BEST-SELLER NO MELHOR SENTIDO DA PALAVRA
Por O Santo Ofício | 13 março, 2010

Por Franklin Jorge
Sugere-nos Lygia Fagundes Telles que o escritor, como sumo pontífice, é um construtor de pontes, ou seja, aquele que através do uso cúmplice da palavra comunica-se fraternalmente com o leitor. Só não concordaria com o “fraternalmente”, mas talvez seja isto apenas mais uma das minhas idiossincrasias. Afinal, não podemos concordar com tudo…
Remanescente da famosa Geração de 45 – que se notabilizou mais no verso do que na prosa -, dela disse Clarice Lispector que é um best-seller no melhor sentido, pois seus livros – além de serem comprados por todo mundo – são escritos de um modo genuíno que se parece com o seu modo de agir na vida.
Certo é que um dia ela pensou que estendia sua palavra ao leitor, assim como uma ponte e disse, “vem!” Porém, como bem o disse o padre Antonio Vieira num de seus Sermões – que Lygia cita adequadamente – não bastam as palavras; são necessárias obras.
E vieram as obras, as primeiras ainda na idade dos sonhos e das quimeras, nascidas da ansiedade e da pressa. Livros logo repudiados, porque não eram ainda os livros que a autora de Ciranda de Pedra pretendia escrever, como frutos da sua insatisfação.
Prefiro, no entanto, a ensaísta e a cronista à ficcionista, que passei a ler recentemente nesses curtos ensaios ou crônicas, em sua maioria recheadas de confissões que desvelam para mim uma nova escritora em Lygia Fagundes Telles, muito distante das complexidades woolfianas que incidentalmente pairam aqui e ali sobre a sua contística.
Uma parte da sua obra, que eu diria quase secreta, foi sendo reunida e ordenada de maneira apaixonada e minuciosa por Suênio Campos de Lucena, seu organizador e apresentador, como parte do processo que resultou em seu trabalho de pós-graduação.
Refiro-me, aqui, ao pequeno e bem-cuidado volume intitulado Depois daquele estranho chá, cujas páginas são flagrantes de vida, às vezes compartilhadas com outros escritores, como Simone de Beauvoir, Sartre, Faulkner, Drummond, Jorge Amado, Mario de Andrade, Clarice – que a entrevista e dela colhe reflexões sobre o escritor e o ato de escrever. Suas viagens, intervenções, apóstrofes.
O título alude a um estranho encontro da autora com Mario de Andrade, na elegantíssima Cafeteria Vienense, um pouco antes da morte do escritor. Ficção e memória se entrelaçam numa prosa oral que compõe uma memorialística no limite da realidade e da ficção, segundo a lição franqueada por Antonio Carlos Villaça.
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2 Comentários
Agnaldo on 14 de março de 2010 at 10:28.
Cadê a reprodução dos artigos que vc publica aos domingos no Novo Jornal? Moro em Caicó e aqui não chega essa publicação. Já recebi alguns telefonemas de Natal, dando conta que vc hoje escreveu sobre o Nei Leandro. Um abraço.
Caroline - Tirol on 16 de março de 2010 at 21:49.
Achava a Lygia meio insossa, certinha demais. Mas gostei muitissimo desseartigo, FJ! Dez!!!