ELES E JOSÉ AMÉRICO DE ALMEIDA

Por O Santo Ofício | 16 março, 2010

DOIS JOSÉS Lins do Rego (esq.) e o conterrâneo Américo de Almeida

JOSÉS SE ENTENDEM Lins do Rêgo e o conterrâneo Américo de Almeida

Por Franklin Jorge

Recebi um presente ao tempo de minha estação em Mossoró, Eu e Eles com autógrafo do autor. “A Joaquim Duarte, cordial lembrança de José Américo. (…) 1972.” Exemplar que pertenceu a um velho amigo já falecido. Contém o relato autobiográfico dos encontros e desencontros do autor com a política e Getúlio Vargas, de quem foi ministro; com Epitácio Pessoa; Augusto dos Anjos, Graça Aranha, José Lins do Rêgo, Assis Chateaubriand, João Cabral de Melo Neto…

Um livro que contém passagens, impressões, ambientes. Criticamente filtrados pela memória e escrito no estilo inconfundível de um estilista que sabe pensar sobre as suas ideias. Eis o que contém este livro, evocativo de tempos mortos e de outros tempos, forjado por José Américo, que fala de pessoas – declara -, de pessoas e de figuras que não estão de corpo inteiro, como desejaria o autor que não faz concessões.

Flagrantes que definem sucintamente em José Américo o homem público e o privado. O homem que queria ir-se sem desesperanças e que, ao aposentar-se escolheu viver diante do mar da sua terra, no Cabo Branco. E, ali, diante do crepúsculo e vendo o mar, sentindo-lhe a salsugem e a maresia, viveu até a morte.

Desde cedo começou a demonstrar o que seria como homem. Um homem que enfrentou a engrenagem ignorante e preguiçosa do estado, ao tornar-se ministro; um bruto, afinal, movido a raiva e decisão, conforme confessa ao olhar-se retrospectivamente. No entanto, um devorador de livros que antes de tudo o mais queria ser autônomo.

José Américo entendia que ser útil era desdobrar a personalidade, vivendo outras vidas.

Como político, não fazia favores individualmente a ninguém; fazia-os ao povo, em obras que pudessem servir à comunidade.

Como escritor tinha a sua prosa e a frase curta – que dizia resultar do fôlego curto. E, ao escrever, deixou o povo respirar e falar no seu texto, fazendo-se, pois, notar pela personalidade do que escrevia sem complacência sobre uma realidade que estava entranhada em sua própria experiência de vida.

Engajado na máquina infernal, a política, quis ser presidente e, parte dessa campanha, ele a conta aqui, rápida e sucintamente, num dos capítulos mais longo desse livro que, distraidamente, voltei a folhear, ao arrumar a estante. Não é livro que pretendesse reler, pois dele já extraira o sumo e a essencia, todo o proveito enfim que se pode extrair da leitura de um livro, além do prazer que proporciona. Ao tocá-lo, porém, percebi que continha anotações de quando o li pela primeira vez. Agora, entre curioso e surpreso com o que leio aqui, o consulto para pensar sobre o que havia lido em Mossoró.

Eis o que nos diz  José Américo de Chateaubriand, seu conterrâneo, em sua capacidade de admirar: – Tudo que faz é loucura até ser feito. Deixou de viajar porque o comandante do navio japonês recusou-se a aceitar esse tumulto como passageiro. Um monstro, um demônio, um fenômeno e acabou como santo. Fez um jornal que não era um simples órgão de informação, mas um centro intelectual, uma escola de letras e de estudos.

O discurso de recepção ao acadêmico João Cabral de Melo Neto na Academia Brasileira de Letras, despretensioso e pertinente:

Perdemos Manuel Bandeira e vindes, Sr. João Cabral de Melo Neto, preencher esse claro com um nome da mesma grandeza…

Discurso onde a poesia está presente e que, sem afrontar as normas protocolares da Academia, inova, ao infringir o ar solene em sua busca de uma visão mais profunda e variegada, da estilística contra a improvisação informe; sobretudo, dois homens que sabiam selecionar valores.

De José Lins do Rêgo, em um outro vivíssimo retrato, viu o contador de histórias de ar distraído, rueiro, negligente no andar, no sentar-se, no falar, não esquentando lugar, ninguém dava nada por ele. Conheceram-se no Recife. E, de Lins do Rêgo guardava José Américo a lembrança de alguém que, na rua, confundia-se com o povo. Um homem sadio à procura de uma doença, às vezes ficava alheado, entrava no mundo da lua, quando conversava com personagens invisíveis.

José Américo despede-se. Adeus, meu amigo. Prometo ficar pelo resto dos meus dias contando a tua história, como sabias contar a dos teus inúmeros convivas.

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3 Comentários

Fernão Gonçalo on 16 de março de 2010 at 21:58.

Não há mais o que acrescentar a este artigo. Está de bom tamanho.

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Odete on 16 de março de 2010 at 23:14.

Parabéns pelos acessos continuos. Já são 157.700

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Margarete Carlos on 17 de março de 2010 at 8:01.

Se “melhorar”, estraga!

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