A VELHA URSA DE PARAÚ

Por O Santo Ofício | 30 maio, 2010

Por Misherlany Gouthier

Já descambava o entardecer no velho e faustoso rio Paraú quando dona Antonieta se preparava para mais uma de suas minguadas noites de sono. Dizia não dormir bem, passava horas da madrugada vigiando as galinhas que tinha no quintal da parca choupana onde pretendia encerrar seus dias de vida. Acreditava piamente em assombrações e dizia ver almas de outros mundos.

Manifestei-lhe minha curiosidade em ouvir estórias mirabolantes sobre vultos encaveirados e pessoas que se transformavam em bichos. Aquilo só pode ser coisa do Demo, sussurrava baixinho enquanto mastigava uns pedaços de biscoito que havia feito para o café da manhã. Já anoitecia, disse-lhe preferi vir no dia seguinte visita-la para lhe anotar a prosa.

Com umas feições pra lá de estranhas, trazia na face uma anomalia congênita: tinha cara de urso. Por esse motivo, dizem, os meninos endiabrados lhe pusera a alcunha de “Velha Ursa”. Ao contrário de muitos, ela não tinha raiva desse epíteto, mas evitava falar sobre o assunto.

Foi uma sobrinha sua que indicara a tia anciã para dar depoimentos sobre essas estórias que o povo na sua complexa religiosidade e no seu folclore de rua criam mundo afora.

Pela manhã os galos já amiudavam quando levantei-me para passar um café amargo. A boca parecia não reconhecer o gosto forte do café. Quase não dormi esta noite pensando nas palavras da Velha Ursa. Demorei-me um instante diante das águas do Paraú que passava por detrás da humilde casinha que encontrei abrigo há dois meses, se muito. Sentia uns beliscões pelo corpo. Era muito cacete viver ali; para mim consistia um paraíso, se não fosse a língua das pessoas…

Dona Antonieta assemelhava-se àquela velhinha que certa vez eu encontrara no Cais da Ilha de Maritaca. Trajava um vestido florido de ipês amarelos, um cachimbo caído no canto da boca, os cabelos encharcados que pareciam arame amarelos devido o peso dos anos. Lá se iam muitos janeiros. Andava arrastando os pés calçados com sapatos de couro de ovelha.

Ali, à beira do ditoso Paraú, rezei um Padre-Nosso e agradeci as maravilhas concedidas no último inverno. O sol despontava radioso. Subi na alimária, um burrico que lhe dei o nome de Jerome, e fui visitar minha entrevistada. De quando m quando o animal parava para sorver um pouco de água nas poças que a chuva havia deixado.

Uma preta que vivia de agourar a vidas das pessoas do rude vilarejo, havia confessado no roçado, pude escutar, que a Velha Ursa seria capaz de se transformar qualquer bicho se assim desejasse. “Ela tem a oração de São Cipriano”, lembrou. Não dei cartaz à conversa daquela mulher, preferi ir conversar com dona Antonieta e verificar se algo dessa natureza lhe tomava o tino.

Já somava dez da manhã quando cheguei ao sítio nas cercanias do Paraú; logo divisei a casa de portão de varas de marmeleiro, chão batido, paredes de taipa. Um silêncio sepulcral tomava conta do ambiente. Alguns gatos se enrolavam com restos de cordão de rede, e sob uma cadeira de palhinha um porco com olhos grandes e avermelhados parecia esconder algo. Chamei pela velha durante alguns minutos. Nenhuma resposta. O animal impaciente e impávido encarou-me com certa intolerância. Não contive o susto, voltei para casa pensando na estória da velha Ursa e no porco que encontrei sentado na cadeira de balanço.


1 Comentário

Simara Sales on 1 de junho de 2010 at 8:07.

Li e gostei.

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