BARTOLOMEU CORREIA DE MELO [1-3]
Por O Santo Ofício | 27 junho, 2010
Por Pedro Simões Neto*
De como Bartola, o anjo-trovador, foi mestre de obras de Nossa Senhora (Memorial dos Fundamentos da Criação da Freguesia de Nossa da Conceição do Rio dos Homens)
“E eu, que ando só, me reencontro
na sombra de cada coisa perdida.”
Sanderson Negreiros
Bartolomeu Correia de Melo, cearamirinense naturalizado, tem-se distinguido como das melhores expressões da literatura norte-rio-grandense e, sem sombra de dúvida, o mais original contista dessas e doutras terras do nordeste e dos Brasil. É dono de uma linguagem bem tecida porque de boa urdidura, emprestada da língua do povo de sua terra.
Não há como confundi-lo, nem como desentranhá-lo do fabulário e do imaginário popular – melhor dizendo, da massa de sangue e das raízes telúricas de sua gente e de sua terra. O modo como reencontrei o menino do meu convívio, o adolescente apenas riscado a giz na memória, nessa imerecida
velhice precoce, só pode ser explicado através do fantástico e do mágico. E é isso que faço, numa homenagem ao meu amigo de memórias conterrâneas e de afinidades, e ao nosso terreiro, pedindo licença aos leitores para fugir do trivial, e o perdão a Nossa Senhora pela heresia. A benção, meu padim Padre Cícero Romão Batista e o nihil obstat do meu amigo Padre Rui Miranda.
A explicação
Não creio nos acasos. Sustento a tese de que se aceitássemos como manifestações autenticamente espontâneas as interferências na nossa vida, sem o concurso da nossa vontade, estaríamos admitindo que o livre arbítrio franqueado pelo Criador apenas ao ser humano, se estendesse à própria natureza e se vulgarizasse. O mundo seria, então, fruto de gerações espontâneas e Deus, apenas um espectador silencioso e impotente. Ou omisso.
Nada tão falso. Deus é onipotente e nenhuma ramada é colorida, nem uma só folha se move, sem a sua aquiescência. Acredito, sem tentar fazer proselitismo religioso, mas apenas declarando a minha convicção, que Deus tem planos para cada um de nós. Sou de crença espírita cristã e acredito na reencarnação e nos seus desdobramentos.
Eis porque acolhi Bartolomeu Correia de Melo, a quem trato carinhosa e propositadamente de Don Bartolo, qual um personagem de ópera transversal a Don Giovanni, como meu irmão. Teríamos sido assim em alguma dobra do tempo. Senão, como explicar o fato de que o vi tão poucas vezes na adolescência e só voltasse a vê-lo na nossa precoce velhice, e ainda assim se estabelecesse entre nós tanta afinidade, tanta memória comum, tanta substanciação existencial?
Por isso, confirma-se a minha tese e aqui declaro, sem pompa nem circunstância, mas de peito aberto e lavado e espírito enxaguado, a geminação da nossa alma.
As revelações
Segundo informações da dupla de saltimbancos Cherubino e Zambetta, iniciados nas adivinhatórias e esoterismos, Don Bartolo teria sido um anjo trovador, desses que andam sempre com uma lira à mão e versejam à toa, tanta fartura de imaginação e riqueza vocabular rimosa.
Por isso, o Divino sempre foi muito tolerante com ele, permitindo que fizesse a sua graduação com os pássaros e os bardos do naipe de Camões, Zé Limeira, Carlos Pena Filho e, principalmente, com “Rebequinha”, o poeta nativo das terras ainda virgens do que viria a ser Ceará-Mirim, de dia contemplador de paisagens e tocador de burro no bota-água nas casas , de noite, repentista e tocador de rebeca – daí o nome.
Foi a sua danação. Tinha dia de se perder, doido de tanto trinado bonito, tanta poesia e tanta música, quando, então, cutucado pelos saltimbancos, procurava parelha com Juvenal Antunes e Jorge Fernandes, ganhando os partidos de cana e os tabuleiros cheios de cajus, para encher os olhos dos mais verdes e mais vermelhos, amarelos e azuis que já tinha visto. Era a cura de sua ressaca, pelo método homeopático: quanto mais beleza, mais depressa a cura da tontice pela beleza vertiginosa.
Um dia, com os ouvidos prenhes de tanta reclamação beata o Todo-Poderoso cansou da contagiante humanidade do seu anjo e o desterrou definitivamente no nosso planeta, também louvado no similia similibus curandi.
Desterro? Parece brincadeira, não é? Melhor seria dizer premiação, se era só o que o anjo enviesado queria.
Se não foi premiar, a intenção do Senhor ficou bem juntinho disso. A dupla apelidada por Bartola como Quero-mais e Cambeta, confirmou que o Todo Poderoso concordava em soltá-lo na buraqueira, digo, no alagadiço do vale porque tinha planos para ele, só que essa verdadeira missão não podia ser revelada, senão iriam comentar que era caso de preferência, privilégio, proteção – sabe como é a língua do povo, que dirá dos anjos, meões de defeitos e meeiros de santidade.
Mas teve um “porém”: ficaria confinado, até nova ordem, no campanário de uma igreja apenas idealizada, mas já de concretude visível na imaginação mística dos entes divinos, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Deu-lhe a penitência de tanger no imaginário os sinos nos finados, nos júbilos e nas procissões, espantar e limpar os morcegos e suas titicas, sossegar algumas almas desgarradas e alimentar os passarinhos mais afoitos.
De vantagem, contar estrelas, pastorar a lua, adivinhar as esculturas feitas pelo vento nas nuvens gordinhas e brancas que brincavam no céu, catar os cavacos de noite na barra o dia e beber o vinho rosé dos ocasos para celebrar a noite renovada, quando todos os gatos são pretos.
Foi quando Nossa Senhora da Conceição, surpresa e prazerosa por encontrá-lo nesse ofício, o convocou para uma missão muito importante: colorir o lugar de que era madrinha, dar-lhe o jeito, um aroma, traçar o perfil das ruas e a geografia do município, e, finalmente, o caráter dos seus habitantes.
O anjo, entre afoito e cauteloso, ainda perguntou se a Divina Pastora tinha alguma preferência ou proibição. Tanta era a confiança da Madona que não lhe impôs nenhuma regra nem lhe fez nenhuma advertência. Disse apenas que queria algo especial, digno do seu amadrinhamento.
Era dar corda ao jumento, soltar a corrente do cachorro, abrir a gaiola ao pássaro, semear na terra uberosa de húmus e de água. Dar de beber e de comer a quem tem sede e fome.
O anjo soltou-se. Ficou que nem um beija flor ou um zig-zag, flanando algum tempo ao redor do fantasioso campanário, como se buscasse o néctar da inspiração, naquele dilema do burrinho da estória de Apuleio, que teria morrido de fome e sede, rodeado de bacias de água e de milho, por não saber por onde começar.
Depois, cravou o “seja o que Deus quiser” e decidiu iniciar o trabalho.
Continua depois.
*É professor de direito aposentado, escritor e advogado




Viva voz