RAIBRITO, O PESQUISADOR INCANSÁVEL
Por O Santo Ofício | 23 abril, 2010
Por Misherlany Gouthier
Raimundo Soares de Brito comemora hoje 90 anos
“Há pessoas que nascem para semear e contribuir para o bem público ou tão somente para a humanidade. Sem dúvida Raimundo Soares de Brito é uma dessas pessoas, comprometidas com a verdade dos fatos e concentrado no estudo da História.
Com esta visão construiu, ao longo dos seus 85 anos de existência, um arquivo vasto em assuntos e riquíssimo em documentos e informações, com o interesse único de servir a estudantes, pesquisadores, escritores, veículos de comunicação (jornais, revistas e rádios).”
Nascido em Caraúbas, à rua Bevenuto Simões, “num antigo sobradinho que não existe mais”, nasceu com a mania de juntar papéis”.
Na infância, sempre esteve cercado pela leitura. Sua mãe Raimunda Saúl da Costa ensinou-lhe as primeiras letras, na cartilha de ABC. No Grupo Escolar “Antônio Carlos” travou intensa amizade com as letras… Seu Pai, José Soares de Brito, comprava jornais usados para embrulhar mercadoria, pois, era bodegueiro. À noite, o pequeno Raimundo, sob a luz da lamparina, passava horas e horas a fio lendo aqueles jornais… Escutava seu pai dizer: – Vá dormir menino. Apague a luz!
No ano de 40, aos 20 anos, contraiu matrimônio com sua conterrânea de infância, Dinoráh de Oliveira Brito, podendo-se dizer que “foi amor à primeira vista”, união que duraria 64 anos, juntos, todos os dias…
Em 1942 foi nomeado para ocupar o cargo de Agente Municipal de Estatística, na sua cidade natal – Caraúbas, em cuja função iniciou suas atividades de pesquisador. Data dessa época o primeiro contato com a pesquisa.
Autodidata. No início da vida foi comerciário e comerciante em Caraúbas, Natal, Fortaleza e Mossoró, mas descobriu que “comércio e literatura não casavam bem” e resolveu alçar novos vôos…
Mas não nos cabe biografar a vida (profundamente) do homem, do cidadão, comerciante, do amigo e intelectual (palavra que não casa com ele, afirma) Raimundo Soares de Brito, Raibrito para os mais íntimos; e sim, falar da sua condição de pesquisador, do seu trabalho desenvolvido ao longo de 65 anos, sobretudo da forma e do esmero com que realiza essa tarefa.
Desde cedo enveredou pelos caminhos da História. Primeiro começou em Caraúbas, cidade da zona Oeste, quando escreveu e publicou a revista “Caraúbas Centenária”. A obra que relata os aspectos geográficos, estatísticos e sócio cultural daquela cidade, foi publicada para comemorar o centenário da Paróquia, ocorrido em 1959. Desde então, nunca mais parou de “juntar papel velho”, recortes de jornais, revistas, anotações de cunho genealógico, etc.
A vida de Raibrito é a própria História; ora ele é a pesquisa, o alvo; ora o pesquisador meticuloso, detalhista, minucioso, preciso, daí porque é considerado perfeccionista, “um incorrigível pesquisador, que graças a persistência, ao zelo e a seriedade com que executa o seu mister, transforma-o num verdadeiro arquivo sobre gentes, coisas e fatos do passado, que interessa à vida do presente e podem esclarecer caminhos do futuro”. A idéia é presente; o espírito é imortal; nem houve um antes que não existisse, nem haverá um agora que seja, senão que é absolutamente agora.
Nunca historiador. Pesquisador sempre. Enquanto o historiador tem a responsabilidade de contar o fato tal qual aconteceu, o pesquisador tem a função de perquirir, pesquisar, anotar, diferenciar. Daí a diferença entre as duas atividades. A responsabilidade da primeira e maior que a segunda. Porém, uma não tira o mérito da outra.
A pesquisa, para Raibrito, sempre foi um desafio. Andou por Seca e Meca, como ele mesmo costuma dizer, mas por onde esteve plantou a semente do saber.
Distanciado de sua terra, nunca esqueceu suas raízes, se mantém, todavia informado de tudo que acontece, procura registrar através de anotações acontecimentos ligados à história da região. “Se não tivesse tido o cuidado de passar tudo isso para estes papéis velhos”, estaria, literalmente, perdido. Isso é uma doença que entra no sangue e não sai…, conta.
A partir de 1970 é quem começou, de fato, a organizar o seu acervo, dividido por temas, assim como fez o seu conterrâneo, o Desembargador Sinval Fernandes.
De tudo podemos encontrar no aquivo implacável de Raibrito, como diria João Condé. História, literatura, genealogia, numismática, biografia são alguns dos temas que compõem a honrosa hemeroteca do caraubense de Mossoró. Sua contribuição tem sido uma das mais significativas para a história da literatura do Rio Grande do Norte, do Brasil, e quiçá, do mundo, quando estudiosos que moram no exterior procura-o para fornecer dados.
Um dos assuntos que mais prende o pesquisador refere-se às Biografias. Já somam mais de 15 mil fichas, como ele classifica. Todo o material de catalogação, arquivamento e acondicionamento é de inteira responsabilidade de Raibrito, desde a sua confecção (artesanal) até o modo com que classifica cada biografado. O único critério para se constar no arquivo do pesquisador é que a personalidade faça parte da história citadina. Seja intelectual, vulto nacional ou tipo popular, político, engraxate; toda e qualquer pessoa que tenha laços com a nossa História. As informações, o conteúdo do seu arquivo “é selecionado pelo valor cultural que possui”.
Na historiografia brasileira predomina a busca pelo fato pessoal, a ação pessoal e seus efeitos positivos ou negativos, “na tentativa de descobrir os motivos que levaram a personagens a tomar suas decisões”, daí deduzir que o pesquisador curioso e experimentado tende a construir uma obra completa, com o máximo de informações a respeito do biografado. Vê-se, nesse detalhe imprescindível, um motivo a mais, explícito, no seu apego às biografias que compõem seu arquivo.
Acorda às 5 da manhã. Não descansa após o almoço; vai para a sala de pesquisa chamada de “Casulo”, na expressão do seu genro, Leovegildo Figueiredo Neto. Dorme às 21:00 horas, e às vezes estende se expediente até às 4 da matina. “Se me tirarem desta minha terapia ocupacional eu morro”, declara.
Através de suas pesquisas empreendidas durante esses anos todos, desde o início com a publicação de Caraúbas Centenária, incentivado pelo professor Vingt-un Rosado, Editor e Patrono da Coleção Mossoroense, deu continuidade ao trabalho de pesquisa e publicação de obras, todas versando sobre história regional. Seu arquivo que já ocupa quase todos os cômodos de sua residência, ao contrário de Otto Guerra (que até na cozinha da casa tinha livros), tem facilitado a vida de curiosos e estudiosos do mundo inteiro.
Considera-se um curioso. Enquanto está conversando com alguém, está pesquisando…
Antes mesmo e, anos após sofrer um AVC (Acidente Vascular Cerebral), o professor Raimundo Soares de Brito manteve um hábito invejável: escrever à noite varando as madrugas, como afirmou o sobrinho Antônio Marcos de Oliveira, em trabalho de sua autoria. Muitas vezes, a companheira Dinoráh (de saudosa memória), ao levantar-se para fazer o café do ‘Guardião da Cultura Mossoroense’, era surpreendida, vendo-o, já cedo (nem sequer tinha dormido direito) sentado à mesa de trabalho.
Suas pesquisas são sempre coloridas com depoimentos, e diz: – Quando alguém elogia demais – é puxa-saco; quando não elogia – despeitado. Então procura transcrever o que disseram sobre o biografado. Assim, não corro risco de mentir…
Como é fundamental e existência de um Banco de Dados! Vejam a dimensão da importância do arquivo de Raimundo Soares de Brito, porque que ele nos orienta sem sequer cobrar um centavo e, faz isso com prazer, porque tem no sangue a garra e a dedicação dos velhos homens de boa estirpe.
O seu rico arquivo pode ser comparado ao do jornalista João Condé. Certa vez disse Drummond a respeito do arquivo de Condé: “Se um dia eu rasgasse os meus versos, por desencanto ou nojo da poesia, não estaria certo da sua extinção: restariam os Arquivos implacáveis de João Condé”. O mesmo poderíamos dizer em relação a Raibrito.
A pesquisa tem sido o ponto forte do caraubense feito mossoroense e natalense, títulos concedidos pelas Câmaras dessas cidades; sem ajuda de qualquer entidade, universidades, governos organizou um dos maiores acervo do Estado, lembrava Vingt-un Rosado.
Como pesquisador, sua linha estilística está ligada a diversos nomes da historiografia brasileira. Parece-me que de tanto estudar os nomes da nossa História, incorporou-os à sua personalidade, dessa forma, mesmo que abraçando um critério seu, Raibrito tem nos legado muito de seu trabalho, demonstrando suas habilidades no cuidado em reparar as informações, atencioso com os lapsos, maneiroso nas expressões que caracterizam os personagens das suas estantes opacas, ornamentadas com pseudonomes de toda espécie.
A pesquisa é uma operação complexa. Ela não se divide, como fazia crer a frase de Taine “d’abord la collection des faits aprés, la recherche des causes”, tão criticada por Croce. Não se trata de atos descontínuos, mas simultâneos; na história os fatos não acontecem isoladamente, sem causas, sem precedentes, o ambiente está sempre ligado ao homem e este às causas. Cabe ao pesquisador desvendar certas co-relações, analisar as causas e os efeitos e coligir dados, que possam esclarecer dúvidas que perduram nas mentes de muitos curiosos e estudiosos.
À exemplo de muitos pesquisadores brasileiros, podemos dizer quer o trabalho que Raimundo de Brito desenvolve assemelha-se aos grandes estudiosos da nossa História. Varnhagem, Melo Morais, Meneses Vasconcelos de Drummond (com esse, sua semelhança é quanto a falta de tempo que teve no início da obra, em colecionar, classificar, arquivar e acondicionar, pois o emprego da repartição pública, durante muito tempo, nunca lhe permitiu ter o tempo necessário para que se empregasse na sua obra “catequética”).
Falo do seu método de pesquisa, cujas características tem a ver com alguns desses ilustres nomes. Assim como Adolfo de Vanhargen, Raimundo Soares de Brito impregnado pelo “germe” da pesquisa aproveitou sua inteligência e capacidade de perquirir para edificar sua obra Assim como Vanhargem que se tornara um pesquisador por iniciativa própria, Raimundo de Brito teve esta mesma decisão; sempre reunindo e colecionando tudo sobre História, principalmente história regional (seu forte). Dessa maneira ele tem “abastecido” muitos estudiosos na região, especialmente. Na História, com especialidade, quanto mais se pesquisa, mais se tem a dizer…
Várias foram as tentativas de catalogar e classificar o seu acervo, pois, como já dissemos, durante muito tempo só se ocupou em “amontoar”, mas, já faz algum tempo, tem se dedicado, ultimamente, a esse ofício, pois, como disse, “Agora chegou a hora de arrumar as malas, porque já estou partindo. Quero deixar a casa arrumada”.
Noutra oportunidade, numa carta ao historiador Vingt-Un Rosado, comparei Raimundo Soares de Brito a outro mestre: Luís da Câmara Cascudo faltou acrescentar o nome do Mecenas da Cultura de Mossoró, o terno “medonho” 21 Rosado, pois, formam a hegemonia do País de Mossoró, não esquecendo, em momento algum, a contribuição irreparável do grande mestre da história regional: Raimundo Nonato da Silva.
Toda sua pesquisa, realizada ao longo de 65 anos, preparava a sua obra monumental, que, agora, transforma-se na Biblioteca Virtual Prof. Raimundo Soares de Brito, projeto patrocinado pela Petrobrás, viabilizado em parceria com o governo do Estado, Lei Câmara Cascudo e o Instituto Cultural do Oeste Potiguar – ICOP.
Mas, há algum tempo a Biblioteca Virtual está desativada, pois Petrobras e UERN se comprometeram de levar o projeto adiante e até agora não foi dado nenhum passo para que isso pudesse vir à luz!
A História Geral é o resultado da mais completa e positiva colheita documental empreendida, pois é como deve ser considerado o patrimônio de Raimundo Soares de Brito. Que a sociedade norte-rio-grandense reconheça o seu empenho em prol do desenvolvimento cultural do país, pelo “seu esforço, a capacidade de trabalho, o zelo e a competência com que se dedicou à obra” magnífica e impressionante.
Raibrito agora está em Natal, morando; e o arquivo? E as valiosas informações, e a Biblioteca como ficará? Terá sido este um projeto “bolhas de sabão”? E a prefeitura não faz nada para resgatar o trabalhador braçal da cultura, ainda vivo, nos seus 90 anos de existência? Onde está as instituições, os políticos, as autarquias que não investem no arquivo “escandaloso”do implacável Raimundo Soares de Brito? Resta-nos lamentar o rumo que tomou o ousado projeto “Biblioteca Virtual Prof. Raimundo Soares de Brito”!
Raimundo Soares de Brito faz hoje, 23 de abril de 2010, da graça do nosso Senhor Jesus Cristo, 90 anos
Quem há de cumprimentá-lo?




5 Comentários
Sara Ramos - Nova Betânia on 23 de abril de 2010 at 8:18.
O RN está de parabéns por ter alguém como o professor Raibrito!
Danusa Damasceno on 23 de abril de 2010 at 9:02.
Uma data excepcional, digna da comemoração dos mossoroenses e dos potiguares.
Caroline Abreu on 24 de abril de 2010 at 8:48.
Uma justa homenagem numa data que não se repetirá jamais.
Rômulo Augusto Soares Gurgel on 29 de abril de 2010 at 12:10.
Sou Caraubense e tenho orgulho de conhecer tão ilustre pessoa. Raimundo Soares é um dos maiores ícones (senão o maior…) da história de nossa cidade. Lamento que projeto tão importante e essencial para a nossa história, Biblioteca Virtual Prof. Raimundo Soares de Brito, não tenha “vingado”…Vamos cobrar! Parabéns e obrigado, Franklin, por compartilhar com todos essa lembrança de Raibrito e sua história.
telescope on 24 de junho de 2011 at 20:40.
OK, ok … o trabalho do seu Raibrito é digno e exemplar, justo de ser reconhecido e seguido por muitos. Contudo, considero que ele foi um grande arquivista e catalogador de dados importantes sobre deteminados lugares que refletem os percalços de sua vida pessoal (Caraúbas, Fortaleza, Mossoró e Natal); mas, vamos com calma, não dá para comparar o seu trabalho o de Câmara Cascudo – são tão distintos como a água e o vinho. A diferença é exorbitante entre os dois perfis. Além disso, com todo respeito e liberdade de expressão, não considero o seu Raibrito um historiador. Ele foi um guardião importante de dados. Guardar dados e transcrevê-los, não é ser Historiador ou Antropólogo. Teléscope.