CASCUDO LUSÓFONO [2]
Por O Santo Ofício | 24 maio, 2010
Por Anna Maria Cascudo Barreto*
Luís Chaves, especialista português em folclore, museólogo, escreve: “Estudar Cascudo é praticamente mergulhar nas raízes da humanidade”. E Augusto Guilherme Mesquitela Lima, etnógrafo e professor, acrescenta ser o escritor potiguar aquele que melhor projetou o espírito do pesquisador, garimpando com técnica cientifica o mundo português, comparativamente ao africano e ao brasileiro.
Gastão de Bittencourt, um dos mestres da música socializada e popular, critico famoso, acredita ser devedor eterno do folclorista brasileiro, pela aproximação legitima, material em livros e poderosa em simpatia e fervor intelectual.
Fundador da Sociedade Brasileira de Folclore, numa época de certo preconceito com o popular, confundido com vadiagem, Câmara Cascudo foi além da amizade sincera e troca de documentos com os folcloristas portugueses, mas, associando-se ao Dr. Tavares de Almeida, no semanário “Ação”, espalhou uma nuvem benfazeja de trabalho, confrontando a literatura oral do Brasil com os estudiosos de poética sertaneja e litorânea, costumes, superstições, mitos, lendas, contos locais, vocabulário típico, tradições portuguesas.
Notas sobre alimentação, morada, indumentária, autos, cantos, músicas, bailados populares, rondas, brinquedos infantis, foram reunidos aos dos brasileiros, estabelecendo-se relações diretas afetuosas de comunicabilidade cientifica, segundo Augusto Cesar Pires de Lima, etnógrafo, um dos maiores conhecedores das tradições e adivinhas do Porto.
O escritor de Funchal, Ilha da Madeira, Carlos Maria dos Santos, redator do “Jornal”, considerou ter sido a década de ouro para as relações Brasil/Portugal , companheiros de atividade e finalidade cientifica o conhecimento e amizade com Luís da Câmara Cascudo. Joaquim Lelis Pais Vilas Boas (cerâmica tradicional), Otaviano Sá (versos populares, tradições estudantinas de Coimbra) Jaime Lopes Dias, etnógrafo do Porto, Vitor Santos, folclorista de Alentejo, José Pombinho Júnior, estudioso das danças populares alentejanas de Portel; Conde de Aurora, mestre de tradições do Porto, foram nomes constantes na biblioteca e na correspondência do meu pai. É válido citar outros confreiros queridos como Fernando Augusto de Barros Russel Cortez, Armando Lessa, Fernando de Castro Pires de Lima (cancioneiros do Minho): A.C. da Rocha Madahil, (Coimbra), Mario Sampaio Ribeiro (Lisboa), Emanuel Ribeiro (Porto) Alberto Souto (Aveiro) Mario Lyster Franco (Faro) Alberto Vieira Braga (Guimarães) Armando de Matos (Gaia), Sebastião Pessanha (Sintra) Francisco Lage (Lisboa) Eugenio Amorim (Arcos-de-Val-de-Vez) Claudio Basto (Lisboa), Pedro Monteiro Cardoso (Cabo Verde) A. Lima Carneiro (Caldas da Saúde) figuras que povoaram minha infância e juventude, em referências paternas ou visitas pessoais na nossa casa, na antiga Junqueira Aires, 377, hoje Avenida Câmara Cascudo . Personagens que se irmanavam antenas sensíveis recebendo as auras sonoras e tradicionais do Brasil por intermédio do radialista cultural Cascudo.
Toda quinzena entregava ao meu pai polpudo envelope, com as listras proverbiais das cores portuguesas. A guisa de destinatário, uma excelente caricatura de Cascudo. O endereço? Somente Brasil, sem titular município, cidade, estado. Obra do pintor português, Albano Neves e Souza, que residia na África. Nunca se extraviou uma missiva de tal originalidade, que sempre o deixava imensamente alegre, pois laços de extraordinário afeto o ligavam ao genial artista. Duas telas da sua autoria enfeitam até hoje as paredes do Instituto Câmara Cascudo, Ludovicus, e mantemos correspondência com a sua viúva.
No livro “O Colecionador de Crepúsculos”, da Editora Global, São Paulo, 2003, foto biografia de Luís da Câmara Cascudo de autoria da filha e confidente, publico o Painel da EXPO-98, Lisboa, Portugal. Foi Cascudo o único escritor sul-americano homenageado. A frase escolhida era encimada com uma imagem da Virgem Maria.
Eis o texto que emocionou o mundo da época, traduzido em várias línguas: “A devoção mais profunda e popular no Brasil é dedicada a Nossa Senhora, cuja invocação implica o possessivo no singular porque o plural daria a função maternal genérica, e o fiel pretende o direito privativo da unidade afetuosa. Daí, Minha Nossa Senhora!”. Assinatura: Luís da Câmara Cascudo.
O Professor Francisco Fernandes Marinho, da UFRN e Instituto Histórico e Geográfico, no seu volume “Câmara Cascudo em Portugal”, faz um levantamento documental da viagem do meu pai em 1947, membro da Comissão Organizadora do Primeiro Congresso Luso-Brasileiro de Folclore, como um dos chanceleres sul americanos.
Autor da idéia, Cascudo viajou no navio Santa Cruz e demorou quatro meses em Portugal. Foi a primeira das suas inúmeras idas ao país dos nossos antepassados. No Ensaio de Abertura do citado livro de pesquisa, afirmo que minha relação com Portugal é um misto de cumplicidade e lembranças. Quanto a Portugal & Cascudo, amor, simbiose, amalgama. Professor Marinho se impressionou com a repercussão, na mídia e com os estudiosos, da presença Cascudiana. O número de livros, escritos pelo meu pai em Portugal e Espanha, alguns até hoje inéditos, o deixou boquiaberto e orgulhoso.
Em Artigo intitulado “Brasileirismos… de Portugal”, editado no Diário de Natal, quatro de março de 1949 escreve Cascudo: “Andei rodando Portugal de Valença de Minho até o Algarves. Rodando com os olhos e ouvidos alertados. Ia para estudar e não passear, qual turista irresponsável e rico. Sabia das dificuldades vencidas e da remota possibilidade de um retorno a Europa. Era obrigado a ver e ouvir como devia.
Não me arrependo dos cuidados que punha na observação menor. Conversando com o povo nas feiras, arraiadas, festadas, trabalho rural ia ouvindo vocábulos que pensava originários do Brasil ou propriedade do brasileiro do interior. Palavras e frases, imagens descritivas ou comparativas surgiam com surpreendente igualdade às do meu país.Igualdade e, muitíssimas vezes, identidade.”
E Cascudo retirava da algibeira preciosa da sua memória privilegiada, cristais preciosos de vibrações seletivas, reunindo fatos e frases percebidas pelo olhar de um sábio. Conexões até os dias atuais repetidas na imprensa, sem citar o autor. Frases sobreviventes da ótica de um professor provinciano que amava sua terra e estudava a magia dos seus antecessores.
No livro de Marinho, comentamos a amizade que unia Câmara Cascudo ao Professor Frederico Guilherme Gavazzo Pery Vidal. Os dois se correspondiam desde abril de 1933, e se encontraram no aeroporto de Lisboa. Algo estelar… Seu filho, Frederico Perry Vidal, nascido em Lisboa, considerado uma das maiores autoridades no que se refere à cultura luso-brasileira, fundador do Centro de Estudos Portugueses da UFSP e do Centro de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na USP, manifestou-se encantado com o Colecionador de Crepúsculos. Infelizmente perdemos o contato. Resta-me a esperança de conhecê-lo pessoalmente, já que somos de outra geração de amizade.
A África, na obra cascudiana, resultante da sua presença e pesquisas in loco, testemunhando e visitando 20.000 km do continente africano, foi à abertura para livros monumentais, como Historia da Alimentação no Brasil, subdividida em cozinha ameríndia, cozinha branca e cozinha negra, além do famoso “Made In África”.
Prefaciado por Edison Carneiro, comenta os profundos estudos, discutindo vocábulos, usos e costumes, animais e plantas, crenças e bailes, que o escritor potiguar fez com dedicação, usando linguagem essencialmente jornalística. Figuras emblemáticas fizeram a viagem do Brasil para a África, como a banana, o papagaio colorido, o búzio, o ananás, a rede; e da África para o Brasil, o cafuné, a umbigada, a farofa, o rebolado do andar das brasileiras, a rainha Jinga das congadas, a sereia kianda de Angola.
São elos que unem a fraternidade de sangue e de cultura que liga, por cima do Atlântico, brasileiros e africanos. Quantas vezes aprendi com meu pai os pontos da Umbanda; me encantei com o simbolismo dos pejis, provei comidas e bebidas dos santos; joguei flores à beira mar. Constrangida e até revoltada, assisti a soltura dos babalorixás, mães-de-santo e brincantes, presos por pretensa vadiagem. Dizia Cascudo: “No meu tempo era pecado mortal dançar forró, entoar cânticos. Enfim, o popular, o tradicional, o cotidiano, o comum. Tudo era muito formal. Foi difícil conseguir a valorização dos costumes do povo”. Imaginem o quanto lutou e foi incompreendido por estar muito à frente do seu tempo…
Termino repetindo um verso do cordel de Oliveira de Panelas, intitulado “O Gênio Câmara Cascudo, um Homem Chamado Brasil:
“Na sua cosmovisão
Elevou-se um grande estudo,
Cabral descobre o Brasil,
Brasil descobre Cascudo.
A fonte da informação,
De um homem que sabe “tudo.”
*Escritora, Acadêmica
Conferência proferida no Teatro Alberto Maranhão,no dia 28 de abril de 2010, na abertura do FELP, Primeiro Encontro de Escritores da Língua Portuguesa de Natal, promoção da Fundação Cultural Capitania das Artes, Prefeitura do Natal, Universidade Potiguar, UFRN, União das cidades capitais de língua portuguesa, e TAP Portugal.




5 Comentários
misherlany on 24 de maio de 2010 at 17:39.
Muito importante essa contribuição da Anna Maria Cascudo sobre o pai – Cascudo. Apesar de sempre estarmos perto da cultura potiguar, inclusive de estudos e pesquisas sobre o gênio Câmara Cascudo, sempre haverá por se dizer da grandeza e do conhecimento universal de Luis da Câmara Cascudo. Um sábio, na verdadeira acepção do termo.
M. Gouthier
Sena (Pedro) on 24 de maio de 2010 at 20:21.
Tambem acho. Este Blog é o que há de bom por aqui.
Santiago Vieira- Lisboa on 25 de maio de 2010 at 7:33.
Uma grande contribuição da preclara Sra. Anna Maria à cultura e aos estudos cascudianos.
Valeriano on 25 de maio de 2010 at 12:44.
Admirável!
Lidiane Arruda on 25 de maio de 2010 at 17:07.
Parabens, Anna Maria!