ESPERANÇA E CONTAMINAÇÃO

Por O Santo Ofício | 5 maio, 2010

Por Alon Feuerwerker,
do Blog do Alon

A Justiça deve cuidar de garantir uma eleição sem golpes baixos ou abuso de poder -político ou econômico. Mas isso não se confunde com eleição desidratada, homogeneizada, artificialmente adocicada

Dias atrás escrevi que o Brasil deve a Luiz Inácio Lula da Silva a antecipação da campanha eleitoral. A necessidade de estabelecer prematuramente uma hegemonia clara no seu próprio campo acelerou o relógio biológico do presidente. E ele colheu o prêmio desejado, Dilma Rousseff será a única opção oficial do governismo.

Mas a limonada não veio tão doce quanto o PT previa. O impulso de Lula não parece ter sido suficiente para fazer Dilma ultrapassar José Serra. Houve pesquisas a apontar empate técnico, ou quase, mas convém olhar mais algumas, pela prudência.

E junto com a limonada veio o limão. Como Lula e Dilma estão na estrada há mais dois anos, quando a oposição entrou no ringue carregava a faca nos dentes. Nas eleições anteriores, entre a desincompatibilização e a convenção dominavam a modorra e a politicagem. Agora não, é a política quem dá as cartas.

Devem ser meses fantásticos, quando tudo -ou quase- poderá ser debatido e discutido, com grau de liberdade bem maior, se comparado ao da campanha oficial. Não à toa os “pré-candidatos” são diariamente pressionados por perguntas sobre os grandes problemas nacionais. E Lula tinha razão: o perfil dos principais corredores faz pressentir a possibilidade de uma campanha programática.

É preciso agora que o Tribunal Superior Eleitoral não impeça a contaminação benigna da campanha pela “pré-campanha”. Não fará sentido tentar tampar a partir de junho o caldeirão fervente. Dentro das regras, será adequado o TSE deixar o barco correr.

Na internet, aliás, o próprio Congresso Nacional -pelas mãos do relator e deputado Flávio Dino (PCdoB-MA)- e o presidente da República -com vetos providenciais- cuidaram de garantir o ambiente propício à liberdade.

A Justiça deve cuidar de evitar os golpes baixos e o abuso de poder -político ou econômico. Mas isso não se confunde com eleição desidratada, homogeneizada, artificialmente adocicada.

O leitor deve desculpar esta minha quase euforia, veterano que sou de cobrir e/ou acompanhar as eleições presidenciais desde 1989. E aposto, pela primeira vez, que há possíbilidade real de uma disputa não totalmente enredada em factoides, em acenos vazios, em generalidades primitivas.

Espero sinceramente não estar errado.

Sem ritmo

É inafastável a sensação de que, tendo começado a aquecer sua campanha com enorme antecedência, o PT simplesmente não se preparou de maneira adequada para o momento em que ela começaria, de fato.

A razão? Só eles mesmos podem explicar.

Tudo tem limite

Pergunte a alguém escolhido aleatoriamente na rua o que entende por “tripé macroeconômico que garante a estabilidade monetária”. A chance de o sujeito (ou sujeita) responder corretamente deve ser a mesma de ganhar numa loteria.

Em seguida, pergunte se sabe o que é a taxa de juros, e pergunte se acha que os juros no Brasil estão altos ou baixos. Provavelmente dará uma resposta perto de correta à primeira questão, e é 100% garantido que a segunda resposta virá certa.

Quem defende a continuidade perene do tripé, das metas de inflação com câmbio flutuante (ainda que no nosso caso deva-se intercalar o “supostamente”) e controle fiscal, precisa urgentemente buscar um caminho para os juros descerem a níveis civilizados.

Todos os juros, da Selic até o cheque especial. Pois é razoável supor que se, um dia, o país precisar descartar o modelo acadêmico em troca de as pessoas poderem tomar dinheiro emprestado a um preço normal, vai fazê-lo sem pensar duas vezes.

Achar que o próximo presidente (ou presidenta) cometerá haraquiri político para fazer um ajuste que permita ao eleito em 2014 governar como Lula governou, na bonança, é acreditar em história da carochinha.


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