AS PARCERIAS*
Por O Santo Ofício | 2 junho, 2010
Por João da Mata Costa
Quando sou ou escrevo nunca sou eu mesmo. Mário de Andrade era mais que trezentos “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”. Fernando Pessoa precisou se multiplicar em vários heterônimos. Numa deliciosa crônica do Fernando Veríssimo quem fica bêbado é o outro; o Rubens. Bouvard precisa de Pécuchet, o Quixote de Sancho e eu, acredito na “transmigração das almas”, mesmo sem saber o que é.
Na História da literatura essas parcerias são muitas e decisivas. O meu ego desaparece um pouco para o outro existir. Alguns escritores até se escondem atrás do seu Ghost-Writer, editor, agente literário ou colaborador. A Imaginação de Julio Verne muitas vezes não era suficiente para concluir o livro e pedia socorro ao seu editor.
Colette, amante de Flaubert, manteve uma parceria mais ortodoxa com o seu primeiro marido Henry Gaulthier-Villars, conhecido por Willy. O Infiel Willy assinava os textos de Colette e montou uma criativa estratégia de marketing para vender os livros da sua mulher, posta reclusa.
O Primeiro livro dessa parceria foi “Claudine à L’ École” e mais três “Claudines”. O esquema montado por Willy ostentava em todos os prostíbulos de Paris uma Claudine residente e havia loções, gelados, roupas, cigarros, perfumes, pó-de-arroz e postais com a imagem de Claudine, a mulher criança, perversa e ingênua ao mesmo tempo, natural e super-produzida.
Através dessa personagem, Colette descreveu magistralmente as experiências simultaneamente eróticas e violentas que as raparigas experimentam” … essas neuroses da puberdade, o hábito de comer barro e carvão, de ler livros indecentes e de espetar alfinetes nas mãos” (As Meninas Exemplares /por Helena Vasconcelos. Colette, A Monstruosa Inocência.
A grande produção de Alexandre Dumas não foi solitária, e teve a participação de Auguste Maquet. Os grandes best-sellers “Os três Mosqueteiros” e o “Conde de Monte Cristo” assinados por Dumas teve a participação do Maquet. E assim acontece aos montes na historia da literatura, nas artes e ciências. A falta de ética e escrúpulos também freqüenta o fazer literário e as glórias muitas vezes escondem os fantasmas de muitos escritores criativos e anônimos.
Outra grande parceria da literatura se deu entre os escritores Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges. Parceria que rendeu muitos livros de crônicas, antologias e roteiros para cinema. A parceria entre o autor de “A invenção de Morel” e Borges começou em 1942 sob o pseudônimo de Honorio Bustos Domecq, em alusão ao famoso conhaque apreciado pelos escritores e ao nome de ancestrais comuns a eles.
O primeiro livro dessa parceria foi “Seis problemas para Don Isidro Parodi (1942). Em 1946 eles escrevem “Dos fantasias memorables “ e “Un Modelo para la muerte”. Com Borges já acometido de cegueira, eles escreveram outros livros de histórias policiais “Crônicas de Bustos Domecq” (1967) e “Novos Contos de Bustos Domecq” (1977).
As crônicas escritas por Domecq são artigos sobre artistas imaginários e foram dedicadas “A esses três grandes esquecidos: Picasso, Joyce, Le Corbusier”. Borges gostava de imaginar lugares, enciclopédias e pessoas.
Na literatura fantástica não há um compromisso com o factual e real e a imaginação pode criar as mais estapafúrdias e incongruentes situações. Quem escreve é um terceiro escritor que se multiplica eternamente por entre espelhos e miragens que causam uma ilusão de verossemelhança e beleza que só a grande literatura pode proporcionar.
Casares não foi um escritor excepcional e sua parceria com o grande escritor Jorge Luis Borges renderam bons frutos. Morto em Março de 1999, escreveu outros livros e foi muito mais que um parceiro de Borges. Escreveu ainda “Diário de la guerra del cerdo”, “Dorme ao Sol” e “Sonho dos Heróis” (Cosacnaify), e outros livros de antologias em parceria com Borges e Silvina Ocampo – a grande escritora e biógrafa de Borges, de uma imaginação fértil e fantasias inesgotáveis. A parceria Borges-ABC (Casares) é uma das mais profícuas da literatura e num concerto a quatro mãos eles realizam o milagre da criação com se um fora:
“A arte da colaboração literária é a de executar o milagre inverso: fazer com que os dois seja um”, sentencia Borges.
No cinema eles participam dos roteiros de Invasion (Argentina 1969), inspirado no grande filme Alphaville, de Godard. Lês Autres (França 1974) e Los Oriellos (Argentina 1975).
*a Franklin Jorge




2 Comentários
Rodrigo Leite on 2 de junho de 2010 at 17:11.
Muita erudição. O João da Mata é um crânio!
misherlany on 2 de junho de 2010 at 17:55.
Palpitoso. Um texto claro e sintético nas idéias. Muito bom mesmo.
Misherlany.