NÍSIA FLORESTA E SEUS AMIGOS
Por O Santo Ofício | 24 março, 2010

Por Franklin Jorge
Homero [Homem] apresentou-me, num almoço no Leblon, o velho Prof. Rodrigues Alves, amigo da memória e pesquisador da vida e da obra de Nísia Floresta.
Tal projeto mobilizou sua vida e malogrou seu futuro. Não seria daqueles a quem não é dado colher e saborear os frutos da sua seara.
Um modesto professor provinciano – acertou-me o autor do “Livro de Zahyra Kemper” –, nosso grande pesquisador obscuro que abnegadamente, por convicção íntima e elevado senso de justiça e admiração pela Brasileira Augusta, lançou-se à aventura de resgatar o elo perdido, de reunir a dispersa crônica daquela que nomeou sua terra, o antigo Sítio Floresta onde nasceu em 1810.
O Prof. Rodrigues Alves reunira todo o que existia então sobre Nísia. Levara uma vida, na obscuridade e no silêncio, preenchendo os claros e as lacunas com informações preciosas e inéditas. Era uma presença diária na Biblioteca Nacional, pesquisando.
Sua memória era uma biblioteca viva da escritora deliciosa, da mulher dominada pela curiosidade intelectual, de espírito indômito e vivo; observadora, fazendo-se respeitar num mundo de homens, fazendo política, participando da luta abolicionista e republicana e sobretudo levantando-se em defesa da emancipação da mulher. Pensadora da educação.
Por essa época, pouco antes ou depois surgia em Meia Ponte, província de Goiás, no jornal “Matutina Meiapontense”, escrevia na seção de leitores uma mulher que justificava porque ficara solteira, para não sujeitar-se às vontades do homem e praticar por vontade dele os mais humilhantes e abjetos serviços, que aqui exigem os maridos de suas mulheres; a classe dos cativos não sofre mais: e não é isto uma barbaridade?
E, prosseguindo, acrescenta: “Santa Constituição! É verdade que nossa condição ainda é a mesma, mas nossas filhas gozarão bens, que nós só gozamos na imaginação, e reunidas faremos os mais extremosos esforços para que sejam observadas, guardadas, respeitadas e mantidas, e isto a preço de tudo quanto licitamente pudermos empregar. Viva a Constituição que vem libertar as miseráveis goianas!”
Um retrato de época do tempo em que Nísia viveu no Sul e no Sudeste.
Estas e outras lembranças desse almoço, no meio da tarde, quando tudo iluminava-se dessa devoção do discreto e tímido professor que eu vira antes e depois, de terno e gravata, andando lentamente pelos corredores da BN, às vezes cumprimentado por um funcionário antecioso ou por alguma das moças que serviam o café atrás do balcão, empregados ou frequentadores do Café Angrense, invariavelmente sobraçando uma pasta de papéis e anotações. Assim me lembro do Prof. Rodrigues Alves, no Centro do Rio.
Ao voltar para Natal, anos depois, reencontrei o professor na calçada do Café São Luiz, morando na descida da avenida Princesa Isabel, no Baldo, onde ficava na minúscula área social, olhando a rua, respondendo afavelmente aos cumprimentos dos passantes, que, como eu, de repente se deparava com o Prof. Rodrigues Alves, pensando talvez no sacrifício que fizera, no tempo gasto nessa investigação insana de uma vida que, imortalizada nas ações que a palavra registra, com lacunas e magnificências que proporciona a vida do espírito consubstanciada em finas e refinadas reflexões.
Desde então senti a gravitação de Nísia. Já lera o livro de Jayme Adour da Câmara, ouvira o presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras, Manoel Rodrigues de Melo e reunira referências sobre a escritora, começando pela leitura de seu poema publicado na Antologia dos Nossos Poetas, encadernada em couro bordô, bem imprensa sobre um precursor do couchet, produzida por Ezequiel Wanderley que a publicou em 1922. Escrevia em italiano os versos que lhe inspirara uma venerável igreja italiana, em Florença sob a abóbada de Santo Onofre, reproduzidos quarenta anos depois na antologia de Rômulo Wanderley.
Agora, relendo o que acabei de escrever, esbarro numa constatação. Caí numa esparrela, ao pensar que sob a forma de uma crônica ou pequeno ensaio – gênero que prefiro a qualquer um outro – por uma predisposição de temperamento e identificação estética. Embora comporte muitas soluções o ensaio constitui, para mim, um prazer e um desafio.
Agora sinto-me desafiado porque escrevi estas linhas lembrando apenas um dos amigos de Nísia Floresta, o fiel Prof. Rodrigues Alves que por uma circunstância ingrata curtia doido anonimato em Natal. Terá sido a fonte donde se abeberou Constância Lima Duarte para escrever a principal obra, até este momento, de reconstituição histórico-biográfica exemplar. No entanto, paira sobre o nome de Nísia Floresta Brasileira Augusta, um nome inventado que é a sua maior criação. Nada disse sobre o velho professor vivendo o seu ocaso, numa simples casa de esquina, na descida da Princesa Isabel com o Baldo. É quando sinto o tamanho da minha dificuldade, enumerar sucintamente os devotos desse culto de Nísia Floresta, sua terra hereditária.
Que dizer de Henrique Castriciano?, o primeiro sacerdote desse culto secreto e enigmático da escritora brasileira que morre em Ruão, depois de deambular por países e monarquias da Europa e Grécia, em devaneios ao longo das estradas, levada em carruagens, atravessando o mar e a terra, sempre na companhia da filha Lívia Augusta. Foi ele, Henrique Castriciano de Souza o fundador deste culto. E dele não disse uma vírgula.
Cascudo, Nilo Pereira, Edgar Barbosa, Manoel Rodrigues de Melo, Américo de Oliveira Costa, uns poucos outros. E, por último, o professor e ensaísta Márcio de Lima Dantas, com quem compartilho o entusiasmo dessa carismática escritora que as feministas invocam como precursora da luta pela emancipação da mulher, com umas poucas outras mulheres intelectuais que defenderam a educação e os direitos civis das mulheres.
Temos em comum – Márcio e eu – a paixão pelos relatos de viagens; pela sutileza das observações da escritora sobre a arte; a história, os costumes, a economia e as relações sociais nos países e estados que visita, tudo isso vai sendo compartilhado com o leitor numa prosa fluida e fluente que compõe um elaborado jornal literário.
Nísia Floresta é, por enquanto, um prelúdio. Uma ouverture.
Que dela sabemos a não ser que nasceu para opor-se, questionar, duvidar e insurgir-se?
Fragmento do livro Novas Leituras Potiguares [inédito]




3 Comentários
Fernando on 25 de março de 2010 at 8:24.
Franklin, v. esqueceu de mencionar a professora Maria Gadelha Simonetti. Sei que já escreveu sobre ela e a entrevistou. Parabéns pela pagina.
Joaquim Maria on 26 de março de 2010 at 19:43.
Ilustração perfeita!
Teresa Marcolino de Paula on 2 de maio de 2010 at 17:49.
Sempre me surpreendo lendo este Blog. de onde Franklin tira tanta coisa boa para nos presentar sob a forma de textos?