ANTIGO AMOR DE CARNAVAL
Por O Santo Ofício | 16 fevereiro, 2010
Por Marcelo Alves Dias de Souza
“Mas que direito que nada!”, gritei para mim mesmo, já à noitinha, quando resolvi escrever esta crônica. Já era quase carnaval e não deveria perder meu tempo com assunto tão enfadonho. Nesses momentos, melhor é seguir a sábia lição de Ascenso Ferreira: hora de vadiar, vadiar; hora de “trabalhar”, se já é quase carnaval, “pernas pro ar que ninguém é de ferro!”.
“Está decidido”, confabulei, “vou escrever sobre o carnaval”. É assunto suave, lúdico e interessa a todos. Quem não tem um carnaval guardado na memória? Ou mesmo, ainda folião, não sonha com outros carnavais? E, nos dias de hoje, pelo que leio nos jornais da terrinha, o carnaval já é assunto de segurança municipal e, quem sabe, ano de eleição, não virará tema de segurança nacional ou até multinacional. “Poderei eu dar à minha crônica qualquer viés, tratando ou não das relevantíssimas questões jurídico-momescas, a depender do que me der na telha”, sussurrei para mim mesmo.
“Mas qual seria esse viés?”, ainda matutava. Foi aí que o “destino” pregou uma peça e dirigiu, sem eu querer, a tônica desta crônica. O fato é que, antes de traçar estas primeiras linhas, divagando, danei-me a assistir, via YouTube, a uns vídeos de poemas declamados. De declamação em declamação, eis que esbarro com “Meus oito anos”, com Casimiro de Abreu “à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais”.
O “destino”, assim, fez-me um saudosista. É verdade que um cronista saudoso é sempre um perigo. Às vezes se revela uma figura triste e, não fosse carnaval, poderia eu ter escrito uma dolorosa crônica nessa noite. Mas não foi o caso. Recordei, sim, com imenso deleite, meus primeiros carnavais. Tempos ditosos dos carnavais da velha Redinha, onde todos se conheciam e que, se é verdade, “os anos não trazem mais”, nem por isso deixaram de ser tempos ditosos, cujas lembranças eu carrego ainda guardadas na algibeira.
Daqueles carnavais, não vou esquecer um em particular. O ano, passadas tantas folias, já não sei precisar. Suas muitas personagens, seus pierrôs e suas colombinas, seus rostos e seus cheiros, prefiro não nominar, uma vez já experimentados e misturados tantos perfumes. Mas isso não importa. Verdadeiramente importa, daquele carnaval, um único cheiro, que jamais esqueci. Meu amor de carnaval, ela tinha os olhos de um azul tão calmo e tão tempestuoso como o azul do mar. Aquela criatura, adorei-a, extasiado, como santa e pecadora (mas que amor carnal não é santo e pecador?). Para mim, ainda e já não mais menino, ela foi, ao mesmo tempo, a calmaria e a tempestade do meu carnaval.
Em momentos de calmaria, dávamos as mãos e íamos, sem rumo, só os dois. Aquele seu olhar já preenchia meu coração. Corremos pela praia e tomamos banho de mar. Construímos nossos castelos (de areia). E rimos, de modo tão natural, que se ouvia de longe. Ali, éramos, sobretudo, crianças felizes. Na tempestade da folia (e dela), bebemos, brigamos e amamos. Brindamos à alegria e à juventude pelas ruas daquela outra Redinha, nas marchas e contramarchas da sua banda e do nosso bloco, do querido Pé-do-Gavião às dunas do Portal. E à noite, já cansada, ela sempre adormecia em meus braços.
Mas ao passar a tempestade de folia, eis que veio uma diferente calmaria. E ela me disse, ao fim dos quatro dias, em tom de despedida, com uma calma que me marcou mais que qualquer de suas “tempestades”: “Nos encontraremos sempre na Redinha, no carnaval, se o carnaval daqui prometer ser bom. Eu juro”. O carnaval da Redinha nunca mais prometeu nem foi bom. Mesmo assim, ainda voltei ali em algumas folias, para, perdido e sabendo que já não seríamos mais os mesmos, procurar em vão pelo perfume do meu amor de carnaval.
Como já disse, um cronista saudoso é sempre um perigo. Se não se mostra inteiramente triste, ele guarda um quê de ranzinzisse e tem sempre algo para reclamar, como outrora o fez o outro Drummond, na busca por sua eterna e tempestuosa Hilda. Esse é o meu caso, acredito, justificadamente.
E assim exijo, pelo amor de Deus e do Diabo, dos foliões e folionas, autoridades municipais, estaduais, nacionais e até multinacionais: revitalizem o carnaval da Redinha. Se não por outro motivo, pelo menos para que eu possa, egoisticamente, reencontrar o meu amor de carnaval.
Marcelo Alves Dias de Souza é
Procurador da República,
Mestre em Direito pela PUC/SP e
Doutorando pelo King’s College London – KCL




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