DIDI CÂMARA
Por O Santo Ofício | 17 março, 2010
Por Franklin Jorge
A republicação de uma velha crônica de Edgar Barbosa trouxe novamente à vida a poetisa e atriz Didi Câmara, ao despertar a curiosidade do jornalista Woden Madruga, que abriu espaço para indagar sobre o espólio da norte-rio-grandense que, nos anos setenta, visitei certa manhã em seu apartamento na Tijuca.
Havia muitos anos, mudara-se para o Rio. Procurei-a em nome de Nati Cortez, que escreveu uma carta de apresentação. Demorei a procurá-la, até que, aproveitando que o Brasil jogava contra a seleção de um outro país, resolvi nesse dia visitá-la, porém creio escolhi mal o dia e o momento. Havia muita gente em sua casa e não pudemos conversar.
Didi, já idosa e cercada da atenção dos parentes e amigos, recebeu-me à cabeceira da mesa comprida em torno da qual se apinhavam umas dez pessoas, a maioria, mulheres, que conversavam, não sei se sobre futebol, mas riam muito e pareciam curtir aquele momento de intimidade. São todos amigos, disse a poetisa que não se mostrou nada interessada por Natal, onde nascera e vivera quando moça, participando da incipiente vida cultural da cidade.
Sua poesia e sua vocação para o teatro devem ter causado frisson em Natal, cidade ainda dorminhoquenta e de muro baixo, naqueles já remotos anos trinta ou quarenta do século passado. Um tempo em que as moças de família não subiam ao palco, por restrições morais ainda bem vivas e alertas. Eu me lembro que Dona Nati me dissera que “Didi era muito pra frente”, ou seja, como artista, desafiava o estabelecido e aceite por todos.
Talvez eu tenha me sentido intimidado por toda aquela gente que não parecia nada curiosa para saber noticías de Natal. Didi, que encantou como atriz revelação, participando das peças do Ginásio Dramático, disse-me simplesmente que tudo aquilo era passado, após ler e dobrar a carta que eu lhe entregara. Sim, pensara em ser atriz. Todos os jovens querem se fazer notar.
Didi ofereceu-me um lanche, repetindo talvez um costume que adquirira em seus tempos de Natal, quando ainda era gentil oferecer alguma coisa, doce, bolo, café ou um copo dágua às visitas. Aceitei o café, enquanto, na rua, o carioca entusiasmado comemorava a participação do Brasil na Copa de 1972.




1 Comentário
Carmo Lisboa - Currais Novos on 17 de março de 2010 at 19:12.
Até os evangelicos, que querem ser tão certinhos, foram corrompidos???