UMA ANTOLOGIA EXEMPLAR
Por O Santo Ofício | 25 abril, 2010
Por Cléber Pacheco,
Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira em Porto Alegre
A antologia “Ficções Fricções Africções” [Editora Mares do Sul-CEJEN, Florianópolis, 1999] revela um autor mancomunado com o humano em todas as suas manifestações. Da criança ao velho, do pilantra ao intelectual, da mais simples criatura ao mais complexo artista, todos são submetidos às poderosas lentes desse que é “um grande entrevistador de almas”, na opinião do critico Antonio Carlos Villaça [in “Franklin Jorge e sua viagem”, Rio de Janeiro, 1983].
Todos merecem a atenção de Franklin Jorge. Em sua cidadela literária, erigida com paciência e exigência, habita uma diversidade de criaturas e mesmo as mais sórdidas, como Rato Encardido, têm o seu lugar ao sol na obra desse surpreendente escritor norte-rio-grandense que enobrece o “Prêmio de Literatura Luis da Câmara Cascudo” da Prefeitura de Natal.
Franklin não tem as fragilidades da condescendência nem o distanciamento irônico do dissecador. Artífice exigente é de fato um artista da palavra. Distingue-se, como escritor, sem ceder aos cacoetes da prosa atual. Municiado de “muitíssimas leituras”, o autor de “Ficções…” parece dizer-nos que em qualquer circunstância essa humanidade se faz digna do nosso olhar e da nossa compaixão.
Num texto delicioso sobre um filósofo, extraído de “Ensaios Mínimos” [livro inédito], Montaigne não é escolhido ao acaso. Tudo, nesse paradigma de “antologia arbitrária” proposta por Jorge Luis Borges, produz aqui os melhores efeitos estilísticos. Observando o mundo e seu entorno, [o que inclui homens, animais, natureza, costumes, relações interpessoais etc], de “modo informal”, longe de ser sistemático ou dogmático como costumam ser os charlatães e alguns de seus pares, Montaigne [como o próprio Franklin] presta atenção a tudo.
De maneira sucinta, Franklin o apresenta: “Seu oficio consiste em viver bem a circunstância”. Sua evidente simpatia pelo autor de “Ensaios” não é aleatória. Ambos se encontram no olhar abrangente sobre o que existe. Qualquer manifestação de vida, sabe Montaigne e sabe o nosso Franklin, exige o deter-se, a reflexão, a ponderação, a paciência, o estudo que a leitura proporciona. “Suspender o juízo” a respeito de seres e coisas seria um modo montaigneano de ponderar sobre a realidade. É o que nos diz em sua cabala estética o escritor do Ceará-Mirim. Um xamã das letras capaz de produzir textos como iscas que enfeitiçam e fisgam o leitor.
Alek, um menino em sua relação com o mundo natural, descrito com poesia e vivacidade, em pinceladas impressionistas, desperta quem o lê para o claro enigma que dimensiona a infância numa prosa minimalista que contém o tremor da carne ardente, um certo sensualismo difuso, o rumor do vento nos bosques natais, a terra milenária, tudo isso num texto enleado de leituras que expõem o autor no exercício pleno de uma técnica e de uma expressão não intuitiva, conquistada pelo melhor critico, o autor que lê as entrelinhas.
Nesse livro mágico que nos chega de Natal há lugar também para os esquecidos da sorte ou dos outros homens, como Palmira Wanderley em sua última agonia. Num contexto onde ainda é possível encontrar a bondade e a lenda, o olhar demandado do autor perscruta “enquanto há luz”, captando a continuidade no efêmero ao escrever a exegese dos lugarejos e das aldeias remotas, ricas de figuras e crônicas condenadas ao olvido.
O Tempo, nessa prosa fluida e densa, marca o afogamento ou a ressurreição da memória, compõe e desfaz o segredo dos nomes através de uma oralidade e de uma sintaxe cativantes, despertando a curiosidade do leitor para os que viveram no ostracismo, como parece viver Franklin Jorge em sua terra. Em “Ficções…” o povo é o que nos encanta e mostra que tem algo a dizer.
Não há no texto de Franklin Jorge lugar para o simplório, o lugar comum, o previsível e as fórmulas requentadas da indústria cultural. Ouvir esse autor, oriundo do Nordeste, rende frutos e sabenças, assegura-nos cada um de seus fragmentos compostos sob a égide de Baudelaire [“os livros nascem dos livros”]. Conhecê-lo, um aprendizado. Descobri-lo, um deleite permanente.
Seu livro é uma provocação. Aguça a cada página o apetite pelo universo ficcional desse autor que é [repita-se] um mestre da palavra. Lendo-o, queremos saber mais sobre toda essa gente curiosa e viva, reunida numa teia de relatos nômades que nos dá vontade de ir mais além no conhecimento dessa escritura nova através da qual o seu autor celebra, de sua ilha potiguar, o surgimento da literatura.
Em síntese, cabem aqui as palavras do filósofo [que apenas pensava em seu castelo]: “Este mundo tão grande que alguns ampliam ainda como as espécies de um gênero, é o espelho em que devemos mirar para nos conhecermos de maneira exata”.




Viva voz