MALANDRAGEM DESFALCADA

Por O Santo Ofício | 18 abril, 2010

Em tributo ao cantor Nelson Gonçalves, morto de parada cardíaca há doze anos, no dia 18 de abril de 1998, o cantor e compositor Lobão escreve sobre seu carinho e admiração pelo “comparsa, irmãozinho e – por que não? – paizão” que conheceu, em 1987, durante uma entrevista conjunta para a extinta revista Manchete. “Ele sempre foi e será a mais pura elegância do desvario”, diz Lobão.


AO NELSON, COM CARINHO
Por Lobão

Fico lembrando a primeira vez que me encontrei com o Nelson. Eu havia acabado de receber um habeas corpus lá pelos idos de 87 e, ao desfrutar daquela turbulenta e incerta liberdade, não suspeitava que numa entrevista marcada pela Manchete estaria por começar uma das mais belas recompensas daquele inferno por que passava: a amizade de Nelsão.

Com o mote das prisões, a incursão na marginália e a afeição pela boemia, nossas vidas se encontraram através dessas associações que os jornalistas fazem de vez em sempre e que, de vez em quando, acabam acertando, como o nosso caso aqui.

Numa tarde de outubro, se não me engano, varava pela sala da gravadora BMG aquela figura elétrica e franzina que, logo ao me perceber, foi disparando: “Rapaz, você sou eu anteontem, não tenha dúvida!”

Gargalhadas. Isso foi o bastante para quebrar o possível gelo que, porventura, viesse a se instaurar como fruto daquela improvável reunião. Apesar de me ver um cara vindo de um mundo, a princípio, totalmente diferente, sentia-me confortavelmente familiarizado com aquela figura que se impunha com toda a sua energia e descontração.

E aquelas duas realidades tão díspares já se antevendo cada vez mais semelhantes começavam a se tatear com histórias, alegrias e a barra de viver. Comecei a perceber que de díspar só havia o lapso do tempo e que toda a beleza de fazer da vida uma grande aventura se personificava diante de mim. Sentia na sua malandragem a essência viva do que eu entendia por rock’n’roll e que eu estava diante daquela essência viva e, talvez, de uma nova e possível forma de malandragem. Aí nos fizemos amigos. Amigos para sempre.

Não vou me deter nas aventuras, histórias e lendas que permeiam essa vida de porrada, poesia e amor. Isso daria um livro ou um filme. Muitos dos casos protagonizados por Nelsão são delirantes, cinematográficos, proto-punks, surreais e por isso, creio, haverá de ter oportunidade mais adequada para contar e curtir esses casos.

Agora, um detalhe. Recordo-me de ter lido não sei onde que o Nelson seria um dos precursores do brega(!) e isso produziu uma espécie de urticária no meu cerebelo. Vejam bem uma coisa: como é que uma pessoa que viveu a malandragem, na malandragem e pra malandragem pode ser precursora de um movimento que, em si, é exatamente o desterro da malandragem. Rapaziada, pelo amor de Deus, o brega é a síntese da perda de toda e qualquer malandragem e, por conseguinte, da elegância e da inocência, do risco do abismo. Por isso mesmo, de brega o nosso querido Nelson não tinha nada. Sempre foi e sempre será a mais pura elegância do desvario.

Por essas e outras, estou aqui, (…) para relatar o meu agradecimento à revista, tanto pela primeira conexão como também pela lembrança do Nelson me dando uma força, talvez sua última declaração pública a sair dias antes de sua morte. E minha sincera gratidão impregnada de ternura por aquele que me deu a oportunidade de desfrutar afetos múltiplos, num misto de comparsa, irmãozinho e – por que não? – paizão. Viva, Nelsão, na alegria do meu coração em lembrá-lo sempre a dizer: “Aonde houver um bordel, um botequim, um violão, se ouvirá a voz de Nelson Gonçalves ecoar uma canção.”


2 Comentários

Franklin Jorge on 18 de abril de 2010 at 17:46.

Grande Lobão! O homem mais inteligente que entrevistei.

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Verônica on 19 de abril de 2010 at 7:33.

Quando li “malandragem desfalcada”, pensei que era um artigo sobre o Ney de Castro…

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