IMPRENSA MEDÍOCRE AMPUTOU A CRÍTICA

Por O Santo Ofício | 16 fevereiro, 2010

[Entrevista – final] FERREIRA GULLAR

Para Gullar, arte contemporânea se confunde com falso populismo

Para Gullar, arte contemporânea se confunde com falso populismo

Por Liege M. Gonzalez,
do site Dasartes.com

O neoconcretismo propunha obras orgânicas, que ganhavam vida com a participação do público, como os parangolés de Hélio Oiticica ou os bichos de Lygia Clark. Hoje, em virtude de seu valor histórico e financeiro, as obras em exposição não podem ser manipuladas. O Sr. acha que elas perderam sua organicidade?
Não, tradicionalmente nunca se permitiu tocar nas obras de arte. A ideia é inviável, o manuseio destrói as peças, por isso os museus fazem imitações para que as pessoas toquem. Eu mesmo tive um bicho da Lygia que quebrou porque meus filhos, quando garotos, usavam como brinquedo. A ideia de participar das obras nasceu do livro-poema que eu fiz. Para resolver alguns problemas da minha poesia, criei um livro que era o poema, uma coisa só, um poema que precisava ser tocado, manuseado (publicado pela primeira vez em Experiência Neoconcreta: Momento Limite da Arte, Cosac Naify, 2008). Depois, isso passou para as atividades da Lygia, do Hélio e eu também passei a fazer mais poemas para se participar.

Como o poema enterrado?
Sim, eu criei este poema em que a pessoa entrava dentro. Era enterrado porque era subterrâneo, em uma sala três metros abaixo do solo. A pessoa descia uma escada e entrava nesta sala, onde estava o poema. O Hélio Oiticica gostou da ideia e convenceu o pai dele a fazer o poema no quintal da casa que ele estava construindo. Quando ficou pronto, fomos todos lá inaugurar: Mário Pedrosa, Lygia Clark, Theon Spanudis, Amilcar de Castro, todo mundo. E quando abrimos a porta do poema, estava tudo inundado, os cubos do poema estavam boiando. Tinha chovido três dias sem parar e, como o poema ficava em um pé de montanha, virou caixa d’água. Há pouco tempo, ouvi dizer que a família do Hélio reconstruiu o poema e dizem que é uma obra dele. Não me comunicaram, isto foi o que ouvi dizer.

Alguns herdeiros, como os de Lygia Clark, adotam uma política de direitos autorais que dificulta ou impossibilita a reprodução de imagens das obras. O Sr. não acha que esta posição é contraditória à ideia de participação do público?
Essa lei de direito autoral está equivocada. Imagine que o Instituto Moreira Salles está sendo processado porque a família de Volpi queria cobrar R$ 150 mil para permitir expor as obras que não são deles, são dos colecionadores. E cobrou também pelas imagens, então o catálogo não tem imagem nenhuma. É uma confusão. E o pior é que você é dono do trabalho do Volpi, mas não é dono da imagem do trabalho. Como eu posso comprar o quadro sem comprar a imagem dele? Isto não existe. Entendo que não se possa reproduzir uma obra fielmente, como a fotografia, por exemplo, que é a própria obra: se for publicar, o autor deve receber, tudo bem. O mesmo para uma gravura, se for imprimir uma cópia. Mas se o óleo sobre tela do Volpi tem 80 x 50 cm e eu vou reproduzir uma foto de 4 x 3 cm no jornal, eu tenho que pagar? Eu mesmo tenho o caso do meu livro Relâmpagos (Cosac Naify, 2008), que são textos ligados a obras de arte. A única obra que não foi reproduzida é exatamente a do bicho da Lygia, que era minha amiga! Acaba acontecendo o que aconteceu com Drummond, cujo neto cobrava fortunas para deixar citar qualquer verso. Aos poucos, todo mundo passou a evitar usar Drummond na TV e no cinema. O neto percebeu isso e mudou, senão o artista acaba ficando esquecido.

O Sr. disse que a crítica literária acabou (em entrevista ao suplemento literário do Diário Oficial de Pernambuco, em 1996). E a crítica de arte?
Também acabou. Nos anos 1950 até 1970, todo jornal tinha uma coluna de arte, era quase diária. Depois, passou a ser semanal. Hoje, existem alguns críticos que escrevem raramente, porque não há muito espaço. A imprensa acabou com ele por uma visão medíocre, de subestimar as coisas culturais. Basta ver o Lula, o Presidente da República, que não sabe nem ler, aí você vê o nível a que chegamos.

O Sr. não faz mais crítica de arte por falta de espaço?
Eu faço crítica, sou crítico de arte, mas algumas coisas eu ignoro. O cara vai lá fazer larva de mosca, e eu com isso? Não entendo deste assunto, não posso escrever “esta larva está muito boa, está ótima”. Isto não é assunto de arte, é assunto para biólogo. Vinte ovos fritos cada um num prato expostos numa galeria. Eu não tenho nada a ver com isso, isso é uma bobagem, algo que foi inventado gratuitamente. O cara não precisa saber pintar, desenhar, esculpir, nem pensar nada, só precisa ter uma boa ideia. Chamo isto de Caninha 51 [risos]. Encontrei uma moça que estava indignada porque o museu estava mostrando uma obra que era cópia da dela. Eu perguntei qual era a obra e ela respondeu: “são séries de cordas com nós, fui eu que inventei”. Ah, você que inventou o nó na corda? [Risos]. Lá no Maranhão, os barqueiros usam muito sua técnica, não sabia que você tinha inventado. Realmente é piada, não é?

Talvez faça parte da liberdade de formalismo que guia a arte contemporânea.
Não, isto é uma besteirada, um falso populismo, falsa democracia. É proibido proibir? Não é. Tem que proibir, a civilização existe porque há proibições, senão vou lá cagar na tua sala. É tudo hipocrisia. Lembro de um cara liberal pra caramba que, quando soube que a filha dele estava transando com o namorado, queria matar a mulher [risos]. Lá em Buenos Aires, ele falava “porque o sexo é livre” etc. Livre para comer a filha dos outros! É uma grande hipocrisia. Os críticos defendem o ovo frito e outras coisas porque eles têm medo que digam que são retrógrados e ultrapassados. Por isso, cria-se esta patotinha de artistas que são tão agradados, enquanto tem pintores maravilhosos que ninguém conhece. Eu conheço um ótimo gravurista que, depois de tentar, tentar e não conseguir expor, começou a juntar pedra no sítio do pai e expor pedra, e aí começou a ganhar dinheiro.

Por isso, a última Bienal de São Paulo não tinha nenhuma pintura?
A melhor Bienal que já houve foi essa, que reconheceu que não há nada a expor na boa arte. Se a Bienal de Arte Contemporânea está vazia, é isso mesmo. Só que a história não dura apenas cinco décadas. Muitas das coisas tidas como sendo de qualidade há um século atrás hoje desapareceram. Quem carrega as coisas é o povo, e o que não fala às pessoas pode estar na moda hoje, mas, daqui a cinquenta anos, desaparece.


1 Comentário

João Barroso Neto (Aldeota-Fortaleza) on 17 de fevereiro de 2010 at 8:05.

Aprovado!

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