QUE FALTA NOS FAZ DARCY
Por O Santo Ofício | 16 março, 2010

Por Cristóvam Buarque*
O Brasil tem personagens históricos na atividade política, outros na produção intelectual, ainda outros na coerência da vida pública. Mas poucos têm tanta riqueza na carreira, no currículo, na biografia. Entre esses, Darcy Ribeiro é quase um solitário, de tão especial.
Teve papel determinante na vida pública, sempre presente nos momentos decisivos da nossa vida pública durante décadas no século XX. Esteve na luta pelas reformas de base, última tentativa para fazer uma inflexão democrática com fortes reformas sociais no Brasil. Esteve na luta pelo socialismo democrático no Chile. Foi vice-governador, secretário de cultura, reitor e senador. Nessas atividades, criou, implantou, fez a Universidade de Brasília, o Sambódromo, a Lei de Diretrizes de Base da Educação Brasileira, os Cieps.
Só isso bastaria para fazer dele um personagem importante da nossa história. Tem também um currículo intelectual que raras pessoas, de qualquer país, podem apresentar. Escreveu mais de 20 livros – sem contar ensaios e artigos – sobre história, educação, antropologia e literatura, alguns deles clássicos como O povo brasileiro, Trancos e barrancos, Sobre o óbvio, Maíra, Mulo, Kadiwéu. Quando fundou a UnB, definiu a arquitetura institucional que servirá por muitas décadas como linha central das instituições de ensino superior.
Mas, além disso, ele tem uma biografia, uma vida no sentimento humanista, na militância, na realização existencial, que nenhum outro homem público e intelectual brasileiro conseguiu. Sua permanência por anos entre povos indígenas, sua intensa vida amorosa, seu heroísmo na luta contra o câncer, fizeram dele um grande ser humano.
Com toda essa relação, Darcy Ribeiro foi grande ao afirmar que se orgulhava do que fez, tanto quanto do que tentou e não conseguiu. Orgulho dos fracassos que ficaram como símbolos da coragem e da coerência. Não conseguiu fazer tudo o que planejou porque sempre esteve à frente de seu tempo e nem sempre se consegue o número necessário de seguidores, quando se está adiante e sem submissão às idéias do seu tempo.
Por isso, costumo dizer que, quando crescer, gostaria de ser Darcy. Mas já cheguei a uma idade que me impede de imaginar que conseguirei. Nem eu, nem qualquer outro. Darcy foi Darcy, e ninguém mais chegará perto de sua vida tão plena.
Que falta nos faz Darcy! Se pudéssemos tê-lo aqui, defendendo o que só agora começa a tocar a mente das pessoas, o veríamos pregando que o progresso vem da inteligência, e não das engrenagens da indústria; que é preciso educar os analfabetos, não só garantir-lhes emprego. Se ainda estivesse entre nós, nos ajudaria a derrubar dois muros que emperram o Brasil: o muro do atraso e o muro da desigualdade. O muro do atraso não nos deixa ser um país igual aos desenvolvidos, por falta de ciência e tecnologia. O muro da desigualdade não nos deixa quebrar a maldita desigualdade perversa de cinco séculos, por falta de educação igual para todos. Se ainda o tivéssemos no plenário do Senado, o veríamos criticando a cultura patrimonialista que tem levantado crise após crise nesta Casa do Congresso Nacional.
Orgulho-me de ter sido seu discípulo e ter merecido dele uma dedicatória, em 1996, no livro Diários índios. Com a doença avançada, mas com o humor e o otimismo de sempre, ele escreveu: “Para Cristóvam, meu candidato do peito a presidente do Brasil. Não podendo ser eu, que seja você.” Dez anos depois, cumpri esse compromisso com ele: minha candidatura, tão quixotesca quanto ele, foi minha homenagem, minha luta para, quando crescer, ser Darcy.
(*) CB é professor da Universidade
de Brasília e senador pelo PDT/DF




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