CASCUDO LUSÓFONO [1]
Por O Santo Ofício | 24 maio, 2010
Por Anna Maria Cascudo Barreto*
Cresci escutando os tons diferentes da língua portuguesa, falados por amigos do meu pai. Vindos dos cinco continentes que consideram seu o nosso idioma. Mas principalmente de Portugal e da África. Na época do Natal, íamos jantar com o Sr. Aníbal, avô da nossa Hilneth Correia. Português, casado com uma alemã, apresentava pratos cujos sabores estão gravados até hoje naquele relicário secreto de prazeres inesquecíveis. Recebemos e visitamos gente de toda parte, e os sons em vários sustenidos maiores ou menores ainda ecoam na memória. Quando aprendi a orar, a frase bíblica “No principio era o verbo” associei mentalmente, às orações que uma senhora portuguesa me ensinou, carregadas de vogais deliciosas…
Luís da Câmara Cascudo, considerado por vários estudiosos como o mais autenticamente brasileiro dos escritores, era também legitimo português, africano, ameríndio. Sua obra se derrama no mel da ternura quando se refere às nossas raízes.
Em artigo intitulado “Onde o português não pode ser estrangeiro”, em 1956, afirmava: “Deve o Brasil a Portugal não apenas o idioma, a consciência jurídica instintiva, a mecânica das soluções psicológicas, a quase totalidade das suas tradições, mitos, lendas, crendices, a base de sua culinária, o fidelismo cristão, mas, acima e antes de tudo, sua unidade moral. O sentimento comum e natural de constituir-se uma nação, na continuidade da função em todos os quadrantes do imenso território”.
Estudou o Brasil menino, afirmando, honesta e corajosamente, contra todos os ensinamentos da época, a intencionalidade do seu descobrimento. Quando fez concurso para professor do Ateneu norte-rio-grandense, em 1933, sua tese foi “A Intencionalidade do descobrimento do Brasil”. “Reimpressa em Funchal em 1937, com sucesso indiscutível, foi ampliada e publicada em “Dois Ensaios de História”, publicados pela Imprensa Universitária em 1965. Comprovada pelas viagens anteriores européias, ampliações lógicas do atlântico, cruzando águas meridionais, depois do traço da equinocial.
Os mapas que acompanhavam as mais modernas conferências do Almirante Gago Coutinho elucidaram esse ponto. O rumo era certo para as quilhas portuguesas. O encontro do monte Pascoal foi na tarde de 22 de abril de 1500, a sétima das horas canônicas. A primeira missa no domingo de Páscoa, 26 de abril, no ilhéu da Coroa Vermelha. Na segunda, sexta feira, primeiro de maio, missa cantada no continente e diante do cruzeiro, chantado nessa manhã, com a presença dos habitantes atônitos e curiosos, informa testemunha de vista, o escrivão Pero Vaz de Caminha.
Cascudo documenta os primeiros passos, a relação inicial entre os portugueses e os ameríndios, com tal riqueza de detalhes e carinho amoroso que somente uma vida de pesquisa e a emoção de um historiador e etnógrafo poderiam registrar. Através dos seus olhos verde-azulados, experimentamos a emoção do encontro entre povos tão diferentes que depois se fundiriam na mesma raça. Na “História da Alimentação do Brasil”, ele nos conta que na sexta, 24 de abril, à noitinha, dois tupiniquins foram levados à nau-capitania e recebidos com aparato.
O Capitão, Pedro Álvares Cabral, bem vestido, sentado numa cadeira, usava um colar de ouro, alcatifa por estrado nos pés, cercado pelos seus comandantes, que estavam no chão, pernas cruzadas à maneira turca. Tochas acesas, os visitantes reconheceram um papagaio pardo, a bordo, como familiar. Acenaram num gesto universal, unindo os dedos, significando a variedade daquela ave na sua terra. É verdade que os papagaios brasileiros eram coloridos, verde/amarelos, mas tão falantes quanto aquele cinzento que lhes apresentavam.
Não fizeram caso de um carneiro, o primeiro que viam. Espantaram-se com uma galinha – que depois os conquistaria como ave doméstica. Deram-lhe de comer pão e peixe cozido, confeitos, mel e figos passados. Provaram, mas logo lançavam fora os quitutes desconhecidos. A primeira prova do vinho de Portugal não foi positiva naquela noite. Desconfiados com a própria água, mal lhe puseram a boca. Pão de trigo, vinho de uvas, massa d`ovos, os condimentos do peixe cozido, eram revelações. Na tarde de 25 de abril os amerabas vêem uma grande rede de arrasto, tradicional na pesca marítima portuguesa.
E os descobridores viram à primeira piperi, igapeba, batizada depois como jangada ou almadia. “Visitaram os portugueses uma maloca, a primeira oca brasiliense,” tão comprida como a nau capitania e dentro muitos esteios e de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. “Debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos.” Batismo da ini e quisarias com o nome lusitano de rede, cama tropical que se espalharia pelo mundo.
Mas não se limitou a matéria tão fascinante. Luís da Câmara Cascudo foi um mago, decifrando temperos do caldeirão de influências luso-brasileiras, acrescentando uma forte pitada africana, tudo reunido com colher ameríndia. Em “Viajando o Sertão”, Cascudo narra sua excursão ao interior da província, que o interventor Mario Câmara, em 1934, leva em sua companhia técnicos em educação, agricultura e açudagem, além de um escritor de renome, capaz de ver com olhos voltados para o futuro os problemas artísticos e culturais do estado do Rio Grande do Norte. Cascudo era chefe provincial do integralismo, na época sinônimo de brasilidade.
Não engajado na política partidária, professor e diretor do Ateneu norte-rio-grandense. No Capítulo intitulado “Classicismo Sertanejo”, o etnógrafo aponta a prosódia, construção gramatical e vocabulário do homem do sertão como o português do século XVI, da era do descobrimento. O escritor lamenta a ausência de um filólogo, pela oportunidade de ouvir como falavam Luís de Camões e Gil Vicente. Estou (como sinônimo de pensar), ventura, home, calidade, desagardecido, eraro, dixe, alevantar, arreceio, treição, filosomia, usados pelos sertanejos, eram palavras camonianas.
No “Cancioneiro” de Garcia Resende, vemos estruir, alifante, camalião, arreceando, entrementes. Sá de Miranda, puro vate do vernáculo, escrevia alumeia, tromento, demudado, home. Em Bernadim Ribeiro, anotamos os mesmos termos que o sertanejo emprega. Entonces, assossegou, empacho, despois, pólos, pulos, inté, foram escritos pelo poeta pastoril.
O sertanejo teima em pronunciar Anrique por Henrique. Assim se assinava o Cardeal Rei Anrique, quinhentista. O poeta Antonio Ferreira (1528-1569) utilizava vocabulário idêntico ao do nosso sertanejo. Trouve (do verbo trazer) reposta, mezinha, pide, minino, piqueno, supito, malenconia, esconado, espritasse, estamago, o cujo, o gorpe, parança. Em Gil Vicente, a negativa posposta que julgamos modismo peculiar ao sertão: Senhor Não! O Dicionário de Morais registra “graça” como sinônimo de nome. Até hoje – em 2010 –ouvimos o conservador “qual é sua graça?”
O sertanejo – e muitos políticos atuais – não conhecem o plural. Centenas de arcaísmos são empregados vivamente em nosso dialetar. Sabemos o número apenas pelo determinativo: o boi, os boi, a vaca, as vacas, dois boi, meus boi, seus boi, etc. No século XIII e principio do século XIV não havia feminino para senhor. Dizia-se meu senhor e minha senhor. No famoso cancioneiro Del Rey Dom Dinis (1261- 1325) o Rei Trovador cantava: “Quant` eu, fremosa minha senhor”! Mas na opinião do escritor potiguar, foi influência do tupi.
No nheêngatu não havia plural. Socorria-se o indígena de adjetivos como etá (muitos) ou cuera (multiplicado) repetindo o substantivo. Paca etá, ( as pacas), itacuera (as pedras), pira-pira, peixe-peixe, os peixes. A assimilação foi não somente sua permanência nos sertões ao lado dos grandes sesmeiros ou criadores, ou ainda acompanhando as bandeiras. Não podemos esquecer a multidão de vocábulos que herdamos dos primeiros senhores das terras. O índio cativo das guerras, obrigado aos trabalhos agrícolas ou simplesmente assoldadado para as campanhas guerreiras, influenciou a fala português-tupi com seus modismos, peculiaridades e exotismos gramaticais. O caso da ausência de plural seria uma parte deste patrimônio verbal que ainda vive…
*Escritora, Acadêmica.
Conferência proferida no Teatro Alberto Maranhão,no dia 28 de abril de 2010, na abertura do FELP, Primeiro Encontro de Escritores da Língua Portuguesa de Natal, promoção da Fundação Cultural Capitania das Artes, Prefeitura do Natal, Universidade Potiguar, UFRN, União das cidades capitais de língua portuguesa, e TAP Portugal.




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