PROFISSÃO REPÓRTER: REALISMO FICCIONAL

Por O Santo Ofício | 24 junho, 2010

Por Fernand Alphen,
diretor da F/Nazca

As curvas de audiência/leitores dos conteúdos jornalísticos nos principais veículos de comunicação vêm caindo (despencando?) em velocidades maiores nos targets jovens do que a queda (acomodação?) da audiência geral.

Antes de construir algumas hipóteses (alarmantes?), vale descartar a explicação fácil: se a audiência dos tradicionais está caindo e a dos novos está crescendo, isso não significa necessariamente uma transferência de um para o outro.

As plataformas digitais são talvez aquelas que mais facilmente permitem superposição da atenção. A Internet é um estímulo irresistível ao comportamento multitarefa. Por outro lado, a pulverização dos meios novos (novos?) é tamanha que é impossível estabelecer quantitativamente algum tipo de correlação entre a queda de uns e o crescimento de bilhões.

Por fim, se qualquer crescimento (da audiência do conteúdo jornalístico da Internet) é grande quando ele parte de muito pouco, difícil é levantar depois de uma certa, digamos, experiência.

As hipóteses a seguir são possibilidades concomitantes mas merecem ser isoladas para que a análise tente ser mais cristalina.

A primeira hipótese (catastrofista?) é a de que o gênero simplesmente não interessa mais aos jovens. É dizer que nesse mundo pós-pós- moderno, o cérebro da molecada é composto de fractais de atenção, que se multiplicam, desdobram, perdem-se, ao infinito. Nada gruda, nada pega, nada entusiasma, inflama, excita. Se assim for, o jornalismo sempre será refém das quedas de avião e dos julgamentos espetaculares. Ai do futuro dos nossos valores de outrora.

A segunda possibilidade (conformada?) é que de fato o jornalismo broadcast, de cima para baixo e ideológico caducou. Essa possibilidade confronta uma revisão da autoridade como decorrência de conhecimento e experiência. Ou seja, não acreditamos mais que a reputação de um jornalista ou de um veículo possa ser fator de seu passado e de seu pedigree intelectual e técnico. Acreditamos mais no mais próximo e nos nossos relacionamentos que procriaram repentinamente. Reputação se conquista com seguidores e não com currículo. Ai de nossos velhos dias.

Mas talvez (inshalláh!) possamos também encarar a nossa fórmula de construir o conteúdo jornalístico com um olhar de implacável crítica. O jovem, confrontado com uma realidade cada vez mais intrincada, inter-relacionada, organicamente conectada, não se excita mais com o jornalismo cortado em fatias editoriais.

Qual a história das mentalidades, que decretou o fim da visão cronológica (como um salame: a Antiguidade, a Idade Média, o Renascimento, etc.) e anunciou uma visão temática do mundo (como um repolho: o amor no ocidente, a loucura, o mal), o jornalismo que fazemos deixou de ser crível e apaixonante. Economia, finanças, política, comportamento, cultura, esporte, por que não aposentar os velhos especialistas, cada vez mais arcanos e iniciados?

Por que o jornalismo não pode ser um contar de histórias (mil e uma noites?) interminável, uma novela que documenta o mundo em temas transversais e universais? Uma espécie de realismo ficcional. Queremos (jovens e velhos) consumir o mundo como uma fantástica história, cheia de perigos, esperanças e heróis.


1 Comentário

Arthuro Welsh (SP) on 24 de junho de 2010 at 23:33.

Eh, quantaaa coisa boaa pra ler!!!

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