A NOVA DEPENDENCIA

Por O Santo Ofício | 29 maio, 2010

Por Alon Feuerwerker

Este ano o Brasil exigirá do exterior em torno de US$ 50 bilhões para fechar as contas. Como nossa balança comercial patina, o buraco será coberto por investimentos diretos. Em vez de estarmos pendurados em credores, agora precisamos desesperadamente de sócios

O artigo semanal do ex-ministro Delfim Netto na Folha de S. Paulo finalizava assim: “Deficits fiscais produzidos por políticas distributivas exageradas, aumentos cumulativos automáticos de despesas de custeio que sacrificam os investimentos públicos e câmbio valorizado são uma boa receita para transformar a alegria de curto prazo em tragédia grega no longo prazo”.

O recado está no duplo sentido do “grega”: a crise hoje é na Grécia (e outros da periferia europeia), mas teatro grego pode ser praticado em todo lugar. Inclusive aqui.

Este fim de governo Luiz Inácio Lula da Silva tem cacoetes do crepúsculo do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Para efeito político-eleitoral anda tudo maravilhosamente bem. Os problemas? Ficarão adormecidos até a posse do novo presidente (ou presidenta). Na campanha ninguém será espírito de porco, ou trouxa, de estragar o oba-oba.

O governo não tem interesse em refletir sobre se — e quanto — as aspas do texto de Delfim podem um dia vir pintadas de verde e amarelo. E a oposição não vai entrar nessa, pois seria atacada por Lula. Provavelmente com discursos dirigidos a quem, no mundo virtual que sua excelência construiu para si, “torce contra o Brasil”. Para ficar mais parecido ainda com FHC I, Lula II poderia, quem sabe?, usar doravante a expressão “fracassomaníacos”.

FHC semiocultou do país o estado real da economia quando lutava pela reeleição. E o governo do PT finge que está tudo ok para não atrapalhar a caminhada da ex-ministra Dilma Rousseff.

Há sim uma diferença essencial entre os dois cenários. Hoje o país tem reservas, que não havia na época. Não corremos o risco de quebrar e de precisar sair por aí atrás de dólares. Mas reservas não são tudo. Se o estoque delas é bom, o fluxo das contas externas vai mal. E quando o fluxo não ajuda, não há estoque que segure a onda indefinidamente. Numa família, empresa ou país.

Este ano, o Brasil demandará algo como US$ 50 bilhões de dinheiro de fora para fechar as contas. Como nossa balança comercial patina, o buraco será coberto por investimentos diretos. É uma nova modalidade de dependência: em vez de estarmos pendurados em credores, agora buscamos desesperadamente sócios.

Ser nosso sócio tem sido uma boa. A demanda anda forte e sempre existe a opção de fazer a festa no mercado financeiro, ou na bolsa.

Mas a situação traz também problemas. Inclusive num terreno caro ao presidente da República: nossa soberania. A China, por exemplo, tem condições de sustentar melhor que nós disputas com os Estados Unidos. Já o Brasil esbraveja nos fóruns internacionais e faz cara feia para Washington, mas depende de dinheiro americano para fechar as contas. Com todas as consequências.

No caso do Irã a Petrobras já pisa miudinho. E empresas brasileiras têm recusado pedidos iranianos de investimento. Empresas importantes.

Quando a autodeterminação deixa de ser só um princípio? Quando o país tem meios para praticá-la.

Código Florestal

O debate sobre as mudanças no Código Florestal segue aceso, uma queimada em plena Câmara dos Deputados. Mas além do calor ele poderá trazer também luz. Os deputados articulam convites para os presidenciáveis irem à comissão especial que cuida do tema.

Seria uma bela oportunidade para José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva ficarem expostos durante horas a todo tipo de pergunta sobre a pauta do desenvolvimento sustentável. Seria também uma demonstração de amadurecimento.

É difícil acontecer, mas não custa torcer para que aconteça.

Pressão
“Talvez não seja necessário, talvez eles mesmo entendam a necessidade de recuar.” Foi o que disse o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), quando perguntei se haverá intervenção no diretório estadual do Maranhão.

O PT nacional quer a aliança com a governadora Roseana Sarney (PMDB). O local decidiu pela coligação com Flávio Dino (PCdoB).

Se o PT achegar-se aos Sarney, será preciso observar se — e quanto — o PCdoB resistirá ao rolo compressor do Palácio do Planalto.


Deixe seu comentário

Seu email não será publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>