EDGAR BARBOSA NO TEMPO

Por O Santo Ofício | 24 janeiro, 2010

Por Franklin Jorge

Escritor ático, conciso e denso, da plêiade de humanistas, escreveu Edgar Barbosa [1909-1976] uma página memorável sobre a longa impunidade que instiga os maus instintos do homem.

Está em Imagens do Tempo, reunião de crônicas e preciosos ensaios, há muito esgotado e pedindo reedição cuidadosa. Trata-se dum clássico moderno. Uma obra canônica.

“Para muito poucos ouvidos ainda ecoam, da sombra de dois mil anos, as apóstrofes dos discursos de Cícero; e ouvindo-as, ficava-se menos espantado dos quadros de corrução que revelam do que do cinismo com que essa corrução cantava as suas vitórias e se vangloriava de sua longa impunidade”, põe-se o fino estilista do Ceará-Mirim a escrever.

E prossegue:

“Pergunta-se ainda hoje se toda aquela ignomínia era possível em Roma, dentro do Senado e sob a indiferença do povo-rei. E os exemplos de varões da estirpe de Cincinato e Régulo? Onde homens como Catão o Antigo? Onde aquela jovem patrícia citada por Renan e cujo epitáfio dizia que fora bela, e que fiara o seu linho sem jamais sair de casa?

É o próprio Cícero quem responde: -

A severidade dos costumes foi, talvez, apanágio dos Camilos, dos Fabrícios, dos Curius, mas não está hoje em prática. Ainda mais quase se não lêem os livros que as recomendam, envelheceram e saíram da atualidade. Hoje em dia, os que pregam que se deve seguir penosamente o caminho direito para chegar à glória, são abandonados nas solidões das escolas…

Adverte-nos Edgar que essas palavras têm vinte séculos. Mas – acrescenta -, repetidas em nossa época, ainda se traduzem em todas as línguas, sobretudo entre os povos mais novos, que poderiam ao menos ter a escusa da inocência e da boa fé.

Vivendo em Natal, Edgar viu.

“Justamente a fraude, a corrução e o suborno se constituíram, em nosso tempo, as marcas predominantes nos crimes contra o patrimônio. O ladrão violento passou a ser figura de opereta. O cangaceiro brasileiro do tipo de Lampeão, o “bravi” da Sardenha e da Calábria, o “out-law” do oeste americano, são personagens que saíram do palco, postos para fora pelo “architectus fallaciarum”, o “scroc”, o chantagista, o marreteiro das cidades”.

“É nas metrópoles que agem esses bandidos risonhos, bem enfarpelados, sociáveis, que dominam vários idiomas e que assassinam brincando. O seu símbolo mais humanizado foi aquele Al Capone, cavalheiro distinto, de superior elegância, que, rei dos “gangsters”, morreu docemente, sem nenhum remorso”.

Edgar reitera, ao fim, o que Cícero clamava, há dois mil anos, pode se ter perdido entre as infinitas ressonâncias dos séculos.

Mas a corrução que ele verberou continua, impassível, cantando as suas vitórias e vangloriando-se da sua longa impunidade.


8 Comentários

Eduardo on 24 de janeiro de 2010 at 10:54.

Estupendo!

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Boy Detonação on 24 de janeiro de 2010 at 11:08.

Manero, véi!

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Doralice, de Aquiraz - CE on 24 de janeiro de 2010 at 12:58.

Um grande momento do Jornalismo Cultural.

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Eli on 24 de janeiro de 2010 at 13:16.

Concordo!

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Sebastiana Rosado on 24 de janeiro de 2010 at 17:19.

Franklin fez qualquer coisa que melhorou o texto.

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Geni Alves on 24 de janeiro de 2010 at 17:26.

Seleção perfeita. Ajudam a fazer uma leitura em profundidade do presente, da terrivel realidade que nos constrita.

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Socorro Varela on 25 de janeiro de 2010 at 8:14.

Uma justa e correta homenagem.

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joão batista on 25 de janeiro de 2010 at 9:00.

Gosto muito desse livro. Acho que merece uma reedicão sim.

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