DIÁRIOS, UNS FRAGMENTOS
Por O Santo Ofício | 26 março, 2010
Por Franklin Jorge
.Lisa Mercedes [Luisa Mercedes Levinson] apreciava a imobilidade que lhe permitia desfrutar o absorvente prazer de deleitar-se com o exercício do pensamento.
Na cama, cercada de gatos, acreditava que não haveria maior volúpia que pensar de olhos pregados no teto ou com um livro aberto sobre o peito; um livro do qual garimpava alguma frase sublinhada, comentada, relida, transcriada.
Eu me lembro que ela admirava Clarice e algum jornalista chegou a chamá-la de “a Clarice Lispector” argentina. Este elogio ela o ouvia com inefável deleite, sem aborrecimento e sem sentir-se diminuída; ambas afinal se conheciam e mutuamente se admiravam, como alguma vez ocorre entre escritores.
Gostava mais dos artistas, seres anticonvencionais, talvez excêntricos, do que dos escritores que lhe pareciam solenes e mundanos.
Passava horas pensando, decifrando a misteriosa caligrafia do tempo impressa no teto do seu quarto, em Belgrano, 11 de September, Buenos Ayres. Sonhando de olhos abertos com o livro que escreveria, plasmando suas personagens, passeando pela natureza sobrenatural, refletindo sobre o milagre, terrível não por sua raridade – mas pela frequência com que costuma ocorrer, sem que o percebamos.
Pensar, dir-se-ia, a matéria-prima da criação. Pensar sobre esse negócio falido de existir, sobre a arte como uma forma de danação ou salvação; pensar na natureza das coisas e nas leituras pretéritas e futuras.
.Os escritores encarecem o pensamento e se entregam à paixão de pensar.
Não é um prazer vulgar nem contempla a todos.
É a chave das percepções.
.Talvez a autora de O Sonho Violado tivesse em mente as lições de Baudelaire, imerso na aura da imobilidade e concentração dos artistas, pensando os nossos livros.
.Luz e música concernem ao gosto de pensar.
.São momentos como esse que dominam o escritor. Em vez de amantes – dirá o autor de Justine, fazendo-nos participar da sua estranha intimidade intelectual -, o mergulho na mente à procura de um livro. Um livro especial, como um rosto sem traços, imaginado por Clarice em sua embriaguês pensativa.
Nisso reside o consolo do trabalhado que o artista realiza, quer consignar Durrell em seu Quarteto que é a crônica difusa de Alexandria, persuadindo-nos não da magia ilusionista da literatura, mas do acordo que estabelecem os artistas; um acordo radiante com tudo o que nos feriu ou derrotou na vida cotidiana.
Ei-lo, o escrito:
“E desta forma, em vez de fugir ao nosso destino, como tentam as pessoas comuns, realizamos por inteiro – nós que pensamos, forçoso seria não acrescentar – nosso genuíno potencial – a imaginação (…)
“Deste modo, o sabor deste escrito possuirá algo de seus modelos vivos – seu alento, sua pele, suas vozes – entrelaçadas no tecido flexível da memória humana. Quero que vivam novamente, até que a dor se transforme em arte”.
Clarice tem a fantasia de quedar-se lendo, habituada a não considerar perigoso ler, isto é, pensar. De súbito, a uma frase lida – com uma lágrima nos olhos -, em êxtase de dor e de liberdade, diria Clarice: Mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!
D’O Poço de Narciso [Inédito]
.Céline pensava só em não morrer.
Já que estava entre os homens, quis continuar.
Não gostava de gente morta. Gente que em vida fora como carneiros conformados.
Pelo pai, descendia de burgueses franceses e nascera Louis Ferdinand Destouches. A mãe era hábil bordadeira e, bordando – algo análogo ao ato da escritura -, ajudava a manter a casa. Seu trabalho era tão fino que não permitia que acendessem fogo em sua casa. Comiam macarrão em todas as refeições, por duas razões. Por ser barato e por dispensar longos cozimentos e sobretudo por não ter cheiro marcante que impregnasse os lindos bordados maternos. Afinal a clientela era rica e cheia de exigências.
Há muito não lia Céline, um dos mestres do pessimismo, cuja influência se faz sentir sobre Henry Miller, escritor americano radicado em Paris que apreciou a crueza da sua linguagem e a levou mais adiante, para escândalo da imprensa moralista e hipócrita. De fato, Céline refere o homem, único, em vez da humanidade.
Era médico. Sempre clinicando para os pobres e escrevendo em grande obscuridade os seus romances dissolventes.
Durante a guerra, traiu a França, escrevendo a favor do invasor. Teve a sua prisão decretada e fugiu para a Dinamarca.
Vivendo mergulhado no inferno, para Céline um dia vivo era um dia ganho.




2 Comentários
Michelete Sousa Lima on 26 de março de 2010 at 8:11.
Uma página inesperada. Completamente fora dos padrões da blogosfera. Único no genero… Quer mais? “O Santo Oficio”, blog de FJ, minha leitura favorita de todos os dias.
Parabéns pelos 161.261 mil acessos!
Flávia Firmino on 26 de março de 2010 at 19:09.
Ótimo é pouco. A gente começa a ler FJ e não pára mais. Empolgante os ensaios sobre Nisia Floresta, José Américo de Almeida, Lygia Fagundes Telles, a dessacralização do poeta e publicitario Nei L. de Castro, um mito suburbano do parnaso à beira do Potengi. Muita coisa boa de ler. Bons colaboradores.