RELENDO FREI VICENTE DO SALVADOR
Por O Santo Ofício | 28 fevereiro, 2010
Transcrito do NOVO JORNAL
Por Franklin Jorge
Aproveitei meu domingo relendo trechos da História do Brasil escrita por Frei Vicente de Salvador (1564-1639?), na edição revisada por Capistrano de Abreu (1853-1927) e pelo meu ilustre conterrâneo do Ceará-Mirim, Rodolfo Garcia (1873-1949), entre outros prestigiosos comentaristas. Apresentando-a, diz-nos Aureliano Leite que, no Brasil seiscentista, Frei Vicente não foi o melhor do seu tempo, foi o único, ao doar-nos uma história geral do Brasil que é também uma enciclopédia.
É talvez o primeiro historiador da corrupção em solo pátrio, ao registrar que os feitores, aqui, davam em conta a despesa pela receita…
Nascido na dionisíaca e pagã Bahia de São Salvador (daí a adoção do nome da cidade pelo qual se fez conhecido), não é o Frei Vicente um historiador sisudo e dogmático. Os que o leram ou anotaram, louvam-lhe o espírito e a prosa quase sempre bem cuidada, minuciosa e sintética, lavrada num estilo que se esquiva de aborrecer ao leitor que se compraz no conhecimento do nosso passado.
Foi leitura cara ao nosso querido mestre Luis da Câmara Cascudo, que nele encontrou (e certamente terá se deliciado) curiosas e verídicas informações sobre a nossa província, então considerada “o pior território” da colônia havia pouco descoberta, como as que referem aos chefes indígenas potiguares Pau Seco, Braço de Peixe, Zorobabé, Ilha Grande (que suponho um dos chefes tribais do Ceará-Mirim antigo), as guerras com os “bárbaros”, franceses e holandeses e a repartição da primitiva Terra Papagalli em capitanias hereditárias etc.
Escrita segundo a ordem cronológica, à maneira da crônica dos reis, alguns livros ou capítulos da obra se perderam, porem o que sobreviveu não deixa de constituir uma enciclopédia viva dos atos administrativos, da política, dos costumes, da ecologia e da mitologia, num período que vai do Descobrimento, em 1500, até 1627. Objetivo, assim principia a sua História do Brasil:
“A terra do Brasil, que está na América, uma das quatro partes do mundo, não se descobriu de propósito e de principal intento, mas acaso, indo Pedro Álvares Cabral, por mandado de el-rei Dom Manuel no ano de 1500 para a Índia por capitão-mor de onze naus. Afastando-se da costa de Guiné, que já era descoberta, ao Oriente, achou estoutra ao Ocidente, da qual não havia noticia alguma; foi a costeando alguns dias com tormenta até chegar a um porto seguro, do qual a terra vizinha ficou o mesmo nome (…)”.
Mais do que com a história em si, deliciei-me com a saborosa dicção quinhentista e as descrições do clima, do temperamento, das riquezas minerais, das árvores agrestes, das ervas medicinais, dos mantimentos, dos animais, dos bichos, das aves e das coisas que há no mar e terra do Brasil, então ainda em pro-cesso de povoamento. Do cajueiro e do maracujá, tão nossos conhecidos e apreciados, eis o que nos diz o atilado historiador:
“Os cajueiros dão a fruta chamada cajus, que são como verdiais, mas de mais sumo, os quais se colhem no mês de dezembro em muita quantidade, e os estimam tanto que não querem outro mantimento, bebida ou regalo, porque eles lhes ser-vem de fruta o sumo de vinho, e de pão lhes servem umas castanhas que vem pegadas a esta fruta, que também as mulheres brancas prezam muito, e secas as guardam todo o ano em casa pera fazerem maçapães e outros doces (…) Maracujás é outra planta que trepa pelos matos, e também a cultivam e põem em latadas nos pátios e quintais; dão fruto de quatro ou cinco sortes, uns maiores, outros menores, uns amarelos, outros roxos, todos mui cheirosos e gostosos. E o que mais se pode notar é a flor, porque, além de ser formosa e de várias cores, é misteriosa: começa no mais alto em três folhinhas, que se remetam em um globo que representa as três divinas pessoas em uma divindade, ou (como outros querem) os tres cravos com Cristo foi cravado, e logo tem abaixo do globo (que é o fruto) outras cinco folhas, que se rematam em uma roxa coroa, representando as cinco chagas e coroa de espinhos de Cristo Nosso Redentor…”
E, da preguiça, que, curiosa-mente, jamais alguém pensou para símbolo nacional:
Outro animal há a que chamam preguiça, por ser tão preguiçoso e tardo em mover os pés e mãos que, pêra subir a uma árvore ou andar um espaço de vinte palmos, há mister meia hora e, posto que o aguilhoem, nem por isso fogem mais depressa…”
Detive-me, porém, nas referências à história e geografia fluminenses, onde há uns quarenta anos, à sombra do jardim plantado por Dom João V, no Rio de Janeiro, li o bom frade pela primeira vez. De seus relatos das guerras movidas pelo colonizador contra o gentio, lembrou-me, de alguma forma, o que escreveu Sir Walter Scott sobre os piratas que, por essa mesma época em que compunha seu livro, dominavam os mares noutras longitudes.
Uma das passagens de que mais gosto, a da participação de São Sebastião, santo guerreiro, ajudando os portugueses – que defendiam a valorosa cidade do Rio de Janeiro -, em renhida batalha contra os Tamoios. Só não a transcrevo a aqui por ser demasiado longa para ocupar este espaço. Como se sabe, Sebastião, santo guerreiro, é o padroeiro da valorosa cidade do rio de Janeiro, que o homenageia com aquela curiosa e monumental estátua chantada diante do mar, no aterro da Glória; e que prefigura, na opinião de um velho e espirituoso amigo cea-rense, o nosso primeiro monumento gay nacional…
Dou-lhe, porém, leitor desprevenido, a descrição da cidade feita pelo autor da História do Brasil, que tanto me tem agradado:
“O Rio de Janeiro está em vinte e três graus abaixo do trópico de Capricórnio, e impropriamente se chama rio, porque antes é um braço de mar, que ali entra por uma boca estreita que se pode facilmente defender de uma parte a outra com artilharia; mas dentro faz uma baía ou enseada em que entram muitos rios e tem perto de quarenta ilhas, das quais as maiores se povoam e as menores servem de ornar o sitio, ou de portos onde se abriguem os navios. Estas comodidades e outras muitas deste rio e baía, juntas com a fertilidade da terra, a faziam digna de ser povoada, quando se povoaram as mais do Brasil…”




2 Comentários
Arlindo Matias on 28 de fevereiro de 2010 at 21:55.
Leitura de Jose Midlin, falecido hoje.
Vejo agora um roda viva com o mesmo.
Diego Bezerril on 1 de março de 2010 at 19:06.
Uma maravilha! Nem parece o Ney de Castro e essa gentalha que não tem cultura e só escreve obscenidades.