FOLIA DE REIS

Por O Santo Ofício | 16 fevereiro, 2010

Por Stella Galvão

Mesmo diante do silêncio sepulcral dos homens do ramo privado, uns filhos do inominável, os blocos ganhariam as ruas natalenses, uma sequência de papangus em ano especialmente inspirado. Dali a alguns meses estariam todos em volta do pote de mel, ávidos por se besuntarem à farta.

Eram cinco blocos aguardados com impaciência pela cidade que amava folias dos reizinhos que ali imperavam. Havia o do boneco, marionete do primeiro quilate, louco para assomar na avenida com a opulência da sua crista livre de pelos. Era árdua a tarefa desse vivente amedrontador: achar no meio da folia quem lhe fizesse a corte, que aceitava romper com ele a aurora da bunfunfa federal, mesmo estando essa criatura fadada a ficar pelo caminho, deposto, pálida imagem do sombra defenestrado.

O boneco não perdia por esperar. Ao cair da noite do sábado de carnaval, se via ao longe uma bateção de asas sem fim. Era um séquito de libélulas, todas exageradamente enfeitadas para disfarçar a ausência de substância. De tão ocas e inexpressivas, mal cabiam nas vestes aéreas improvisadas.

Foram elas as mais ferozes defensoras da folia mesmo porque não tinham mais para onde correr. Sem um pau nem para ameaçar o mais tosco gato, esse bando só dava voltas e giros sem fim, cansando até o mais contentinho e desapegado dos foliões. Traziam ao fim do cortejo o número cabalístico da cifra que lançaram mão para duas folias, a popular e a restrita aos tubarões, estes inimigos mortais das piabinhas, tão simplesinhas e úteis.

Esses dois não contavam com a entrada do papangu-dama, este já mais alquebrado pela ação do tempo e pelas investidas cada vez mais torpes e lamentavelmente policiadas à sala do troféu. Esse papangu fazia o diabo para levar a melhor. Desde que tinha criado uma crista solene que rivalizava com extensões dignas de um mamífero doméstico, só queria saber do ganha-ganha.

Deixava adversários a morderem-se de raiva com os estratagemas que usava, mas, como não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe, neste carnaval ele poderia dançar bonito, implorando ao público por uns caraminguás para seus deserdados, pobres inúteis sem meio de vida.

O quarto grupo era formado por papangus muito ciosos do bom gosto e da graciosidade de suas lantejoulas. Enfileiravam-se entre as coisas da cultura, com um monte de signos e significações, nada mais que mesuras para tentar levar os Zés no bico. Mas era só serem apertados no meio da avenida que lançavam toda sorte de imprecações, com direito a mencionar práticas escatológicas triviais. Que se danasse a festa, a alegria, a livre explosão das pulsões controladas dia a dia, semana a semana. Era uma papanguzada só.

Finalmente, havia uma meia dúzia de galinhos e pintos meio engaiolados, mantidos à base de ração e língua controlada. Tudo o que eles desejavam era juntar-se ao cortejo, contentes e concordantes. Era purpurina demais pra tanto papangu de meia pataca e brilho inigualável entre iguais.


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