CASCUDO E O PADRE JOÃO MANUEL

Por O Santo Ofício | 23 março, 2010


Por Franklin Jorge

Recentemente, escrevendo sobre o padre João Manuel de Carvalho [1841-1899], mais jornalista e político do que religioso, nome de grande expressão no Império e nos começos da República, obtive uma desusada atenção dos leitores, encantados com a desabusada criatura que sabia como ninguém ridicularizar seus adversários, botando limão em suas erisipelas morais. Mal publicada a crônica neste semanário, folheando um velho livro, bati de frente com uma página escrita pelo polígrafo Luis da Câmara Cascudo em 1938 sobre o nosso irrequieto e polêmico personagem, há muito dormindo o sono dos justos.

Nome de rua no aristocrático bairro de Petrópolis, em Natal, lembra Cascudo a participação do Padre João Manuel na política provinciana e na Corte, onde ocupou posição de destaque também no jornalismo e no clero, pois foi pároco da prestigiosa Candelária, a igreja matriz da capital do Império do Brasil, há coisa de pouco mais de um século. Apesar de padre, cultivava um ódio fiel e constante contra os jornalistas que se vendiam aos poderosos, por entender o jornalismo como uma missão em favor da sociedade e a política, ou seja, os mandatos proporcionados pelo voto, a retribuição natural e justa de seus esforços de militante sempre disposto a pegar pesado. Portanto, nada melhor que o voto, como pagamento, por sua luta por mais democracia e justiça social

Filho do capitão João Manuel de Carvalho e de Quitéria Moura Carvalho, nasceu em Natal e ordenou-se no Seminário do Maranhão, em 1865. Fundador de “O Recreio”, o primeiro jornal literário a circular no Rio Grande do Norte, começou escrevendo no “Conservador” e tomou gosto pela política, graduando-se rapidamente nessa arte. Diz Cascudo que ele agradou depressa, falando e escrevendo. Poucos anos depois de jurar bandeira ao partido, criou, pela independência e atividade inconsciente de seu espírito, um lugar á parte no estado-maior de seu protetor, o coronel Bonifácio, velho cacique que possuía do Conde de São Lourenço o raro talento de pôr asas nas costas de quem julgava capaz de vôo e recusando postos de realce para si mesmo. E o jovem padre foi em frente até a deputação-geral, que obteve, não de mão beijada, mas porque soube esperar o momento em que o cavalo passava selado e habilmente o montou, lembra Cascudo.

Aderindo à República, manteve-se longe do Partido Republicano fundado no Rio Grande do Norte por Pedro Velho, segundo uns, por orgulho, para não dividir seu cacife com um correligionário igualmente prestigioso.

Pedro Velho não se esforçou para atraí-lo, segundo alguns, por temer a sua imensa popularidade.

Como deputado, propôs a abertura de estradas e instalação dos correios no Rio Grande do Norte, pouca coisa e de pouca monta, pois como política não era a terra que lhe despertava o interesse, mas os eleitores. Era capaz de despender um esforço imenso para atender ao pedido de um eleitor. A terra que se lixasse e, ainda mais, a igreja, embora tenha terminado seus dias como vigário de Amparo, importante município do Estado de São Paulo. Lá, mergulhou no ostracismo político, mas ainda mostrou suas garras como jornalista. E escreveu um delicioso livro de memórias, que, devidamente anotado por um bom conhecedor da história política brasileira da época, seria bem vindo se fosse reeditado.

Insatisfeito com a Monarquia, decepcionou-se rapidamente com a República. Cascudo conta-nos que, um ou dois dias depois da Proclamação da República, vestido à paisana, ou seja, de fraque, cartola e plastron [espécie de gravata, parecendo um babador, usada pelos elegantes da época], compareceu a uma festa popular em homenagem ao novo sistema de governo. Usou um valioso camafeu para prender a gravata. Ao despedir-se dos amigos e novos correligionários, notou o desaparecimento da jóia. Procurou-a por toda a parte. Desencantado, curtindo o prejuízo, disse a frase que se tornaria famosa: “Querem ver que a República já começou furtando?”


10 Comentários

J. BAPTISTA LIMA on 24 de março de 2010 at 1:55.

PARABÉNS: 160.410 ACESSOS!

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Telma Lins (Vitória-ES) on 24 de março de 2010 at 2:24.

Sr. Franklin, este seu Blog era o que estava faltando.Fico torcendo por seu sucesso.

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Telma Lins (Vitória-ES) on 24 de março de 2010 at 2:25.

Uma maravilha o que sr. escreve!

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Paulete Sanderson Nova Natal on 24 de março de 2010 at 7:12.

Estes textos são muito bons. O padre deveria ser mesmo muito espirituoso. Minha solidaridade com relação às baixarias que o Senhor vem sofrendo; porém, saiba que ninguém chuta cachorro morto, se o fazem desssa maneira, é porque ha´inveja pelo seu reputado talento, não há coisa que o humano deteste mais no outro do que um talento, ainda mais quando se trata da arte de escrever, num país em que todo mundo fala errado e não sabe nem escrever uma simples carta.

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misherlany on 24 de março de 2010 at 7:44.

FRanklin, muito bom memso esse artigpo sobre o padre João Manuel. Parabens.

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Gloria Lucena on 24 de março de 2010 at 8:12.

Fiquei morrendo de vontade de leer as memorias desse padre danado.

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Zuleika Gondim on 24 de março de 2010 at 8:19.

Admiro muito seus artigos. Cada um mewlhor do que o outro, até qdo desanca osm mediocres. Classe e cultura – é assim que o vejo.
Deus o proteja dos invejosos e mediocres.

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Dedé Dourado on 24 de março de 2010 at 8:41.

Parabéns pelos acesços. Bom demais

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Honório de Medeiros on 24 de março de 2010 at 8:51.

Amigo,

Que texto! Que tessitura! Fino lavor!

Um abração,

Honório de Medeiros

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Fafá on 24 de março de 2010 at 14:57.

É por isso que o Ojuara e Cia. morrem de inveja de FJ! Talento e cultura não é para todos não, tem um preço. Quem vive farreando e fumando pelos becos e cabeças de porco da cidade, não tem obra para mostrar. Dou Nota 10 a FJ!

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