O MULTITUDINÁRIO RAIBRITO

Por O Santo Ofício | 31 maio, 2010

Por Misherlany Gouthier

Raimundo de Brito viveu tudo e mais um pouco em sua extensa caminha ao longo dos seus 90 anos. Andou por Seca e Meca como ele próprio costumava dizer. Curioso por assuntos relacionados à História de sua terra natal – Caraúbas, montou um dos mais ricos arquivos de pesquisa do Rio Grande do Norte.

Pesquisador incansável, metódico, persistente, detalhista, parcimonioso, conviveu com vários momentos da literatura no país. Amealhou grande amizades no campo das letras. Cascudo foi uma dessas culminâncias que nem o Tempo ousa enfrentar. Raimundo Nonato da Silva, Walter Wanderley, Pe. Jorge O’Grady, Helio Galvão, Gil Soares, Veríssimo de Melo, Edgard Barbosa, Nilo Pereira, Jorge Freire, Jaime Hipólito Dantas, Pedro Batista de Melo, Rafael Negreiros, Franklin Jorge, Cascudo Rodrigues, Vingt-un Rosado e outros.

Leu tudo que chegou às lentes. Nunca poupou esforços quando o assunto era literatura; o germe da pesquisa está no sangue, repetia quase que diariamente.

Já o disse outras vezes que Raimundo Soares de Brito, é parafraseando Mário de Andrade, trezentos, trezentos e cinqüenta.

Antropologia, Folclore, etnografia, genealogia, memórias, costumes e tradições do patriarcado distante estão constantemente presente nos seus livros. Através da pesquisa de campo, juntado depoimentos os mais diversos cuidou de construir uma obra perdurável e eficiente nos estudos sobre a vida econômica, política, literária e boêmia do Rio Grande do Norte, bem como referência a estudos gerais catalogados ao seu gosto.

“Caraúbas Centenária”, seu primeiro trabalho, revista comemorativa ao centenário da paróquia daquela cidade, foi publicada em 1959. Depois vieram outros títulos para enriquecer a bibliografia potiguar, dentre livros e ensaios.

Estreou na prosa, a bem dizer, com “Eu, Ego e os Outros”, [edição Queima-Bucha], retalhos de suas memórias onde relaciona uma série de tipos folclóricos (ou populares), descrevendo fatos ocorridos durante a sua vivencia em Mossoró, Natal e Fortaleza, sem deixar de lado sua inesquecível Caraúbas.

É um completo romance, carregado de fatos marcantes do viajante sem rumo certo. Um livro interessantíssimo. Um fascínio: texto enxuto, desprezando os arroubos de palavras intragáveis à mente do homem simples e comum; um livro sobremaneira aprazível.

“Páginas Arrancadas”, o segundo volume das memórias de Raimundo Soares de Brito que tive o privilégio de acompanhar cada texto, traduz-se num dos livros de memórias mais deliciosos que já li nos últimos tempos. É a página comovente e fiel da vida sertaneja que o seu autor viveu; é o testemunho fiel daquele que muito soube aproveitar da vida e nunca se deixou esmorecer, mesmo sabendo-se um homem marcado por muitos desencontros…

Personagens como Tia Maria, Mãe Cecília, Ti João, Paulista, Ivanildo, mais conhecido como “Deus”, Zé Caiana, Cambraia, Cascudo, Djalma Maranhão, Professor Lourenço, da Ursulina; um turbilhão de gente que enriquece ainda mais as memórias, então ricas de conhecimentos e vivências do maior pesquisador de Mossoró de todos os tempos. Um relato dos costumes e das tradições de um povo na sua mais profunda maneira de viver. Vale a pena ler as “Páginas Arrancadas” do grande e inesquecível Mestre, Amigo e confidente Raimundo Soares de Brito.

A Prefeitura Municipal de Mossoró e a Coleção Mossoroense, do saudoso Vingt-un Rosado, na pessoa do Dr. Dix-sept Sobrinho, estão de parabéns por terem enfrentado a grande batalha para publicarem este precioso volume das memórias de Raibrito.


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