A PONTE
Por O Santo Ofício | 22 fevereiro, 2010

Por Stella Galvão
Foram anos de espera para realizar o sonho de ir àquele lado da cidade sem passar pelo sufoco diário do trânsito congestionado. Chegou a fazer uma pasta com o arquivo dos jornais sobre o passo a passo da obra. Cada atraso no cronograma era marcado em caneta vermelha e deixava em sobressalto aquela alma expectante. De tão ansioso, reunia a família aos domingos para uma sessão de contemplação nada etérea, ao contrário, bem concreta.
Cada viga, cada coluna de sustentação era diligentemente acompanhada e se somava às anotações já feitas.Este herói anônimo, fiscal de uma obra portentosa, levava essa missão tão a sério que saiu do emprego e virou autônomo para ter mais tempo livre.
Brigou com parentes que achavam aquilo um exagero, uma coisa despropositada, e agastou-se até mesmo com os operários a caminho do canteiro de obras. Os homens ouviam, incrédulos, aquela arenga toda e comentavam, às gargalhadas, a perda de juízo daquela criatura. A vizinhança da obra também estranhava a ronda diurna e noturna, desacostumada com aquele cuidado todo. Era um vigilante remunerado unicamente pela alegria de ver a estrutura avançar.
A polícia foi chamada no dia em que ele, não satisfeito em montar campana nas imediações do acesso à ponte, correu todos os riscos de acidente ao meter-se no coração da obra, enfronhado no meio dos trabalhadores. Foi flagrado com meia dúzia de ferramentas pesadas, se fazendo passar por um mestre de obras sem rumo nem tino. Na delegacia, fez discurso cobrando o prefeito, a governadora, o presidente. Se necessário iria à ONU conclamar pela aproximação de grupos populacionais apartados por um rio.
Exigia providências energéticas para cessar aquele atraso sem fim, para terminar com anos de apartheid social, os do Norte confinados e com um acesso restrito a uma velha ponte. Os do Sul arrotando arrogância e virando o rostinho empoado para os seus co-irmãos. Uma quase guerra da Secessão em pleno século XXI! Era o que se configurava para aquele homem com visão geopolítica regressiva. Chegou aos jornais, televisões e rádios. Não havia como detê-lo.
Cronogramas foram vencidos por aquela força hercúlea, forjada no aço da determinação pessoal. Uma coisa bonita de se ver. Passou a fazer palestras para orientar gente sem rumo a ter uma meta, um sonho, uma ambição. E a lutar tenazmente como ele fazia. E não é que chegou o dia da inauguração da ponte?
Como um noivo que espera pela amada, ele apresentou-se logo cedo no acesso do lado sul, cuidadosamente vestido e penteado. Desnecessário buscar um lugar no palanque: foi rapidamente conduzido até lá por políticos interessados em tirar uma casquinha da fama emergente do louco lúcido. Na hora de cortar a fita inaugural, a emoção era tamanha que ele não aguentou. Correu e saltou do ponto mais alto, reaparecendo nas águas turvas do encontro rio-mar. O feito, naturalmente improvável, eclipsou todos os discursos e consagrou uma nova e emergente liderança.




Viva voz