceramente, não me fico à vontade como personagem; sinto como fora um acanho de carinhosa mas injusta mangação. Afinal, quem seria, esse neto de dona Claudiana, a mais simples das criaturas, pra se enxerir de criar belezuras adiante de Nilo Pereira, criador da”manhã da criação”? No melhor, seria apenasmente um exuzinho zombeteiro, malservente de pedreiro, anjo-mestre, nunca. Afinal, quem cria concebe e, pra concebências, ninguém
melhor que a própria Santa Senhora Nossa, Dona da Conceição. Eu, meu amigo, no melhor dos casos, muito honrado estaria se me encarregassem dos menores acabamentos: dar o brilho no céu da paisagem, pentear os canaviais, aveludar os toques do sino… Isso já seria bem mais do que mereço; não que seja muito, é que mereço muito pouco, perante a
verdade dos personagens e a realidade dos sonhos.
Agarre uma quicé, pegue o texto e corte fundo, antes que eu peque por vaidade, crendo que sou assim, mesminho desse jeito que me escreve. Não leve a mal, mas falo sério.
Um grato e bem medido abraço.
Bartolomeu.
Marliete Ferreira on 28 de junho de 2010 at 12:36.
Valeu, Bartolomeu!